Conheça a história do Ibovespa, que completa 50 anos em 2018

Veja como funciona o principal indicador do mercado de ações brasileiro, que começou a ser computado há cinco décadas

São Paulo — O Ibovespa completa cinco décadas neste ano. Mesmo que você não conheça esse índice a fundo, nem saiba como ele é calculado, é quase impossível que nunca tenha ouvido falar dele. O cinquentão é o principal indicador do mercado de ações brasileiro.

Com o orgulho de ter sofrido poucas mudanças metodológicas, o Ibovespa se tornou uma referência para a avaliação de investidores de todo o mundo, ao mesmo tempo que acompanhou as transformações econômicas vividas pelo país. 

Como ele nasceu

O Ibovespa foi criado em meados de 1967 pelo departamento técnico da Bolsa de Valores de São Paulo (hoje chamada de B3). Seu nascimento está ligado a uma série de reformas que tinham como objetivo modernizar a estrutura do mercado financeiro do país.

“Antes do índice, a bolsa só divulgava as cotações de cada ação”, explica Walter Cestari, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), que acompanhou a criação do índice. “O Ibovespa surge em meio à necessidade do país de ter instrumentos mais técnicos para avaliação de mercados.”

Naquela época, as negociações de ativos eram concentradas em outra bolsa, a do Rio de Janeiro. Foi em terras cariocas, aliás, que surgiu um dos primeiros índices brasileiros, chamado de Índice Bolsa de Valores (IBV). O indicador reunia as ações mais negociadas.

Alguns anos depois, o IBV acabou servindo de base para o Ibovespa. Alguns critérios foram adotados — como o percentual de presença das empresas no pregão — e outros, aperfeiçoados. “Não adiantava ter muitos negócios, ou muito volume se a ação só era negociada de vez em quando”, diz Cestari.

No dia 2 de janeiro de 1968, o indicador começou a ser computado e segue até hoje, de maneira ininterrupta.

O cenário de negociação era bem diferente daquele visto hoje. Sem muitos recursos tecnológicos, as compras e as vendas eram fechadas no grito. 

“Todos os corretores se reuniam em torno de um balcão, chamado de corbeille, e davam as ordens de compra e venda”, lembra Luiz Barsi, um dos maiores investidores pessoa física do Brasil, que começou a operar na Bolsa também em 1968. “O diretor do pregão lia os nomes das empresas, em ordem alfabética, e os operadores tinham um tempo pré-determinado para negociar os papéis delas.”

Sem painéis eletrônicos para divulgar as cotações, os valores dos negócios eram apresentados em uma lousa enorme e anotados com giz. Os comprovantes de cada transação, chamados de “boletos”, eram repassados à Divisão Técnica da bolsa através de um barbante, preso em um pregador de roupas. 

Só no final da tarde era divulgado um boletim, conhecido como BDI (Boletim Diário da Bolsa), com as cotações de cada ação e a movimentação do dia.

Como funciona

O objetivo do Ibovespa é refletir o desempenho das ações mais negociadas e mais representativas da Bolsa. O índice funciona como uma espécie de carteira de ações. É como se alguém decidisse comprar os papéis mais negociados, colocasse todos eles em uma carteira e olhasse, dia após dia, se o valor pago pelas ações diminuiu ou aumentou.

Na época em que o Ibovespa foi criado, foi determinado que as ações da primeira carteira valeriam, todas juntas, o equivalente a 100 cruzeiros novos, convertidos em 100 pontos.

Com as elevadas taxas de inflação da década de 60, o valor da carteira foi nominalmente elevado. Para facilitar a divulgação do índice, 11 zeros foram cortados — acompanhando o corte de zeros das moedas do país. Se o corte não tivesse acontecido, o Ibovespa estaria hoje em 76.402.000.000.000.000 pontos (76,4 quadrilhões de pontos). O valor absoluto, no entanto, não é tão relevante. O que importa, neste caso, é a variação entre duas datas.

Também foi decidido que, periodicamente, a composição da carteira seria revisada. A cada quatro meses, são reavaliadas a participação de cada ação no índice, assim como a permanência ou exclusão dos ativos e a inclusão de novos papéis.

Para isso, são levados em conta alguns critérios (vejam todos eles), como a negociabilidade da ação nos últimos 12 meses, o volume dos negócios e o número de pregões que a ação participou. 

Os critérios do Ibovespa foram os mesmos por um período de 45 anos (de 1968 a 2013). Em 2014, a Bolsa mudou o cálculo do índice e passou a excluir do indicador os papéis que valem centavos, chamados de “penny stocks”.

Outra mudança foi na ponderação do cálculo, que passou a ser realizada pelo valor de mercado das ações em circulação (free float). Além disso, ficou definido que nenhuma empresa poderia representar mais do que 20% na composição do Ibovespa, considerando todas as classes de ação. 

As trocas de carteira sempre são feitas nos dias 2 de janeiro, 2 de maio e 1° de setembro. A escolha das datas não foi por acaso, como explicam Helio de Paula Leite e Antonio Zoratto Sanvicente no livro “Índice Bovespa: um padrão para os investimentos brasileiros”.

Segundo Leite e Sanvicente, na época em que o Ibovespa nasceu, as máquinas de calcular ainda eram mecânicas, tornando o trabalho dos funcionários da Bolsa bem difícil. Para descobrir quais ações entrariam ou sairiam do índice, eles se debruçavam por horas sobre os números. O mesmo cálculo era feito várias vezes, até que processamentos independentes chegassem ao mesmo resultado. 

