Credit Suisse vê Ibovespa em 63 mil pontos em 2014

Mercado brasileiro se tornou mais atraente no mês passado, devido ao seu desempenho pior em relação aos demais países da América Latina

São Paulo* – Em relatório divulgado a clientes, os analistas do banco de investimentos Credit Suisse avaliaram a bolsa brasileira com uma perspectiva acima da média (“overweight”) em relação aos demais mercados da América Latina. O banco espera que o Índice Bovespa suba 25,3% em 2014 em relação aos atuais 50 mil pontos, atingindo 63 mil pontos.

De acordo com o CS, o mercado brasileiro se tornou mais atraente no mês passado, devido ao seu desempenho pior em relação aos demais países da América Latina e especificamente ao México. Isso fez a relação entre o preço médio das ações brasileiras em relação ao lucro projetado cair para a média de 10,8 vezes, com as estimativas de ganhos se estabilizando. Hoje, esse indicador está em média em 14 vezes. Quanto menor o Preço/Lucro, mais barato está o papel.

Os analistas do banco Andrew T. Campbell, Daniel Federle, Andrei Sabah e André Hachem, selecionam alguns dos principais pontos positivos para se investir na bolsa brasileira.

Entre eles estão o fato de as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) para 2014 estarem baixas e a previsão do CS de que o aumento da taxa básica de juros será de apenas 0,25% ponto no ano que vem, para 10,25%. Além disso, os 12% de depreciação cambial no acumulado do ano tornaram a moeda brasileira mais barata para o investidor estrangeiro, e os ganhos das empresas locais parece que vão superar os do México novamente.

O CS classifica o México como underweight (abaixo da média de mercado ou seja, vender), apesar de o país se mostrar menos afetado pelo aumento dos juros americanos por ter menor déficit externo e ser beneficiado pela retomada dos EUA. O motivo é fato de os preços já terem subido, com as ações mexicanas sendo negociadas por um preço 17,6 vezes o lucro projetado.

Setores preferidos

O relatório do CS cita como destaques para o ano que vem os setores Financeiro, Consumo, que podem ter bom desempenho mesmo um ambiente de baixo crescimento, e Bens de Capital e Transportes, que podem se beneficiar de um real mais fraco e de um aquecimento da economia mundial. As empresas preferidas no Brasil são Andima, Even, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Smiles, Estácio, Usiminas.


Já os setores que mais perderam espaço nas recomendações do banco suíço foram o de Petróleo e Gás, pela falta de transparência na fórmula de reajuste dos combustíveis aprovada pela Petrobras e pela queda de rentabilidade provocada pela alta do dólar nas importações da empresa.

O banco vê potencial de ganhos para empresas que tenham seu desempenho ligado a países desenvolvidos, que devem retomar o crescimento em 2014 via exportações ou operações externas, caso por exemplo da Iochpe Maxion e do Frigorífico Minerva.

Outro segmento que deve ir bem é o ligado à infraestrutura, que está recebendo a prioridade dos governos da América Latina. Outros fatores que podem influenciar as empresas são a desvalorização das moedas e as reformas estruturais, especialmente no México, e uma eventual aceleração da economia chinesa, que pode beneficiar empresas fornecedoras de matérias-primas.

Destaques

No setor financeiro, o banco recomenda venda das ações ordinárias (ON, com voto) de Bradesco e Porto Seguro. O Credit Suisse recomenda compra das preferenciais (PN, sem voto) do Itaú Unibanco, das ON do Banco do Brasil e da BM&FBovespa e das units (recibos de ações) do Santander.*

Enfraquecimento

O real se enfraqueceu em mais de 10% este ano, mas a equipe de analistas do CS ainda espera depreciação adicional significativa, com a moeda americana atingindo R$ 2,60 por dólar em 2014. A previsão é baseada no aumento da incerteza fiscal, a deterioração das contas externas e no início da retirada de estímulos da economia pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano).


