Conheça as ações mais beneficiadas pela queda das commodities

Papéis diretamente ajudados pela redução de preços das matérias-primas tiveram alta de até 32% em 10 dias

 

Quem manteve os papéis de companhias aéreas em carteira abriu um sorriso de orelha a orelha quando viu o preço do petróleo despencar da casa dos 140 dólares para os atuais 122 dólares. Em dez dias, as ações da Gol saltaram 32% enquanto as da TAM dispararam 26%, refletindo a futura redução nos preços do querosene de aviação, que representa cerca de 40% dos custos das companhias aéreas.

No primeiro semestre, o combustível subiu 35% e derrubou a cotação das duas empresas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Sem conseguir repassar a alta para os consumidores, mais de 40 pequenas companhias do setor anunciaram falência ou pediram recuperação judicial em todo o mundo. O valor das ações da Embraer caiu pela metade, evidenciando as dificuldades de seus clientes. Agora, o movimento se inverte. Em dez dias, as ações da fabricante brasileira de aeronaves subiram 11%, minimizando para 40% as perdas no ano.

Com o desaquecimento da economia global, os preços das matérias-primas começam a ceder, beneficiando não só as companhias aéreas mas também petroquímicas e empresas ligadas a alimentos, bebidas e bicombustíveis. Além do petróleo, commodities agrícolas, como soja, milho e trigo estão mais baratas no mercado internacional.

Sadia e Perdigão já contabilizam a redução nos custos de alimentação de aves, que equivale a até 30% de suas despesas de produção. “Como havia demanda, as empresas compensaram o aumento de custos elevando o preço dos produtos. Mas tudo tem um limite, e já estávamos chegando lá. Agora, se os preços se mantiverem mais baixos, as empresas devem conseguir uma melhora de margem de lucro”, diz Rafael Cintra, analista da corretora Link.

Essa expectativa fez os papéis das companhias subirem mais de 5% nas últimas duas semanas. A Perdigão, que com a compra da Eleva se tornou uma das maiores empresas do país em laticínios, ainda deverá ter mais alguma melhora de margem com a desaceleração do preço do leite, um dos maiores vilões da inflação no primeiro semestre. O produto, juntamente com o trigo e a soja, também deve trazer algum alívio para os custos da fabricante de massas e biscoitos M. Dias Branco. ( Veja quem ganha com a queda das commodities)

Outra empresa que pode ser beneficiada é a Brasil Ecodiesel. A rentabilidade da empresa depende do preço de aquisição da soja, que caiu junto com o petróleo. Nesse caso, entretanto, as cotações da empresa têm sido prejudicadas pela grave crise decorrente de erros de estratégia e quebra de contratos. Mesmo com a queda da soja, as ações da companhia recuaram mais de 5% nas duas últimas semanas. Já no caso da Brakem, a reação foi contrária. A procura pelas ações elevou em 7,8% as cotações entre 14 e 25 de julho. A petroquímica ganha com a queda na nafta, matéria-prima para a fabricação de plásticos.

Longo prazo

As ações de empresas aéreas, de alimentos, de biocombustíveis e petroquímicas só devem manter o ritmo de valorização no longo prazo se o preço das commodities não voltar a subir forte, retomando os patamares recordes. No momento, há uma total falta de consenso sobre a direção a ser seguida pelas commodities. O caso do petróleo é bem ilustrativo. Se por um lado o presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Chakib Khelil, acredita que o barril pode cair para 78 dólares (linkar com matéria de hoje) “se o dólar continuar se fortalecendo e a situação política (envolvendo o Irã) melhorar”, por outro não faltam analistas que apostam um barril cotado a US$ 200 no futuro próximo.

A maioria dos especialistas, entretanto, descarta saltos das commodities tão acentuados como o dos últimos meses devido, principalmente, ao forte desaquecimento da economia americana. Tampouco é provável que as commodities voltem aos patamares de três anos atrás, quando a China não exercia tanta pressão de demanda. O mais provável, dizem os analistas, é que os preços se acomodem num patamar acima da média histórica.

Até que se encontre novamente o ponto de equilíbrio entre oferta e demanda, a volatilidade deve permanecer no mercado, motivada também pela ação dos fundos de investimento. “No primeiro semestre, os fundos entraram comprando no mercado e puxaram os preços das matérias-primas. Agora eles estão saindo, derrubando as cotações”, diz a diretora da consultoria MB Associados, Tereza Fernandez. Após esse período de ajuste, entretanto, Tereza acredita que os preços voltarão a subir. “A economia mundial continuará crescendo, ainda que em menor ritmo”, diz.