Fracasso de IPOs de aéreas precede oferta da Azul

Após interromper o processo duas vezes nos últimos 16 meses, empresa se inscreveu novamente na semana passada para vender ações nos EUA e no Brasil

São Paulo – David Neeleman, o empreendedor da aviação que fundou a JetBlue Airways Corp., está apostando que sua oferta pública inicial pela Azul SA, do Brasil, será bem-sucedida onde outras companhias latino-americanas não conseguiram.

Após interromper o processo duas vezes nos últimos 16 meses, Neeleman se inscreveu novamente na semana passada para vender ações nos EUA e no Brasil.

Trata-se de outra chance para o empreendedor e seus financiadores, que desde 2008 esperam um retorno para seu investimento.

A Azul é a sexta companhia aérea latino-americana a anunciar um IPO nos últimos três anos e as vendas não têm ido bem.

Dois IPOs de companhias aéreas mexicanas foram desfeitos e três outros estão sendo negociados a um preço mais de 20 por cento inferior ao preço de oferta.

Neeleman tentou vender ações em agosto de 2013, mas cancelou a oferta depois que o Ibovespa despencou. O processo se repetiu no início deste ano.

“Não é um momento fácil para esse espaço”, disse Eric Conrads, gestor financeiro da ING Groep NV em Nova York que supervisiona cerca de US$ 500 milhões em ações latino-americanas. “Você tem um crescimento fraco do PIB e moedas que estão se desvalorizando, o que afeta a demanda”.

Embora Neeleman e a assessoria de imprensa da Azul tenham preferido não discutir o IPO nesta semana, ele tem dito que a companhia aérea está focada em recompensar seus investidores e não está sendo impulsionada pela necessidade de levantar dinheiro.

Condições de mercado

“Nossos acionistas estão nisso há seis anos e querem poder realizar alguns de seus investimentos, o que eu acho justo”, disse Neeleman, 55, em uma entrevista na sede da Bloomberg em Nova York, no dia 11 de setembro.

“O motivo pelo qual não temos capital aberto hoje é mais um problema de condição de mercado do que de condição da empresa”.

A Azul disse em um prospecto na semana passada que está levantando dinheiro para expandir sua frota de 128 aviões atualmente em operação, adicionar mais rotas e permitir que os atuais acionistas reduzam suas participações na terceira maior companhia aérea do Brasil.

A Azul enfrenta obstáculos, incluindo um mercado acionário local volátil, uma economia em estagnação e a queda da moeda local. O índice de referência Ibovespa caiu 15 por cento nos últimos três meses e os economistas preveem que o crescimento em 2014 será de 0,18 por cento.

A queda de 13 por cento do real no período é a pior entre as principais contrapartes do dólar em todo o mundo.

Preços do combustível

Isso é uma notícia ruim para a Azul, que tem sede em Barueri, Brasil. Embora a maior parte de sua receita seja em reais, o combustível e vários jatos são precificados em dólares.

Os preços do combustível são os menores dos últimos três anos e um plano agressivo de expansão favorece Neeleman.

As políticas de aviação do governo estão beneficiando Azul mais do que os seus concorrentes. A empresa aumentou sua fatia de slots no aeroporto doméstico de São Paulo em maior proporção que suas rivais e também está em posição de lucrar com uma proposta de subsídio à aviação regional, porque já serve muitas das cidades qualificadas, onde seus aviões têm o tamanho certo para operar de forma lucrativa.

Neeleman é o maior acionista da empresa, seguido pelas famílias Chieppe e Caprioli, que eram proprietárias da Trip Participações SA quando ela foi vendida à Azul em 2012.

Entre os demais acionistas estão fundos de private equity operados pela TPG Capital e a Gávea Investimentos Ltda, do JPMorgan Chase Co., segundo o prospecto.

Um assessor de imprensa que representa a TPG preferiu não comentar sobre o IPO e a Gávea não respondeu imediatamente a um e-mail em busca de comentário.

Participação de mercado

A Azul, que começou voando para cidades pequenas e mal atendidas do Brasil, mantém a sua participação de mercado em cerca de 17 por cento desde que comprou a Trip.

A companhia opera em mais de 100 cidades do Brasil, maior total entre as aéreas, e adicionou rotas americanas na semana passada após fechar a compra ou o leasing de US$ 8,5 bilhões em jatos pequenos e grandes da Airbus Group NV. A Azul também assinou uma carta de intenções em julho para compra de 30 aviões de segunda geração da Embraer.

A expansão agressiva da capacidade em voos internacionais criou um desequilíbrio na oferta e demanda dos mercados latino-americanos, escreveu uma equipe de analistas do Banco Itaú BBA liderada por Renato Salomone, em uma nota de 7 de novembro.

“Nós continuamos recomendando que os investidores evitem ações de companhias aéreas com alta exposição ao complicado mercado aéreo internacional latino-americano enquanto não virmos um céu mais limpo”, escreveram os analistas.

A ABC Aerolíneas, do bilionário mexicano Miguel Alemán, e a Grupo Viva Aerobus SAB, financiada pelos fundadores da Ryanair Holdings Plc, desistiram de suas vendas de ações na noite em que os papéis seriam precificados.

A Viva Aerobus retirou seu IPO em fevereiro, citando a volatilidade do mercado.

Alemán atribuiu a condições desfavoráveis a demora, desde 2011, de uma venda de ações de US$ 300 milhões na ABC Aerolíneas, também conhecida como Interjet.

Modelos a seguir

As companhias aéreas mexicanas Controladora Vuela Compañía de Aviación SAB e Grupo Aeroméxico SAB caíram mais de 24 por cento desde sua estreia, em 2013 e 2011, respectivamente.

A Avianca Holding SA, com sede na Cidade do Panamá, cujos recibos depositários americanos começaram a ser negociados em novembro de 2013, caiu 23 por cento desde então.

Neeleman pode estar esperando que a Azul pareça com algumas companhias aéreas com sede nos EUA que venderam ações. A Virgin America Inc., do bilionário Richard Branson, com sede em Burlingame, Califórnia, subiu 56 por cento desde que começou a ser negociada, no mês passado, em Nova York.

Os preços das ações da Spirit Airlines Inc., com sede em Miramar, Flórida, se multiplicaram por cinco desde seu IPO, em 2011.

“Obviamente, isso varia de história para história”, disse Conrads, do ING, em entrevista por telefone. A Azul “é uma empresa bem gerida. Mas a questão é: ‘Esta é a transação correta para o momento?’”.