“Índice do medo” sobe 40% em 24h e reforça incerteza global

O VIX, que mede o intervalo mais provável de oscilação do S&P um ano à frente, disparou desde o anúncio de novas tarifas americanas, na quinta-feira

A segunda-feira vermelha nos mercados acionários, com perdas nos principais índices de ações, é um indicador de que algo não anda bem nas finanças globais. O índice S&P 500 caiu 2,98%; o Ibovespa, 2,51%. Mas há um índice que mede com mais precisão o clima de incertezas que se abateu sobre investidores: o VIX, também conhecido como índice do medo. O VIX é baseado em contratos futuros de ações e mede o intervalo mais provável de oscilação do S&P um ano à frente.

Até quinta-feira passada, antes de o presidente americano anunciar pelo Twitter que implementaria novas tarifas de 10% sobre 300 bilhões de dólares em importações chinesas, o VIX estava numa faixa considerada de pouco risco, perto dos 14. Mas o tweet de Trump, reavivando a guerra comercial entre China e EUA, fez o índice fechar a semana em 18.

Até que, nesta segunda-feira, o governo chinês desvalorizou o iuane para o menor patamar em uma década, a sete por dólar, e bloqueou importações agrícolas dos Estados Unidos. Foi uma reação à altura da nova estocada de Trump, e a certeza de que ninguém sabe ao certo o quanto a guerra comercial pode impactar o comércio e a economia global.

As bolsas globais despencaram, e o Vix disparou 39%, para 24,60 — desde quinta-feira, a alta é de 77%. É uma marca que, segundo Celso Toledo, economista da consultoria LCA e colunista de EXAME, mostra que “o gato está no telhado”. Qualquer coisa acima dos 30 é motivo para pânico. Ainda não estamos lá, mas são os tweets de um lado, e as reações do outro, que mostrarão para onde vamos.

A leitura de investidores e economistas é que o momento é de apreensão porque o rebaixamento do yuan é uma mostra de que o governo chinês está ciente da gravidade da situação, e está lançando mão de agressivas medidas para manter sua economia aquecida. Trump voltou a afirmar, nesta segunda-feira, que a China pratica manipulação cambial para manter sua moeda virtualmente desvalorizada e, com isso, conseguir vantagens competitivas.

A China vem reduzindo reiteradamente suas perspectivas de crescimento, com dificuldade de ganhar produtividade — uma realidade piorada com a guerra comercial. Como o país é governado por partido único, faltam mecanismos de correção, mas a conta vai sendo empurrada com a barriga. No segundo trimestre o país cresceu 6,2%, a menor taxa em 27 anos.

Outro componente da cautela é a anemia da economia americana. Apesar dos fundamentos que a qualificam como a maior esperança de retomada consistente da economia global, como o desemprego historicamente baixo, as previsões de crescimento para o país vêm sendo reduzidas. No segundo trimestre, a economia americana cresceu 2,1%, ante meta de 3% fixada por Donald Trump. O presidente tem culpado reiteradamente o banco central do país, o Fed, pela lentidão na redução de juros e a consequente falta de impulso para o crescimento do país.

Mas a situação é mais complexa do que isso. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a guerra comercial reduzirá o crescimento da economia global de 3,3% para 3,2% este ano; para ano que vem, o crescimento é projetado como “precário”. “A ficha caiu que a recessão futura é praticamente inevitável por obra de Donald Trump. Quem achou ótimas as políticas de curto prazo dele infelizmente não percebe o mal de longo prazo que ele provoca”, diz Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados e colunista de EXAME.

As eleições americanas no ano que vem devem manter o grau de tensão, e a instabilidade no VIX, em alta até o ano que vem. O índice S&P 500, com as maiores empresas listadas nos EUA, acumula alta de 29% desde a eleição de Donald Trump — indicador que sempre foi tratado por ele como trunfo eleitoral. Daqui para a frente, investidores devem manter os olhos cada vez mais pregados no VIX — e estar preparados para dias de altíssima emoção como esta segunda-feira.