Da Argentina a Hong Kong, política influencia mercados

Bolsa de Hong Kong cai 2% depois de governo acusar manifestantes de provocar "caos e pânico"; na Argentina, governo também é foco das desconfianças

São Paulo — Depois da debacle desta segunda-feira com a reação à derrota de Mauricio Macri nas primárias argentinas, investidores tendem a voltar os olhos, nesta terça, para a Ásia. A onda de protestos em Hong Kong segue escalando. O aeroporto voltou a ser fechado por manifestantes, e a bolsa local fechou em queda de mais de 2%, levando a baixas também em Xangai e em Tóquio.

A governadora de Hong Kong, Carrie Lam, convocou uma coletiva de imprensa para afirmar que os manifestantes levaram a cidade a um estado de “caos e pânico”. A onda de protestos começou depois de seu governo anunciar uma lei que permitia a extradição de moradores da ilha para serem julgados em tribunais chineses, no que seria uma porta aberta para a perseguição política.

Mesmo depois da retirada do projeto, os protestos continuaram, exigindo sua saída do poder, mas também, em última análise, mais liberdade em toda a China.

As comparações com o que aconteceu na Praça da Paz Celestial em 1989, quando protestos por liberdade terminaram num massacre pelo exército, fazem analistas e investidores internacionais se questionarem sobre qual será a reação de Pequim. Uma possibilidade seria enquadrar os manifestantes como terroristas, o que justificaria prisões e violência policial.

Do outro lado do mundo, na Argentina, a resposta do governo também será acompanhada com lupa por analistas. Ontem, o governo subiu a taxa de juros em 10 pontos, para 74%, para tentar conter a fuga de dólares. Mas segue faltando autocrítica a Mauricio Macri após perder as prévias das eleições presidenciais, que no domingo deram vitória à oposição por 47% a 32%.

Em entrevista à imprensa ontem, Macri, no que parecia uma tentativa de se isentar pelo fracasso sofrido nas urnas, e pela consequente furiosa reação dos investidores, disse que “o kirchnerismo tem um problema com o mundo”.

Macri disse ainda que a tempestade tende a piorar caso as urnas de 27 de outubro confirmem o resultado deste domingo. “Eles não têm a confiança necessária para que queiram investir no país”.

A certeza, a julgar pelas primeiras horas pós-primária, é que a tormenta política no país seguirá nas próximas semanas. Alberto Fernández, o cabeça de chapa de Cristina Kirchner, afirmou ontem que não conversou com Macri porque “ele nunca me ligou em todos esses anos, e não acredito que me ligue agora”.

É uma repetição da cisão política que se vê em outros países, como o Brasil. E uma certeza de que a política continuará ditando o rumo dos mercados mundo afora.