Ibovespa cai 2% em dia de pânico na Argentina; JBS, Marfrig e BRF avançam

Dólar fechou a R$ 3,98, contaminado pela desvalorização das moedas emergentes

Os mercados no Brasil não foram poupados da turbulência que tomou conta da Argentina nesta segunda-feira (12). O principal índice da bolsa brasileira cedeu 2%, aos 101.915 pontos, com quase todas as ações no vermelho. Em forte baixa, os papéis de Petrobras, Vale e Itaú Unibanco e Bradesco ajudaram a pressionar o indicador.

As exceções do Ibovespa ao longo da sessão eram as processadoras de carnes JBS, BRF e Marfrig, que avançaram 5,6% e 3,6%, respectivamente. A americana Tyson Foods informou que sua fábrica de processamento de carne no Kansas ficará fechada após um incêndio na sexta-feira. As companhias têm operações nos EUA. No fechamento, também subiram a produtora de papel e celulose Suzano, a elétrica Taesa e a empresa de saneamento Sabesp.

Ações argentinas em queda livre

O Merval, um dos principais índices da Bolsa de Comércio de Buenos Aires, fechou em forte baixa de 30%, aos 27.940 pontos, nesta segunda-feira (12). O fundo que reproduz o índice MSCI Argentina, o ARGT, abriu em baixa de 27%.

As ações argentinas figuraram entre as piores perdas no Nasdaq, com as ADRs (recibos de ações negociados em NY) despencando. O papel da estatal petroleira YPF cedeu acima de 30%. A siderúrgica Ternium recuou acima de 15%.

Para tentar conter o dólar, o Banco Central da Argentina subiu os juros, de 63,7% ao ano na sexta-feira para 74% ao ano, além de vender US$ 50 milhões em reservas para tentar acalmar o dólar. O risco-país da Argentina atingiu 9,05 pontos percentuais, alta de 0,33 ponto percentual. Como comparação, o do Brasil é de cerca de 1,30 ponto. Leilões de dólares nos últimos meses foram realizados usando fundos do Tesouro.

Os títulos argentinos também sofreram. Quedas de 18 a 20 centavos no título referencial da Argentina de 10 anos os levou a serem negociados em torno de 60 centavos ou menos. Dados da Refinitiv mostraram que as ações, títulos e peso argentinos não registram esse tipo de queda simultânea desde a crise econômica do país e default da dívida em 2001.

Moedas emergentes sentiram o baque

O câmbio doméstico sentiu o aumento da volatilidade no mercado argentino, onde o peso desabou cerca de 30% no pior momento do dia, para uma nova mínima recorde, diante de receios de que o futuro governo possa adotar políticas econômicas heterodoxas.

dólar subiu fortemente ante o real nesta segunda, chegando a superar os 4 reais logo após a abertura dos negócios, em meio à aversão ao risco, que enfraqueceu as moedas emergentes. A moeda norte-americana avançou 1,05%, aos 3,9837 reais. É o maior patamar para um encerramento desde 28 de maio (4,0242 reais).

O peso argentino encerrou em queda de 12%, a 53,5 por dólar, depois de atingir mais cedo a mínima recorde de 65 por dólar, segundo operadores.

A correlação de 200 dias entre real e peso argentino tem estado em torno de 0,68, nas máximas desde o começo do ano. Quanto mais próximo de 1, mais os dois ativos tendem a oscilar na mesma direção.

A instabilidade no mercado argentino tende a afetar o brasileiro uma vez que o país vizinho é importante destino das exportações brasileiras de manufaturados, cujas quedas podem impactar negativamente o já lento crescimento econômico doméstico.

Mas o dólar se fortaleceu de forma generalizada ante emergentes, diante dos receios em torno da guerra comercial entre chineses e norte-americanos. A fuga de risco beneficiou o iene e derrubou Wall Street.

