Diminuem apostas em Selic abaixo de 10% com queda de desemprego

No mercado, crescem as especulações de que o governo estaria ficando sem espaço para cortar juros

São Paulo – O menor desemprego já registrado no País e a inflação acima da meta esvaziaram as apostas de operadores de que o juro básico vá cair para menos de 10 por cento pela segunda vez desde 1999.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2013 deu um salto de 16 pontos-base ontem, para 9,99 por cento, maior alta desde setembro. Os rendimentos dos contratos de juros futuros indicam que os operadores apostam que o Banco Central vai reduzir a Selic em 100 pontos-base, ou 1 ponto percentual, para 10 por cento em 2012, segundo dados compilados pela Bloomberg. Há duas semanas, as apostas indicavam corte para 9,75 por cento.

Crescem as especulações de que o governo estaria ficando sem espaço para cortar juros. Contribuem para isso o anúncio, ontem, de queda do desemprego para uma mínima histórica e do relatório trimestral de inflação do BC. No relatório, a autoridade monetária diz que a demanda interna “robusta” continuará a pressionar preços em 2012 em meio a uma “resistência significativa” a quedas na inflação. A declaração marcou uma mudança no foco do BC de proteger a economia dos efeitos da crise da dívida europeia.

“O relatório de inflação está mais agressivo que o esperado”, disse Ronaldo Patah, que administra R$ 72 bilhões como chefe de renda fixa no Itaú Asset Management, em São Paulo. “Ou os números mudam, ou o espaço para cortar fica limitado.”

Da Turquia à Tailândia

As Notas do Tesouro Nacional série F com vencimento em 2017 caíram ontem, o que elevou a taxa dos papéis em 10 pontos-base, para 11,1 por cento. Foi a maior alta no rendimento desde 10 de novembro.


O Brasil é um dos países, da Turquia à Tailândia, que reduziram juros neste ano para proteger suas economias à medida que a crise europeia afeta suas exportações e a confiança dos investidores. O BC, presidido por Alexandre Tombini, já reduziu a Selic em 150 pontos-base desde agosto, mesmo com a inflação superando o teto de tolerância da meta nos últimos oito meses.

A inflação se acelerou pelo segundo mês seguido, com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 avançando 6,56 por cento nos 12 meses até dezembro, disse o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 21 de dezembro. A inflação pode encerrar o ano acima da meta pela primeira vez em oito anos. A meta é de 4,5 por cento com tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.
O juro real, ou seja, descontando a inflação, está em 4,4 por cento, o segundo maior no mundo após o da Croácia, segundo dados compilados pela Bloomberg.

O BC disse em seu Relatório de Inflação que vê algumas barreiras ao recuo da inflação para a meta de 4,5 por cento, como o consumo das famílias e o mercado de trabalho aquecido. “A demanda doméstica ainda se apresenta robusta, especialmente o consumo das famílias, em grande parte devido aos efeitos de fatores de estímulo, como o crescimento da renda e a expansão do crédito”, de acordo com o relatório.

Isenções de impostos

Numa tentativa de estimular o crescimento, o governo cortou em novembro impostos sobre produtos como eletrodomésticos da linha branca e massas, após a economia ter encolhido no terceiro trimestre pela primeira vez desde 2009. A presidente Dilma Rousseff, que tomou posse em janeiro, prometeu reativar o crescimento econômico para cerca de 5 por cento no ano que vem, comparado a uma expansão estimada em 3 por cento em 2011.

O IPCA vai subir 4,7 por cento em 2012 e 2013, de acordo com o cenário de referência do BC, que considera a Selic inalterada em 11 por cento. No cenário de mercado, que leva em conta as projeções dos operadores, o IPCA avançará 4,8 por cento em 2012 e 5,3 por cento em 2013.

“Neste relatório, o BC está reconhecendo a persistência da inflação”, disse Mauricio Nakahodo, economista sênior da CM Capital Markets, em entrevista por telefone de São Paulo. “Há menos espaço para um ciclo prolongado de cortes de juros.”

Desaceleração da China

Ainda assim, a contínua desaceleração da economia chinesa daria mais espaço para Tombini baixar os juros sem ameaçar a meta de inflação, disse Ram Bala Chandran, estrategista de câmbio e juros para América Latina do Citigroup Inc. Em 2009, a China ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil, comprando commodities como minério de ferro e soja.


“A imagem do Banco Central vai ficar boa enquanto o ambiente externo continuar se deteriorando”, disse Chandran em entrevista por telefone de Nova York.

Juros menores em 2012 provavelmente alimentarão a pressão inflacionária em 2013 e o BC está preparado para agir quando necessário, disse Carlos Hamilton, diretor de política econômica da instituição, a repórteres ontem em Brasília.

“Se necessário, os juros vão subir”, disse ele.

Serviços

O BC reduziu a Selic em 5 pontos percentuais, para a mínima histórica de 8,75 por cento, nos seis meses até julho de 2009, depois que o colapso do Lehman Brothers Holding Inc. enxugou o crédito bancário para empresas em todo o mundo. Foi a primeira vez que o juro básico brasileiro ficou abaixo de 10 por cento desde que o BC adotou o regime de metas de inflação, em 1999.

Os juros não devem cair tanto desta vez, disse André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos em São Paulo. O BC estima que a atual crise internacional terá um impacto no Brasil equivalente a 25 por cento dos efeitos da crise financeira global de três anos atrás, segundo a Ata do Comitê de Política Monetária do BC.

“A dinâmica da inflação está muito calcada em serviços”, disse Perfeito. “E os serviços são insensíveis ao cenário externo. Trabalhar com juro de um dígito em 2012 seria complicado.”