Desta vez é diferente para a bolsa

Conversando outro dia com dois amigos que também iniciaram a vida profissional no mercado financeiro na virada da década de 70 para a de 80, lembramos quantas vezes havíamos ouvido a frase “this time is different!” – ou “desta vez é diferente!” -, referindo-se à esperada normalização da economia e do mercado financeiro brasileiro. Comentamos que quem já viu tantas crises e reviravoltas é defensivamente cético, enquanto o pessoal mais novo de mercado tende a ser mais confiante. No entanto, em que pese toda a experiência (e frustrações de expectativas passadas), tenho muita dificuldade em não acreditar que desta vez possa mesmo ser diferente, particularmente para o mercado de ações brasileiro.

A bolsa de valores tem sido, nos últimos dois anos, a maior aposta individual dos fundos dedicados a mercados de ações emergentes – entre 2,5% e 3% acima do percentual determinado pelo índice de mercados emergentes que serve de referência a esses investidores. O mercado brasileiro tem respondido a essa confiança: teve uma valorização 86% superior à média dos demais emergentes desde 2003 até outubro deste ano. Essa aparente diferença de percepção provavelmente se deve a três fatores: o desempenho das empresas abertas brasileiras, a experiência vivida por outros mercados emergentes e a baixa aversão a risco dos investidores internacionais.

Apesar da alta taxa de juros, do baixo crescimento do PIB e da forte taxação, as empresas abertas têm sido capazes de apresentar um substancial crescimento da geração de caixa e de lucros nos últimos quatro anos, por meio da consolidação, diversificação de mercados (internacionalização ou expansão regional), aumento da produtividade, redução de dívidas, aperfeiçoamento da gestão e, quem diria, novos investimentos. O crescimento dos lucros das empresas componentes do Índice IBX da Bovespa, ponderado pelo peso de cada uma das 100 empresas desse indicador, alcançou 309% entre 2002 e 2005 e deve aumentar mais 24% neste ano, somando 407% no período. A título de comparação, o IBX cresceu 318% entre 2002 e outubro de 2006.

Além disso, o mercado brasileiro de ações tem proporcionado novas opções atraentes aos investidores, como as abertura de capital e as vendas de novos grandes blocos de ações de empresas abertas. Os investidores estrangeiros absorveram 64% do valor das operações ocorridas entre 2004 e 2006, o equivalente a 22 bilhões de reais, que representou quatro vezes o fluxo destinado pelos estrangeiros ao mercado secundário brasileiro, no mesmo período. Vale lembrar que a esmagadora maioria dessas ofertas ocorreu no Novo Mercado, que apresenta grau de respeito aos direitos dos minoritários semelhante ao existente nos países desenvolvidos. Além disso, grande parte desses negócios envolveu empresas de setores com perspectivas de crescimento mais promissoras, na ótica dos investidores internacionais: consumo doméstico, construção civil e infra-estrutura de transportes.

O fato de o Brasil estar atrasado em relação a muitos outros mercados no que se refere ao grau de investimento (entre os grandes mercados emergentes, só Brasil e Turquia não têm “investment grade”) e também ao patamar de juros reais e de crescimento doméstico, mas aparentemente estar no caminho da convergência em todos esses itens, confere ao nosso mercado um significativo potencial de crescimento frente aos demais. E os investidores estrangeiros de forma geral não concebem que o Brasil perca a chance de convergência, não aproveitando uma conjuntura internacional tão favorável.

A alta liquidez internacional têm mantido o apetite para risco, mesmo com o recente processo de alta de juros nos EUA e Europa, que aparentemente já está em sua fase final. Nesse contexto, parece atraente a tese do crescimento da participação do valor de mercado (“market capitalization”) das ações de empresas de países emergentes no total do mercado global de ações dos atuais 9% para algo mais próximo dos 26%, equivalente à participação dessas economias no PIB mundial. Nesse ambiente, fundos com temas de investimento como os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) têm apresentado grande sucesso na atração de recursos.

Estariam os investidores estrangeiros dedicados a mercados emergentes de ações certos em acreditar que “desta vez é diferente”? E que o Brasil não perderá as oportunidades proporcionadas pelo mercado internacional favorável e pelos avanços já obtidos internamente, seja na política macroeconômica, seja no desempenho das empresas abertas? Para o bem e para o mal, parece cada vez mais que sim.

Walter Mendes é superintendente de renda variável do Itaú