“Esperamos que a incerteza continue elevada em agosto conforme o próximo capítulo da guerra (comercial) entre EUA e China se desenrola”, disseram estrategistas do Bank of America em nota a clientes. “A América Latina parece ser a região mais exposta dentre os emergentes”, acrescentaram.

Em meio às incertezas, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, repetiu que o Brasil tem posição cambial “sólida” e está preparado para enfrentar crises.

Corrida para precificar eleição argentina

O mercado mostrou grande nervosismo após a derrota do presidente da Argentina, Mauricio Macri, nas eleições primárias realizadas na véspera no país. O resultado põe em xeque a reeleição do mandatário no pleito geral de outubro e coloca a oposição como favorita na disputa.

Os eleitores argentinos rejeitaram com ênfase as políticas econômicas austeras de Macri. A coalizão que apoia o candidato de oposição Alberto Fernández, cuja companheira de chapa é a ex-presidente Cristina Kirchner, liderava com 47,3% dos votos, uma vantagem de 15 pontos percentuais.

O receio dos investidores é que o país abandone as políticas de ajuste fiscal e liberdade econômica de Macri, voltando às medidas populistas dos governos de Nestor e Cristina Kirchner. As preocupações cresceram após Fernández afirmar que pretende ampliar benefícios e investimentos em escolas com os recursos do pagamento de juros da dívida argentina.

A vitória dos peronistas Fernández e Kirchner “abre caminho para o retorno do populismo de esquerda que muitos investidores temem”, disse a consultoria Capital Economics em nota.

Para o BTG Pactual, a principal questão após a vitória é se Fernández sinalizará moderação para evitar um colapso na moeda. “Com esta vitória esmagadora, no entanto, agora é de seu maior interesse conter o impacto sobre a taxa de câmbio e as saídas de capital, algo que exigirá mais clareza em suas políticas futuras”, afirmou o banco.

Em relatório enviado a clientes, analistas da Rico Investimentos afirmaram que o mercado “odiou” o resultado porque “o governo de Cristina Kirchner adotou um modelo econômico que praticamente afundou a economia para a crise que ainda se encontra, nacionalizando empresas, manipulando dados oficiais e provocando repulsa aos investidores”.

Macri assumiu o poder em 2015 com promessas de recuperar o país através de uma onda de liberalização. Mas a recuperação prometida não se materializou e a Argentina está em recessão com inflação de mais de 55%. Uma forte crise financeira no ano passado afetou o peso e forçou Macri a tomar um empréstimo junto ao FMI em troca da promessa de equilibrar o déficit argentino.

Caos na Argentina pode contaminar o Brasil?

“Como também somos um país emergente, acabamos entrando no mesmo pacote de países com economia fragilizada pelo olhar dos investidores internacionais. E sofremos em conjunto, assim como o México e a África do Sul, que também enfrentam perdas”, afirmou em relatório o estrategista-chefe da consultoria independente Levante Ideias de Investimento, Rafael Bevilacqua.

A equipe da Genial Investimentoss afirmou em nota que “será um efeito de curto prazo, sem grandes consequências no médio e longo prazos. O país esta se mostrando muito mais resiliente que no passado”.

A Argentina é importante destino das exportações de maior valor agregado do Brasil e o aumento da instabilidade por lá pode afetar o já lento crescimento do PIB brasileiro.

Outros fatores de pressão

Fora da América do Sul, o viés negativo também prevaleceu, diante do pessimismo na disputa EUA-China. Para o Goldman Sachs , o temor de que a guerra comercial leve a uma recessão está aumentando. O banco também não espera que os países cheguem a um acordo antes das eleições norte-americanas de 2020.

No cenário doméstico, com a reforma da Previdência bem encaminhada no Senado, a classe política começa a discutir a reforma tributária. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), defendeu uma proposta que inclua Estados e municípios, como pretende o governo Jair Bolsonaro.

O mercado segue de olho nos balanços trimestrais de empresas do Ibovespa, incluindo Magazine Luiza, Eletrobras e Estácio (Yduqs) dentre as que divulgam resultados nesta noite.