EUA ainda ditam o rumo da bolsa brasileira

O cenário atual indica que o retorno dos ativos atrelados ao CDI (juros de mercado) continuará caindo. Graças à apreciação cambial, resultado do saldo positivo das contas externas do país, e ao conservadorismo da política monetária, as expectativas de inflação vêm diminuindo – a previsão para este ano é de uma inflação de 3,7% e, para os próximos 12 meses, de 4,5%. Se esses números benignos se mantiverem, o Banco Central poderá continuar a reduzir os juros – nossa estimativa é de que a taxa Selic terminará este ano 13,75% e o próximo, em 12,50%. Trata-se de um panorama favorável para os ativos de como os fundos de renda variável e os multimercados. Assim, devemos nos perguntar: qual a perspectiva para a bolsa?

O panorama externo deverá ter papel preponderante para o desempenho do mercado acionário brasileiro nos próximos meses, diante das incertezas em relação do desaquecimento econômico mundial. Isso porque cerca de 53% do Índice Bovespa, principal indicador da Bolsa de Valores de São Paulo, é composto por empresas exportadoras ou fortemente ligadas ao setor externo. Portanto, para elaborar um cenário para as ações, devemos inicialmente analisar as tendências da economia mundial – que, por sua vez, dependem do desempenho da economia americana.

O ciclo de altas da taxa de juros nos Estados Unidos aumentou o custo de financiamento imobiliário, gerando queda da procura e, conseqüentemente, do preço de imóveis. Considerando que o imóvel representa grande parte da riqueza das famílias americanas, podemos esperar uma deterioração no consumo doméstico. Não há consenso no mercado financeiro sobre o ritmo desse processo de desaquecimento econômico. Existem, basicamente, dois cenários alternativos:

1 – Soft Landing: é a perspectiva mais otimista. Prevê que haverá desaquecimento ordenado do mercado imobiliário e do consumo americano, reduzindo moderadamente o ritmo de crescimento da produção mundial com queda da pressão de preços de commodities. Conseqüentemente, as exportações brasileiras recuariam modestamente, gerando uma pequena desvalorização cambial, sem prejuízos para o controle da inflação. Assim, o BC poderia dar prosseguimento ao ciclo de afrouxamento monetário e incentivar o consumo doméstico;

2 – Hard Landing: alternativa em que os EUA apresentariam reduções significativas nos preços de imóveis. Nesse caso, a deterioração da riqueza das famílias seria capaz de inibir com mais força o consumo e a produção mundial. A forte queda do preço commodities deterioraria o saldo comercial brasileiro e poderia gerar um processo de aversão a países emergentes, implicando desvalorização do real e inflação, levando o BC a interromper o ciclo de redução da taxa de juros e inibir a expansão do consumo nacional.

Há fatores que atribuem maior probabilidade ao cenário de soft landing, pelo menos no curto prazo. Em primeiro lugar, o fim do ciclo de aumento de juros e dados de desaquecimento econômico geram a perspectiva de que o Banco Central americano deverá reduzir a taxa de juros no início do próximo ano. O mercado de taxa de juros básica americana (Fed Funds) já precifica queda entre fevereiro e março. Esse movimento está reduzindo a taxa de financiamento hipotecário de longo prazo nos últimos dois meses, o que deve inibir um movimento exacerbado na correção de preços dos imóveis. Além disso, os indicadores têm mostrado que o empresário americano, apesar da redução, continua otimista. A conseqüência disso continua sendo o elevado o nível de investimentos e um desaquecimento apenas gradual no mercado de trabalho.

A redução da taxa de juros no Brasil deve impulsionar o apetite a risco dos investidores. No entanto, na ausência de sinais mais claros que sinalizem que o mundo passará apenas por um soft landing, cresce a importância da análise fundamentalista e criteriosa do mercado acionário para garimpar as possibilidades de ganhos de médio e longo prazo em um cenário internacional ainda em discussão.