De acordo com o relatório, as empresas brasileiras que têm grande parte de suas receitas ligadas à moeda americana e custos em reais (operacionais ou financeiros) têm benefícios com essa depreciação. Muitas dessas ações tiveram um bom desempenho em 2013 (por exemplo, a Braskem e a Suzano), mas a expectativa é um desempenho superior ao retorno do mercado (“outperform”) para o ano que vem, caso o real alcance a previsão dos analistas.

Vale, porém, ficou de fora das principais recomendações do banco. “Excluímos a Vale da nossa lista por causa da previsão do CS de uma correção acentuada dos preços do minério de ferro no próximo ano, o que compensaria a taxa de depreciação do real”, disseram os analistas.

De acordo com eles, os recentes leilões de concessões de aeroportos e rodovias são um sinal encorajador de que o programa brasileiro de infraestrutura está evoluindo.

Combustível e salário mínimo

Uma dúvida é a recente melhoria das expectativas para o setor de combustíveis. Para que estes sejam sustentáveis, pode ser necessário que a Petrobras receba mais aumentos de preços durante 2014 para fechar a lacuna com grandes empresas internacionais.
Esses aumentos de preços de combustível são incertos, tendo em conta que o governo não revela os detalhes do mecanismo de preços de combustível aprovado pela empresa recentemente.


No Brasil, uma fonte potencial de alívio é o pequeno aumento do salário mínimo previsto no início de 2014, estimado em 6,5%, e uma menor pressão dos salários nos custos das empresas. “Nossa equipe de economia estima um ligeiro aumento da taxa de desemprego para o ano que vem, possivelmente trazendo algum alívio para as pressões salariais”, acrescentou o relatório.

Ranking de país modelo

Neste mês, o Brasil foi o maior destaque no modelo de avaliação “HOLT” do Credit Suisse, subindo seis pontos, para a quinta posição do ranking. O que explicou esse “pulo” de décimo primeiro colocado para quinto foi a boa avaliação no retorno do investimento em relação à geração de caixa (Cash Flow Return of Investiment, CFROI, na sigla em inglês).

O México subiu em relação à última posição, mas continua sendo um dos países menos favoritos do ranking. O Chile caiu uma posição e ficou em décimo, com pontuação bem pobre no sentimento do mercado. “Vemos esses rankings como consistentes com a nossa classificação “overweight” sobre o Brasil”, disseram os analistas.

Reforma é crucial

Uma ilustração da urgência enfrentada pelo Brasil para avançar com reformas estruturais que agradem o mercado é a pesquisa “Doing Business”, que mostra que o país ocupa a posição 116ª em facilidade de fazer negócios, ficando atrás de todos os principais mercados da América Latina. “A necessidade de simplificar o regime fiscal, a reforma do Judiciário, e iniciativas para reduzir burocracia são os objetivos mais importantes”, diz o relatório.


Os analistas não esperam que 2014 seja um grande ano para a reforma, especialmente com a Copa do Mundo e a eleição presidencial em outubro. Além disso, o governo tem sido desafiado a aprovar algumas reformas importantes, como a reforma do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o que sugere que grandes reformas provavelmente ficarão em banho-maria até 2015.

Selic

O banco prevê um aumento de 0,25% na Selic, para 10,25% em janeiro de 2014, e sem mais alterações no resto do ano. “Este patamar no ciclo de aperto deve ser favorável para a renda variável”, acrescentou. No entanto, os analistas não acreditam que isso vá ser suficiente para conduzir a inflação para 4,5%, a meta do Banco Central. Então, de acordo com o relatório, aumentos adicionais nas taxas de até 12% em 2015 serão necessários.

Às 13h20, o Ibovespa estava com 50.403,10 pontos, subindo 0,25%.

* Foi corrigida a informação sobre a recomendação para as ações do Bradesco e da Porto Seguro, de comprar para vender.