Fim do rali das commodities depende do Fed, diz Merrill Lynch

Alta das matérias-primas só deve arrefecer quando os BCs mundiais agirem para controlar os preços ou o dólar voltar a subir

Os preços das commodities dispararam nos últimos meses e levaram consigo as cotações das ações de empresas do setor. Nos principais países emergentes, papéis de grandes produtores de commodities tiveram uma rentabilidade bastante superior à média das bolsas onde são negociados. No caso do Brasil, as altas de Vale do Rio Doce e Petrobras são emblemáticas para elucidar esse fenômeno: as ações da petrolífera avançaram 87,5% nos últimos 12 meses, a mineradora subiu 48,5% e o Ibovespa teve alta de 33%.

Já não são raros, entretanto, os investidores que começam a enxergar um certo exagero no recente rali das matérias-primas. O megainvestidor George Soros, por exemplo, afirmou em recente entrevista à Money Magazine que, após o fim da bolha imobiliária, há “uma nova bolha em desenvolvimento nas commodities”. Por outro lado, ainda são fartas as análises contrárias à de Soros no mercado global – vide o ingresso na Bovespa de 4,5 bilhões de reais de estrangeiros nos 17 primeiros dias deste mês, impulsionado pela busca de ações da Vale e da Petrobras.  Mas é inegável que cada vez mais gente se pergunta quando o boom das commodities vai terminar.

Em relatório, o banco de investimentos Merrill Lynch afirma que só dois fatores poderiam determinar o fim da supremacia das ações de empresas ligadas a commodities nos mercados emergentes. O primeiro seria a alta sustentável da cotação do dólar – após vários meses seguidos de queda generalizada nos mercados globais. O outro partiria dos bancos centrais mundiais, que precisariam tomar medidas para conter o rali das commodities.

Para o estrategista global de mercados emergentes do Merrill Lynch, Michael Hartnett, os seis cortes de juros determinados pelo Federal Reserve (banco central dos EUA) desde o início da crise do subprime foram “brilhantes” para o mercado de commodities. Além da pressão sobre os preços causada pela escassez mundial de matérias-primas, a redução dos juros nos EUA ajudou a desvalorizar o dólar – e há uma relação direta entre a valorização de commodities como o petróleo e a alta do euro.

Na próxima semana, o Fed volta a se reunir para tratar de juros. Com taxas reais já negativas no país, a maioria dos analistas acredita que o BC americano terá de frear o ritmo de queda e reduzir a taxa básica em apenas 0,25 ponto percentual, para 2% ao ano. Mas já há economistas que acreditam que o Fed deveria parar imediatamente de baixar os juros porque a alta dos preços do petróleo e dos alimentos começam a pressionar mais fortemente a inflação. Em entrevista à revista Fortune, James Hamilton, professor de economia da Universidade da Califórnia, diz que uma pausa do Fed poderia reverter a queda do dólar e os ganhos no mercado de commodities – provocando venda em massa de ações de empresas ligadas a esse setor.

A opinião de Hamilton ainda é minoria no mercado, tanto em relação à pausa dos juros quanto sobre o impacto nas commodities. A maioria dos analistas lembra que as matérias-primas estão em alta devido ao aumento da renda em países como China e Índia – que elevam a demanda por bens primários. Outra fonte de pressão seria o uso de produtos agrícolas para a produção de biocombustíveis. Ambos os fatores não seriam afetados diretamente pela decisão do Fed. Além disso, apesar de a alta das commodities seguir a valorização do euro ante o dólar, a proporção das valorizações não é a mesma. Enquanto o dólar caiu apenas 11% desde setembro, a valorização do petróleo alcançou 70%.

Se há divergências sobre a direção a ser seguida pelo preço das commodities num futuro distante, a Merrill Lynch aposta que as matérias-primas devem continuar em alta pelo menos no curto prazo. Mas, quando chegar o momento da virada, o banco aconselha os investidores a procurar investimentos na China e na Índia – desde agosto, a Bovespa tem oferecido os melhores retornos. Além disso, será a hora de trocar ações de commodities por papéis ligados ao crédito e a empresas com baixo valor de mercado (small caps) – justamente as que mais têm apanhado nos últimos meses.