Celpa lidera ganhos na renda fixa com chance de apoio do governo

Caso as Centrais Elétricas do Pará SA tenham dificuldade em pagar sua dívida, o governo deve oferecer garantias financeiras

Nova York – Os títulos da Centrais Elétricas do Pará SA, empresa que tem descumprido contratos de financiamento, registram a maior valorização na dívida corporativa do País com especulações de que o governo vai garantir sua dívida.

O rendimento dos títulos da empresa em dólar com vencimento em 2016 desabou 110 pontos-base desde a emissão, em 27 de maio, para 9,4 por cento, segundo dados compilados pela Bloomberg. Foi a maior queda entre papéis corporativos brasileiros no período. O custo médio de financiamento das empresas mexicanas subiu sete pontos-base, ou 0,07 ponto percentual, desde 27 de maio, segundo índices do JPMorgan Chase & Co.

Caso a Celpa tenha dificuldade em pagar sua dívida, o governo deve oferecer garantias financeiras, já que a distribuidora faz parte do plano da presidente Dilma Rousseff para ampliar o acesso à eletricidade no País, disse Juan Cruz, analista de dívida corporativa do Barclays Plc. O Brasil também está aumentando seus gastos com infraestrutura em preparação para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpíada de 2016.

“A companhia é uma peça-chave no plano de investimento em infraestrutura do governo para os próximos três a quatro anos”, disse Cruz em entrevista por telefone de Londres. “Não creio que ela vá precisar de uma ajuda emergencial do governo, ou mesmo ter de ser resgatada, mas, mesmo se que isso aconteça, não fico preocupado, pois o governo tem todo o incentivo do mundo para apoiá-la.”

O rendimento dos títulos da empresa sediada em Belém deve cair mais 115 pontos-base neste ano, disse Cruz.

Nota de crédito

Os papéis da companhia pagam 651 pontos-base a mais do que títulos do governo de prazo similar, segundo dados da Bloomberg. A Celpa recebeu classificação CCC+ da Standard & Poor’s, sete níveis abaixo do grau de investimento.

O gasto do governo para expandir a rede elétrica e financiar outros projetos de infraestrutura vai aumentar de R$ 121 bilhões em 2009 para R$ 160 bilhões em 2012, segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base.


“Esse é um dos setores no Brasil que têm maior espaço para ganhos e ainda não foi explorado”, disse Vinicius Pasquarelli, operador de dívida de mercados emergentes da Tradition Asiel Securities, em entrevista por telefone de Nova York.

A Rede Energia SA, controladora da Celpa, não quis fazer comentários para esta reportagem, segundo sua assessoria de imprensa. Em comunicado enviado por e-mail, o Ministério da Fazenda também se recusou a comentar.

Cenário desafiador

A Celpa pode ter dificuldade para rolar sua dívida caso a demanda por ativos de maior rendimento diminua, disse Renata Pinho, analista da Fitch Ratings. A relação entre a dívida líquida da empresa e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, o Ebitda, era de 6,3 vezes em dezembro de 2010, comparado a 7,1 um ano antes, segundo a Fitch. Antes da emissão dos títulos, a companhia tinha US$ 412 milhões em obrigações de curto prazo, segundo dados do Barclays e da própria companhia.

“Se o mercado de crédito mudar e o cenário ficar mais desafiador, a Celpa pode ter dificuldades e enfrentar custos de financiamento maiores”, disse Pinho, em entrevista por telefone de São Paulo.

A Celpa não tem conseguido cumprir o acordo de financiamentos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que incluem a exigência de uma relação máxima entre dívida total de Ebitda de 3,5 vezes. Nos 12 meses até março, essa relação ficou em 4,5 vezes para a distribuidora, segundo relatório da Fitch publicado em 16 de maio.

Roubos de energia e transmissão ineficiente também impedem a melhora da nota de risco da empresa, disse a analista Renata Pinho. A Fitch, que tem classificação B para a Celpa, estima sua perda de eletricidade em cerca de 30 por cento ao ano.

“Qualquer melhora na classificação de risco depende da redução das perdas de energia e do aumento da geração de caixa, da obtenção de financiamento de longo prazo e de uma melhora no perfil de crédito da holding da Celpa”, disse José Soares, analista da Moody’s Investors Service em São Paulo, em entrevista por telefone.
A Celpa tem nota B3 na escala da Moody’s.