Intervenção no Cruzeiro do Sul cria debandada de títulos

Situação da instituição aumentou receios de que os bancos médios no Brasil terão dificuldade em honrar mais de US$ 2 bilhões em dívidas no exterior nos próximos 18 meses

São Paulo/Nova York – A intervenção no Banco Cruzeiro do Sul SA está aumentando os receios de que os bancos médios no Brasil terão dificuldade em honrar mais de US$ 2 bilhões em dívidas no exterior nos próximos 18 meses, à medida que o real se desvaloriza e os custos de captação disparam.

A taxa nos papéis em dólar para 2020 do Cruzeiro do Sul disparou 1.027 pontos-base, para patamar recorde de 23,44 por cento ontem, após o Banco Central determinar intervenção no banco por 180 dias, citando “graves violações” de regras. O custo de captação para instituições financeiras brasileiras com menos de R$ 2,2 bilhões em ativos disparou, com as taxas dos títulos do Banco BMG SA e do Banco Pine SA aumentando 110 pontos-base, ou 1,10 ponto percentual. O rendimento de títulos de bancos latino americanos subiu 25 pontos-base, para 6,15 por cento, segundo o Credit Suisse Group AG.

O Cruzeiro do Sul se tornou o quinto banco de porte médio brasileiro a sofrer intervenção nos últimos dois anos, ressaltando as crescentes dificuldades no setor. Essas instituições buscam refinanciar cerca de US$ 2,2 bilhões em dívidas vencendo em 2013.

Os bancos deverão enfrentar problemas para honrar suas obrigações financeiras dado que a queda de 9,3 por cento do real em relação ao dólar no ano até agora eleva o custo do serviço da dívida externa, disse Alfredo Viegas, diretor executivo para mercados emergentes da Knight Capital. Na semana passada, o Banco Pine adiou uma captação que faria no exterior.

Honrar as dívidas que estão vencendo “será um desafio, especialmente quando se leva em conta a deterioração no cenário global”, disse Viegas por e-mail com respostas a perguntas da Bloomberg News. “Além disso, a queda do real vai ser dolorosa para muitos desses caras pequenos que não fizeram hedge cambial.”

Gestão do FGC

Os bônus do Cruzeiro do Sul pagam 20,57 pontos percentuais a mais do que a dívida pública de prazo similar, comparado a uma diferença de 12,92 um mês atrás, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. A nota de crédito da instituição foi rebaixada em seis níveis para CC pela Standard & Poor’s ontem. A nota está 10 níveis abaixo do grau de investimento e 11 níveis menor do que a classificação soberana do Brasil.

O Fundo Garantidor de Crédito vai administrar o banco sediado em São Paulo, de acordo com comunicado enviado ontem pelo Banco Central. O Cruzeiro do Sul, vigésimo sétimo maior banco brasileiro pelo critério de ativos cometeu “graves violações” às regras do sistema financeiro e as autoridades encontraram “insubsistência de itens do ativo”, segundo o comunicado. Sinais de fraude aparente foram encontrados numa carteira de R$ 1,3 bilhão de propriedade do banco, em preparação para venda, disse o diretor executivo do FGC, Antônio Carlos Bueno.

“Incapaz de honrar”

“O rebaixamento reflete a deterioração da liquidez do banco, de tal forma que acreditamos que o banco é incapaz de honrar suas obrigações sem ajuda extraordinária do FGC ou de autoridades brasileiras”, disse Cynthia Cohenfreue, analista da S&P, em relatório ontem.

O Cruzeiro do Sul vai honrar todas as suas dívidas, disse Bueno a repórteres em São Paulo ontem. O FGC não é responsável pelas obrigações do banco no exterior, disse ele.


O Cruzeiro do Sul SA é uma instituição de pequeno porte “sem relevância sistêmica”, disse Anthero Meirelles, diretor de fiscalização do BC, a repórteres em Brasília ontem.

Um representante do Cruzeiro do Sul que pediu para não ser identificado em obediência à política interna se negou a comentar.

Títulos do BMG

O rendimento dos bônus do BMG com vencimento em 2018 avançou ontem para um recorde de 12,69 por cento, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

As obrigações do BMG denominadas em dólar e os pagamentos de cupom são protegidos por hedge e a instituição não tem dívida vencendo até 2014, disse o diretor financeiro Clive Botelho.

“O banco manteve seu market share no mercado de consignado”, disse Botelho em entrevista por telefone de São Paulo. “É natural, no primeiro momento, que o investidor tenha uma reação mais generalizada.”

O Cruzeiro do Sul tem US$ 375 milhões de principal e US$ 180 milhões em pagamentos de juros vencendo até o final de 2013, enquanto o BMG possui US$ 50 milhões de principal e US$ 209 milhões de juros a vencer, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. Cinco outros bancos têm cerca de US$ 1,2 bilhão de principal e juros vencendo no mesmo período, mostram os dados da Bloomberg.

Banco Pine

O Banco Pine, sediado em São Paulo e focado em crédito para empresas de médio porte, adiou planos para vender 80 milhões de francos suíços em papéis com vencimento em 2014, segundo uma pessoa a par da transação que pediu para não ser identificada por não ser autorizada a falar publicamente. O rendimento dos títulos do Pine com vencimento em 2017 deu um salto de 34 pontos-base ontem para 8,37 por cento, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

Raquel Varela, diretora de relações com investidores do Banco Pine, não respondeu ao telefonema e e-mail com pedidos de comentários.

“É definitivamente um setor com o qual temos cautela”, disse Shamaila Khan, que administra dívida corporativa de mercados emergentes na Alliance Bernstein LP de Nova York, que supervisiona US$ 418 bilhões em ativos. “Essas firmas em geral não têm conseguido acessar os mercados de capitais. A falta de transparência no setor também tem sido um grande problema para nós.”

Mercados internacionais

Para Robert Stoll, analista da Fitch Ratings, a dívida em dólar dos bancos de médio porte representa uma parte pequena do financiamento geral deles. As obrigações na moeda americana dessas instituições são relativas ao financiamento de comércio exterior, então o pagamento dos ativos é casado com as obrigações, ele disse.

“Eles se asseguram de que os empréstimos serão pagos antes do vencimento da obrigação em si”, disse Stoll em entrevista por telefone de Nova York. “Quando não podem casar a operação com exatidão, eles fazem hedge para se proteger.”