Crise do coronavírus é batismo de fogo para 1,2 milhão de novatos na Bolsa

Dois terços dos investidores na B3 entraram no mercado há quatro anos e ainda não enfrentaram nenhuma crise séria como a do coronavírus

São Paulo — O avanço do surto de coronavírus na China e no mundo é um teste de nervos para 1,2 milhão de investidores novatos. Esse é o contingente que se cadastrou em corretoras para começar a aplicar em ações nos últimos quatro anos, período em que o índice Ibovespa, o principal do país, acumula alta de quase 300% e nenhuma crise séria foi registrada. O Covid-19, que está devastando as Bolsas mundiais, vai mostrar quem realmente está preparado para ter uma parte das suas economias em renda variável e quem não está.

O número de investidores na B3 foi subindo gradativamente no início do século até empacar no nível de 500.000 em 2008, ano da crise financeira mundial que começou com os calotes das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos. Bancos, corretoras e a própria Bolsa estavam animados com as perspectivas para uma maior popularização da renda variável. O presidente da B3 à época, Edemir Pinto, chegou a dizer que o número de pessoas físicas cadastradas para investir em ações logo chegaria a 5 milhões.

Nunca chegou. As fortes perdas do Ibovespa em 2008 – em seis ocasiões, naquele ano, foi necessário acionar o circuit breaker, um mecanismo de suspensão temporária do pregão quando a queda do índice em um dia bate em 10% – deixaram muitos investidores traumatizados, e a Bolsa de Valores, com má fama.

Uma mudança estrutural na economia do país desde o início de 2017, com a queda de juros, voltou a empurrar para o mercado de ações quem quer fazer o seu dinheiro render. A taxa Selic, referência no país, foi reduzida pelo Banco Central de 14,25% ao ano para os atuais 4,25%. O retorno de aplicações consideradas de menor risco, como a poupança e o Certificado de Depósito Bancário (CDB), caiu bastante.

Ao transferir uma parte dos seus recursos para o mercado de ações, o investidor precisa saber que se trata de uma alternativa mais ariscada e sujeita a turbulências. Por esse motivo, é indicada para quem tem objetivos de longo prazo para o investimento e consegue não mexer no dinheiro quando a maré temporariamente vira. Mas, na prática, muitas vezes não é isso que acontece. Na hora da queda, muita gente fica desesperada e sai vendendo as ações da sua carteira, realizando o prejuízo”, diz Fermando Hormain, diretor do escritório de agentes autônomos de investimento BlackBridge, parceiro da corretora XP.

“Realizar o prejuízo” quer dizer que a perda no caso de queda do preço de um ativo no mercado só se materializa para o investidor quando ele efetivamente vende o papel e embolsa um valor menor do que o pago na compra. Enquanto a carteira fica parada, o seu valor de mercado cai, mas o prejuízo não é concreto e pode se reverter.

Murilo Duarte, criador do canal Favelado Investidor, do YouTube, começou a aplicar na Bolsa em 2016 e não está preocupado com o impacto da epidemia sobre a sua carteira, de cerca de 6.000 reais. “As ações que tenho na carteira são de empresas que não fazem exportação e nem importação. No final, o surto não impactará na sua operação. No longo prazo, nada muda, os fundamentos são os mesmos”, diz Duarte. “Hoje acho que é uma oportunidade para comprar mais papeis, já até transferi o dinheiro para a corretora.”

Esse é um exemplo de investidor consciente e bem informado sobre as suas aplicações. O comportamento do Ibovespa nos próximos dias, com debandadas ou não, vai ajudar a dar uma ideia de quão madura a Bolsa brasileira realmente está neste início de transformação do mercado financeiro local.