Corretoras revisam para baixo projeções para o Ibovespa no ano

Em janeiro, especialistas projetavam que no fim de 2020 o índice ficaria por volta de 140.000 pontos, agora a estimativa é de até 110.000 pontos

Em janeiro, a expectativa para o Ibovespa era de alta acentuada. O principal índice da Bolsa estava em 115.645 pontos – depois de subir 31,6% em 2019 – e os especialistas projetavam mais 20% de valorização até o fim de 2020. As corretoras Ágora, Nécton, Toro Investimentos, Guide Investimentos e XP Investimentos esperavam que o indicador atingisse algo perto dos 140.000 pontos, enquanto a Portofino previa algo em torno de 150.000 pontos. Mas então veio a pandemia de coronavírus, e o que parecia tendência de alta (bull market) logo se transformou em mercado de baixa (bear market). Com isso, as casas estão revisando suas projeções para 2020.

Os especialistas consultados pela EXAME são categóricos ao dizer que há muitas variáveis e incertezas no momento. Até por isso, fica difícil cravar qual deverá ser o novo patamar do Ibovespa no fim do ano. Mas a princípio esperam que fique entre 100.000 e 110.000 pontos.

A Guide projetava, em janeiro, que o Ibovespa chegaria a 140.980 pontos, mas agora prevê 107.505 pontos. Mesmo com a redução, se a expectativa for confirmada, significaria um avanço de 44% em relação ao fechamento desta terça-feira (17). O indicador fechou em 74.617 pontos, com alta de 4,85%.

“Em janeiro, projetávamos um produto interno bruto de 3% e o índice em 137.000 pontos, mas acabamos fazendo uma revisão para 129.000 quando foram anunciados os primeiros casos de coronavírus na China, porque víamos que a atividade poderia cair”, explica André Perfeito, analista-chefe da Nécton. “Agora, devemos revisar o PIB para 1% ou menos do que isso, e estou esperando a decisão do comitê de políticas monetárias (Copom) sobre os juros”, acrescenta.

A atividade e a Selic são fatores cruciais para estimar o Ibovespa, porque o cálculo é feito com base do fluxo de caixa (do PIB / da receita das empresas listadas) descontado pelos juros. Em janeiro, a expectativa dos agentes de mercado era de que o Brasil poderia crescer 2,3% em 2020, de acordo com a pesquisa Focus. Agora, a projeção é de 1,68%. Mas há quem espere menos. É o caso do Santander que prevê o crescimento de 1%. “O choque global via demanda deve subtrair 0,6 ponto percentual do crescimento de 2020. Já na parte doméstica, paralisações de atividade devem descontar mais 0,4 ponto percentual”, disse o economista do banco, Maurício Oreng, em audioconferência.

Outra dúvida, portanto, tem a ver com a taxa básica de juros do país, que hoje está em 4,25% ao ano. O Copom vai anunciar amanhã (18) se mantém ou reduz a taxa (é bem improvável que aumente). Se a autoridade confirmar corte, pode ser que o Ibovespa suba, seguindo a lógica de que renda fixa se torna menos interessante e os ativos mais arriscados, mais rentáveis. O problema se isso será suficiente.

Da mesma forma, há dúvidas sobre o efeito das medidas anunciadas pelo governo. “O pacote local é mais humilde, porque não temos uma situação fiscal tão boa. Isso vai ser bom para idosos, mas não vi ainda estímulos para pequenas e médias empresas. Imagina para um restaurante ficar dois meses sem movimento?”, questiona Victor Hasegawa, gestor de ações da Infinity Asset. “O que pode ajudar o é o fato que a China está saindo antes e pode voltar a comprar commodities para impulsionar a economia com investimentos em infraestrutura. Isso pode ajudar o Brasil.” Se for esse o caso, pode haver uma aceleração do Ibovespa no quarto trimestre.

Não fosse o bastante ainda entra na conta o impasse entre o planalto e o congresso. “Não sabemos qual será a velocidade das reformas; se houver atrasos, poderá afetar o PIB”, comenta Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos.

Mas é nesse momento que aparecem boas oportunidades. Adriano Cantreva, sócio da Portofino, diz que é hora de garimpar boas empresas que apresentam “margem de segurança”. Segundo ele, é o caso de Vale, Renner e Qualicorp.