Dólar perto do recorde? Com inflação, só se chegar a 7 reais

Considerado o diferencial de inflação, moeda superou os 7 reais três vezes na história do Brasil

O dólar está próximo de bater um novo recorde histórico frente ao real? Sim e não, a depender do ponto de vista. A maior cotação nominal da moeda até aqui foi de 4,1957 reais no fechamento de 13 de setembro de 2018. Mas quando se aplica a inflação do período, a moeda dos Estados Unidos ainda estaria bem longe de sua maior marca, batida em 2002. 

É o que defende o economista e diretor da LCA Consultores, Celso Toledo. Por tal ótica, a moeda americana superou 7,00 reais três vezes na história do Brasil: em 1984, 1985 e 2002. O ano em que Lula foi alçado à presidência bateu as datas anteriores, ainda que por uma margem desprezível.

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Naquele ano, o câmbio nominal médio foi de 2,92 reais – mas desde então a inflação acumulada no Brasil superou, em muito, a americana. “Olhando desta forma, já estivemos em situação mais miserável no passado quando se trata de poder de compra nos EUA”, afirma Toledo.

Para chegar ao cálculo, ele considerou o diferencial de inflação entre Brasil e EUA, que leva à taxa de câmbio real. Considerar apenas o IPCA no Brasil, portanto, seria incorreto. A taxa real é útil para enxergar o poder de compra do brasileiro em reais e em dólar em diferentes períodos.

Já para o estrangeiro que investe no Brasil e pretende levar seu dinheiro de volta ao país de origem, é a taxa nominal que interessa. Ou seja, os atuais 4,15 reais, pelo fechamento desta quarta-feira (28).

Com um olhar de curto prazo, é correto afirmar que o dólar perto de 4,20 é, sim, um recorde histórico, afirma Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora. “A correção não influencia o dia a dia do mercado”, defende. Em sua visão, não há necessidade de aplicar qualquer correção para entender a cotação atual da moeda, já que o câmbio se comporta como uma taxa flutuante.

Projeções em revisão

Seja qual for a métrica escolhida para entender o câmbio no Brasil, o fato é que a recente escalada da moeda americana frente ao real tem forçado analistas a revisarem suas projeções até o final do ano, que pendiam para um enfraquecimento do dólar. 

A perspectiva de juros baixos e a aprovação das reformas havia trazido um olhar predominantemente otimista para o câmbio no último mês. Mas a inesperada piora na tensão entre EUA e China, a explosão da crise argentina e temores de uma nova recessão global fizeram a moeda mudar de rumo – confirmando a teoria de que o câmbio é um dos mais difíceis de se prever.

Na Treviso, Galhardo vinha trabalhando com uma projeção de dólar perto de 3,75 reais até o final de 2019. “Diante da nova conjuntura, estamos revendo tudo”, disse. “Não fosse o contexto externo, poderíamos estar tranquilos com real a 3,80 reais”.

Para tentar conter a valorização do dólar, o Banco Central passou a vender dólares no mercado à vista com o uso de sua reserva internacional, uma medida que não tomava desde 2009. Desde então, o órgão só fazia leilões de swaps cambiais e de linha, que equivalem à compra de dólar no mercado futuro. 

A moeda chegou a perder força, mas logo retomou o fôlego. Com isso, agentes do mercado desconfiam que a ação surtiu pouco efeito. Já há conversas de que, inclusive, que o BC estabeleceu o teto de 4,20 reais como limite de segurança para sua política de juros e controle da inflação surtir efeito.