Endividamento deixa Petrobras com a corda no pescoço

São Paulo – Os resultados da Petrobras no quarto trimestre de 2012 desagradaram os investidores. No pregão de hoje, as ações ordinárias (com direito a voto) da estatal caem mais de 6%. Segundo analistas, além dos conhecidos problemas que já assombram a estatal, todos ligados ao excesso de intervenção do governo, os números mais recentes mostram que o endividamento da empresa entrou na lista de grandes preocupações do mercado.

Ao fim do ano passado, a dívida líquida da Petrobras chegou a R$147,8 bilhões, equivalente a quase três vezes a geração operacional de caixa no período. No trimestre, o endividamento cresceu 10%, em função da baixa geração de caixa e dos elevados investimentos.

Entre outubro e dezembro, a Petrobras investiu R$24,3 bilhões. No ano, os investimentos alcançaram R$ 84,1 bilhões. Contudo, a geração operacional de caixa representou apenas 49% do volume investido, o que, segundo os analistas da corretora Planner, explica o crescimento das dívidas da empresa.

No ano, o lucro líquido da Petrobras foi de R$ 21,2 bilhões, o menor desde 2004. A geração de caixa anual chegou a R$ 53, 4 bilhões, o equivalente a apenas 64% dos investimentos. “Isso fez com que o endividamento da Petrobras crescesse 43%”, diz o relatório da Planner.

Dividendos diferentes

Segundo relatório da corretora do Itaú Unibanco, assinado pela analista Paula Kovarsky, a Petrobras anunciou dividendos de R$ 8,876 bilhões. A estatal indicou um valor diferente para as ações preferenciais (PN, sem direito a voto) e ordinárias (ON, com voto) pela primeira vez em mais de dez anos.


Acionistas detentores de papéis PN irão receber R$ 0,96 por ação (rendimento de 5,3%) e quem tem ações ON vai receber R$ 0,47 por papel (rendimento de 2,6%). “Embora a diferença nos dividendos possa sugerir que a companhia está tentando economizar caixa, o aumento substancial nos investimentos não sustenta esta conclusão”, diz a analista em relatório.

2013 nada animador

Na opinião dos analistas da corretora Concórdia, os números anunciados pela Petrobras ontem somados à perspectiva de estabilidade na produção, em comparação com 2012, trazem a perspectiva de um 2013 “nada animador” para a Petrobras.

Eles afirmam que a empresa vem desembolsando valores significativos em seu programa de investimentos, mas esses gastos não têm conseguido garantir maior geração de caixa operacional da empresa. Assim, as metas de alavancagem da estatal “só pioram a cada trimestre”.

Além disso, os analistas afirmam que “a inflação não concede espaço para otimismo com novos reajustes para os combustíveis, ao menos neste primeiro semestre, e como este não deveria ser um fator preponderante para sua política de preços, mas é, seguimos cautelosos e preocupados em relação ao futuro próximo da empresa”.

Cenário complexo

No quarto trimestre, as vendas da Petrobras cresceram 4% no mercado interno, mas tiveram queda de 3,5% no volume total vendido, em função da redução de 33% nas exportações. Para os analistas da Planner, esses números mostram um bom retrato da situação atual da Petrobras.


A empresa “tem um mercado interno crescendo muito, mas sua produção não aumenta”, diz o relatório. “Por isso, a companhia importa mais, aumentando seu prejuízo, dada a atual política de preços, que mantém o valor dos combustíveis no país ainda muito abaixo dos preços praticados no mercado internacional.”

Os analistas lembram também que as exportações da estatal tiveram forte queda, por causa da redução da disponibilidade de petróleo e combustíveis para venda ao exterior. A empresa divulgou hoje sua produção em dezembro de 2012, que foi de 2,032 milhões de barris por dia, um volume 2,5% inferior ao produzido no mesmo mês de 2011.

No ano, a média diária de produção foi de 1,980 milhões de barris por dia, volume 2,1% menor que em 2011. Os problemas com aumento das importações e redução das exportações levaram a margem bruta da companhia a uma queda de 8 pontos percentuais em relação ao terceiro trimestre de 2012.

Recomendações

A indicação dos analistas da Planner para as ações PN da Petrobras é de compra, com preço justo de R$ 29 por ação. Já no caso do Itaú Unibanco, a analista Paula Kovarsky tem recomendação de “market-perform” (desempenho em linha com a média do mercado, ou seja, manter) para as ações, e preço justo de R$ 26,6 para as ações PN.

É bom lembrar que a estimativa de preço justo calculada pelos analistas leva em consideração as projeções de resultados para as empresas. A concretização dessas estimativas dependerá, entretanto, das condições de oferta e procura pelas ações no mercado.