Cenário adverso compromete IPOs e ofertas em andamento

No momento, oito ofertas estão em análise na Comissão de Valores Mobiliários

São Paulo – O forte clima de aversão ao risco e a elevada volatilidade que têm dominado os mercados podem levar empresas que se preparam para abrir capital ou fazer novas emissões de ações a desistir do processo, enquanto as que forem adiante devem captar menos que o planejado por seus controladores.

No momento, oito ofertas estão em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), sendo cinco ofertas públicas iniciais (IPO), e três ofertas subsequentes -uma com recibos de ações- segundo dados no site da autarquia.

“O momento é muito difícil para novas ofertas”, disse o sócio da PwC Brasil, Ivan Clark, especialista em mercado de capitais. “O grande inimigo de qualquer IPO é a volatilidade. Esse momento que estamos vivendo, de elevada volatilidade nos mercados, dificulta muito a precificação das operações.” Usado pelo mercado como termômetro para volatilidade e aversão ao risco nos mercados, o índice VIX registrava neste início de junho a maior pontuação desde dezembro de 2011, refletindo os temores dos investidores com a crise na zona do euro e com a desaceleração do crescimento global.

“O momento não é propício para abertura de capital, porque existe incerteza ainda muito grande com o que vai acontecer com a economia mundial”, disse Ricardo Almeida, professor de finanças do Insper. Só em maio, o principal índice da Bovespa acumulou queda de 11,86 por cento, o pior desempenho mensal desde outubro de 2008, após a quebra do banco Lehman Brothers.

Dentre as empresas que planejam IPO nos próximos meses estão a rede de drogarias Pague Menos, a CPFL Energias Renováveis, empresa de energias alternativas do grupo CPFL, a LDC Bioenergia, a Manabi Holding e a VIX Logística.

Dentre as ofertas subsequentes estão Suzano Papel e Celulose e a Brazil Pharma. A Celulose Irani está com pedido para venda de certificados de depósito de ações.


“A princípio, as empresas que já tem capital aberto têm maior chance de fazer a oferta… Mesmo assim, desistências ainda devem ocorrer no mercado”, afirmou Almeida, do Insper.

A deterioração das condições de mercado já levou diversas empresas brasileiras a adiar ou desistir de realizar seu IPO neste ano, como as operadoras de turismo CVC e Brasil Travel, a empresa de infraestrutura Isolux e a de petróleo e gás Seabras.

Já as operações que vingaram – Locamerica e BTG Pactual – acumulam forte queda no preço das ações desde que estrearam na Bovespa.

No caso da Locamerica, a ação saiu a 9 reais, abaixo do intervalo de preço sugerido no prospecto preliminar, de 11 a 14 reais, e o papel acumula queda de 26,4 por cento desde o IPO, em 23 de abril, até a véspera.

Embora o IPO do BTG tenha saído dentro faixa de preço estimada, a 31,25 reais, a unit acumula queda de 18,1 por cento desde sua estreia em 26 de abril.

“Qualquer oferta nesse momento vai testar a demanda dos investidores e, em um cenário em que temos visto bastante saída de estrangeiros, vai ser bem complicado”, disse o analista Felipe Ruppenthal, da corretora Geração Futuro.

“Investir em um IPO é investir em uma empresa de risco, em um momento de risco nos mercados, dois fatores que jogam contra, então os investidores vão querer ter um bom desconto”, afirmou Clark. “O segundo semestre não vai ser muito feliz, as janelas estão se fechando para IPO.” As emissões de empresas que já são listadas em bolsa também devem sofrer desconto, segundo analistas. Desde que anunciou que fará nova oferta, em 15 de maio, a ação da Suzano caiu 25,9 por cento. A empresa espera captar cerca de 1,5 bilhão de reais para reforçar caixa, mas se a oferta saísse ao preço do fechamento da véspera, a companhia levantaria 1,19 bilhão de reais, considerando o total de ações que serão ofertadas.

Apesar das condições desfavoráveis do mercado, Clark afirma que em alguns casos as empresas não tem outra alternativa para financiar seus projetos. “As empresas brasileiras realmente precisam acessar o mercado de capitais, vimos que agências como o BNDES já indicaram que chegaram ao limite de crédito”.

Mas o mercado de dívida no exterior está mais favorável, segundo ele. “Existe uma janela aberta para dívida neste momento, como mostra a operação da BRF”. Na semana passada, a Brasil Foods divulgou um memorando de oferta de títulos e planeja realizar uma nova emissão de bônus em dólares com vencimento de 10 anos.

Globalmente, a crise europeia e a desaceleração chinesa tem congelado os IPOs. O valor arrecadado com essas ofertas neste ano, até maio, estava 46 por cento abaixo do mesmo período de 2011.