Eletrobras: a ação mais odiada da bolsa

Analistas quase desistem dos papéis e banco diz que ação vale 1 real

São Paulo – Do chão não passa. Essa é a única certeza que parecem ter os acionistas e analistas sobre o futuro da Eletrobras. Os investidores estão perplexos com o desempenho recente da estatal de energia elétrica na Bovespa. Só em novembro os papéis preferenciais de classe B (ELET6) já acumulam uma queda de 35%. Na mínima de hoje, os ativos eram negociados a 10,37 reais. Esse é o valor mais baixo desde maio de 2003.

Poucas vezes se soube tão bem o número de uma Medida Provisória, como a 579. O texto trata das novas regras para as concessões no setor.

Segundo o documento, cada empresa precisa manifestar a intenção de adotar as novas regras com preços mais baixos para garantir a renovação e receber uma indenização. A outra saída é indicar a manutenção das condições atuais até o final da concessão. Aí, porém, não terá a renovação garantida. 

Com o controle estatal, a Eletrobras já manifestou a sua intenção em prosseguir com as concessões nos novos termos para não melar de vez o plano do governo Dilma Rousseff em reduzir as tarifas, na média, em 20%. Outras companhias, como a Cemig, peitaram o governo e já falam em entrar na Justiça caso não haja uma negociação dos termos. O Senado Federal tem até 18 de dezembro para votar a MP.

O problema é que a indenização proposta pelo governo federal ficou aquém das expectativas. Enquanto o mercado aguardava algo em torno de 30 bilhões de reais, o valor a ser pago será de 13,9 bilhões de reais. A companhia divulgou na sexta-feira um estudo sobre os impactos da nova realidade. As perdas esperadas em receitas chegam a 8,7 bilhões de reais, além de uma baixa contábil de ativos de aproximadamente 17 bilhões de reais.


“O fato é que os termos propostos não são satisfatórios para garantir a saúde financeira e capacidade de investimentos da empresa, ou mesmo a continuidade na remuneração aos acionistas”, afirma a analista Karina Freitas, da Concórdia Corretora.

A Eletrobras já admite corte de custos para se adequar à queda brusca na geração de caixa, o que também irá resultar na renegociação dos termos dos títulos de dívida em circulação no mercado.

Ações

Não há um analista otimista com o futuro da empresa na bolsa, mas o mais pessimista provavelmente está no Barclays.

Em um relatório enviado para clientes nesta segunda-feira, os analistas Francisco Navarrete, Tatiane Shibata e Giovanna Siracusa reduziram o preço-alvo aos papéis ordinários e preferenciais de 29 reais e 20 reais para apenas 1 real para 12 meses. Os cortes representam uma baixa de 97% e 95%, respectivamente.

“Devido à queda das receitas, o nosso alvo depende muito dos esforços de cortes nos custos. A Eletrobras mira 20% de redução até 2018, mas projetamos apenas 15% devido ao fraco histórico em conter os gastos”, ressaltam na análise. 


Com o caixa apertado, o mercado espera ainda a realização de uma oferta de ações para arrecadar entre 8 a 10 bilhões de reais para capitalizar a companhia. O resultado será a diluição de 36% de participação para os atuais acionistas.

E com o corte de custos no item 1 do plano da empresa não há mais como esperar o pagamento de dividendos. Para Marcos Severine, do Itaú BBA, está claro que “não haverá dividendos no curto e no médio-prazo”. Em um relatório, Severine reduziu o preço-alvo às ações ordinárias e preferenciais para 8 reais, de 13 e 17,50, respectivamente.

Gabriel Salas, do JPMorgan, resumiu a visão do mercado em relação ao que está acontecendo com a empresa: “A Eletrobras enfrenta uma bifurcação na estrada, na qual deve decidir se vai ser uma empresa que maximize o lucro ou se será um ministério com ações”, disse em uma entrevista à Bloomberg.

A empresa convocou os acionistas para deliberar sobre o assunto no próximo dia 3 de dezembro, um dia antes da data final de apresentação das propostas para o governo. Não há expectativa de um resultado diferente. O representante dos minoritários no Conselho de Administração renunciou ao cargo na semana passada.

“Apesar desse cenário absurdo e surreal, o conselho de administração da estatal recomendou que os acionistas aprovassem a renovação”, ressalta o analista da XP Investimentos, William Castro Alves. “Em vista de tudo isso, não vemos motivo para manter posição nas ações da empresa”, explica em um relatório.

Estudo da Eletrobras sobre os efeitos da MP:

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