Dólar cai 0,85% e atinge menor nível desde maio de 2012

A percepção de que o avanço da inflação é um fator de preocupações para o BC pressionou o dólar para baixo e os juros para cima nesta quinta-feira

A aceleração da inflação em janeiro, confirmada nesta quinta-feira pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), trouxe forte pressão de baixa para o dólar ante o real, em sintonia com a alta das taxas dos contratos futuros de juros no Brasil.

Este movimento, que ficou na contramão do exterior, foi motivado pela percepção de que o avanço de preços preocupa e o Banco Central (BC) vai utilizar, de fato, o câmbio como ferramenta para conter a inflação.

Declarações do presidente do BC, Alexandre Tombini, expondo preocupações com os preços, reforçaram esta análise. O dólar à vista fechou em baixa de 0,85% no balcão, cotado a R$ 1,9720 – a menor cotação de fechamento desde 11 de maio de 2012, quando marcou R$ 1,9520, e a maior baixa porcentual desde 28 de janeiro deste ano.

Na máxima da sessão, a moeda americana marcou R$ 1,9900 (+0,05%) e, na mínima, vista perto das 12h30, atingiu R$ 1,9600 (-1,46%) – também o menor patamar intraday desde 11 de maio do ano passado, quando a moeda chegou a recuar a R$ 1,940 durante a sessão. Perto das 17h (horário de Brasília), a clearing de câmbio da BM&F registrava giro financeiro de US$ 3,906 bilhões, sendo US$ 3,401 bilhões em D+2. O dólar pronto da BM&F registrou apenas dois negócios nesta quinta, marcando queda de 0,90%, a R$ 1,9698. No mercado futuro, o dólar para março era cotado a R$ 1,9760, em baixa de 1,05%.

Pela manhã, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que a inflação em janeiro foi de 0,86%, acumulando alta de 6,15% em 12 meses. A taxa mensal ficou acima da mediana prevista pelo mercado, de 0,83%, e da inflação vista em dezembro, de 0,79%.

Declarações de Tombini à imprensa reforçaram o viés de baixa para o dólar ante o real. Segundo o presidente do BC, “a inflação nos preocupa no curto prazo, está mostrando uma resiliência forte, mas não é o caso de descontrole inflacionário”. “No entanto, a nossa expectativa é de que ela continue pressionada neste primeiro semestre, ficando em 6% em 12 meses”, completou.


“A inflação veio em um patamar bem alto e há a indicação de que ela permanecerá acima de 6% no acumulado de 12 meses durante o primeiro semestre. Com isso, o mercado interpreta que o Banco Central deixará o câmbio abaixo de R$ 2,00, para ajudar no combate à inflação”, comentou Mauricio Nakahodo, consultor de pesquisas econômicas do Banco de Tokyo-Mitsubishi UFJ.

A baixa desta quinta-feira da moeda americana, conforme João Paulo de Gracia Corrêa, gerente de câmbio da Correparti Corretora, também respondeu ao movimento das taxas dos DIs, que tiveram forte alta no mercado futuro. “Com os números de inflação assustando, as mesas refazem os cálculos sobre os juros, o que também se reflete no dólar”, disse.

Se por um lado o câmbio abaixo de R$ 2,00 pode ajudar no combate à inflação, por outro a queda do dólar ante o real parece ter limites. Profissionais citam a intenção do governo de manter a moeda em um patamar favorável aos exportadores e, ao mesmo tempo, o fluxo negativo de dólares para o Brasil como fatores que podem limitar a queda. “O dólar bateu hoje em R$ 1,96 (durante o dia). Abaixo disso, já começa a ficar ruim para o exportador. A balança comercial está deficitária, então não pode cair tanto”, disse Corrêa.