A fim de facilitar o trabalho, ficou estabelecido que as duas primeiras trocas de carteira do ano seriam feitas após feriados (1° de janeiro, Dia da Fraternidade Universal, e 1° de maio, Dia do Trabalhador). “Quanto à mudança de setembro, jogava-se com a sorte”, relatam os autores. 

As pioneiras

Walter Cestari lembra das 17 ações que formavam a primeira carteira do Ibovespa. Nos registros oficiais, só aparece o nome das empresas que fizeram parte da segunda carteira, que vigorou entre maio e setembro de 1968. 

As pioneiras do Ibovespa, segundo o professor, foram Aços Villares, Alpargatas, Antarctica, Banco do Estado de São Paulo (Banespa), Banco Itaú, Casa Anglo (Mappin), Cimento Itaú, Companhia Docas de Santos, Duratex, Indústrias Villares, Lojas Americanas, Fabrica de Brinquedos Estrela, Companhia Melhoramentos Papeis de São Paulo, Moinho Santista, Companhia Paulista de Força e Luz, Souza Cruz e Vale do Rio Doce. 

Meia década depois, apenas duas delas nunca saíram da carteira: a Vale, que entrou como Vale do Rio Doce, e a cervejaria AmBev, que entrou como Antarctica. Outras como Itaú e Americanas saíram da lista por um período, voltaram mais tarde e estão no índice até hoje. 

Em meados de 1986, o Ibovespa registrou o maior número de ações em sua carteira: 139. Naquele ano, explica Cestari, o Plano Cruzado congelou os preços na economia e os investidores ampliaram suas aplicações.

“Em 1987, o Plano Cruzado fracassa, o número de ações da carteira cai abaixo de 100 e permanece se reduzindo nas décadas seguintes até atingir as cerca de 60 ações dos dias de hoje”, diz o professor. Na carteira atual há 64 ações de 61 empresas.

Para as companhias, estar no Ibovespa é algo positivo, devido à visibilidade alcançada com investidores, especialmente os institucionais, que usam o indicador como um referencial para suas carteiras. 

Altas e baixas

Se for considerada a inflação, o Ibovespa acumulou ganhos de 2481,39% desde a sua criação. Dos cinquenta anos de existência, 25 terminaram com ganhos e 25 terminaram com perdas, segundo cálculos da empresa de informações financeiras Economatica

O pior ano para o índice foi 1990, quando ele teve perdas de 74,11%. No dia 21 de março daquele ano, o Ibovespa despencou 22,27% — a maior queda diária já registrada na história — após o anúncio do Plano Collor, que bloqueou as cadernetas de poupança até o limite de 50 mil cruzados novos.

O maior retorno foi registrado no ano seguinte, quando o índice teve ganhos de 316,38%. Também em 1991, foi registrada a maior alta diária do Ibovespa. No dia 4 de fevereiro, ele subiu 36%, com os investidores animados com as perspectivas do Plano Collor 2 para o controle da inflação.

Desde 1997, o mercado não vê oscilações tão fortes. A partir daquele ano, a Bolsa adotou o “circuit breaker”, um mecanismo que interrompe as negociações por 30 minutos, caso as quedas ultrapassem a barreira dos 10%.

O maior valor nominal já atingido pelo Ibovespa foi 76.990 pontos, alcançados no dia 13 de outubro de 2017.

Se for avaliada a inflação, no entanto, o índice está muito longe do seu recorde. Dados da Economatica mostram que o maior valor alcançado pelo Ibovespa, ajustando o índice ao IGP-DI, foi 124.269 pontos, registrados no dia 20 de maio de 2008.

Em valores ajustados pelo dólar — ou seja, sob a ótica de um investidor estrangeiro — a máxima registrada foi 44.616 pontos, registrados em 19 de maio de 2008.

Críticas

Uma das críticas que investidores fazem ao Ibovespa é que o índice se concentra em poucas empresas e que, por isso, acaba não refletindo a realidade de todo o mercado. “Três empresas juntas têm uma participação de quase 30% do índice”, diz  Michel Viriato, do Insper.  “O problema é que elas sozinhas não representam 30% do mercado corporativo. Por isso é difícil dizer que o Ibovespa é representativo.”

Atualmente, os cinco ativos que têm maior peso na composição do índice são Itaú Unibanco PN, com 10,492% do índice, Vale ON, com 9,946%, Bradesco PN, com 7,755%, Ambev ON, 6,875% e Petrobras PN, 5,251%. 

Há, no entanto, quem diga que o nível de concentração é só uma decorrência da representatividade garantida em sua metodologia. Walter Cestari, da FIA, diz que a função do Ibovespa é ser um espelho do mercado. “Não há o que fazer. Se o mercado é concentrado, o índice acaba ficando concentrado”, diz ele.

Para Viriato, a concentração deve diminuir com a melhora da economia, o que deve impulsionar a entrada de companhias no mercado acionário.

“Nos últimos anos, com o cenário de juros altos e economia ruim, muitas empresas decidiram fechar capital. Consequentemente, com menos empresas, o índice acabou ficando ainda mais concentrado”, explica ele. “Com a melhora do mercado e a entrada de novas empresas, é provável que essa concentração seja reduzida.”