Captação externa em reais marca retorno dos BRICs ao mercado

A emissão seria a primeira depois que a China fez uma captação em sua moeda no dia 17 de agosto

Nova York – O Brasil planeja fazer a primeira captação externa em moeda local em seis meses de um país do bloco BRIC, um movimento que pode reabrir o mercado às corporações.

O Tesouro Nacional pretende captar até US$ 1,5 bilhão em títulos de 10 anos em reais este ano, disse Paulo Valle, secretário adjunto do Tesouro, em entrevista ontem por telefone de Luxemburgo. A emissão seria a primeira depois que a China fez uma captação em sua moeda em 17 de agosto, de acordo com dados levantados pela Bloomberg. O rendimento do bônus global brasileiro denominado em reais com vencimento em 2022 caiu 27 pontos-base, ou 0,27 ponto percentual, nas últimas duas semanas para 8,42 por cento, a menor taxa em um mês.

A captação aproveitaria a crescente demanda por ativos de maior rendimento com a recuperação da economia dos Estados Unidos e com o aumento da confiança na capacidade da Europa em conter a crise financeira. A emissão deve atrair investidores interessados em aproveitar a valorização de 8,8 por cento da moeda brasileira este ano ao mesmo tempo em que evitariam pagar o Imposto sobre Operações Financeiras cobrado de estrangeiros no mercado local de dívida, disse Alejandro Urbina, que administra US$ 800 milhões em ativos na Silva Capital Management. “Os investidores estão assumindo risco de novo”, disse Urbina em entrevista por telefone de Chicago. “Há demanda dos investidores que querem ganhar exposição em reais e não necessariamente querem vir para o mercado local por conta do IOF.”

A Brasil Telecom SA foi a última empresa brasileira a emitir títulos em reais no exterior, numa captação recorde de R$ 1,1 bilhão em bônus com vencimento em 2016 com rendimento de 9,875 por cento em 8 de setembro. O rendimento dos papéis caiu 18 pontos-base, ou 0,18 ponto percentual, desde então para 9,7 por cento, segundo dados da Bloomberg.

‘Bom momento’

O governo fez uma captação externa em reais em outubro de 2010, numa colocação de R$ 1,1 bilhão em papéis com vencimento em 2028 e rendimento de 8,85 por cento. A dívida, que vence sete anos após o mais longo título de renda fixa no mercado local, tinha rendimento de 8,68 por cento ontem.

O Tesouro irá aguardar condições de mercado favoráveis para fazer a emissão, disse Valle.

Uma venda soberana de dívida em reais no exterior reacenderia o mercado e aumentaria a liquidez, ajudando as empresas, disse Julian Jacobson, que supervisiona US$ 30 milhões em ativos de mercados emergentes na Fabien Pictet & Partners Ltd. em Londres.

“É um bom momento”, disse Jacobson em entrevista por telefone. “Por que não manter o mercado vivo?”


As empresas brasileiras captaram US$ 15,8 bilhões no mercado externo este ano, comparado a US$ 11,5 bilhões no mesmo período do ano anterior, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

Imposto triplicado

“Sem abandonar o regime flutuante, o governo tem atuado para garantir uma taxa de câmbio competitiva para o País”, o Ministério da Fazenda afirmou em relatório publicado ontem em seu website.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou em 23 de janeiro que o governo vai continuar com políticas para evitar a valorização cambial. O governo triplicou a taxa do IOF para compra de títulos por estrangeiros no mercado local para 6 por cento em 2010.

Pablo Cisilino, que ajuda a administrar cerca de US$ 30 bilhões em dívida de mercados emergentes na Stone Harbor Investment Partners, disse que o governo deveria retirar o IOF para atrair investidores ao mercado local ao invés de vender dívida em reais.

‘Faz sentido’

É “um erro”, disse Cisilino de Nova York. “O Brasil está fragmentando o mercado ao criar artificialmente esses bônus offshore. Se eles querem que os investidores estrangeiros comprem títulos denominados em reais, por que não eliminam o IOF? Os custos de captação seriam consideravelmente menores.”

Um captação externa permite que o governo venda títulos em reais sem atrair investidores para o mercado local, o que levaria à valorização da moeda, disse Urbina, da Silva Capital.

“É uma emissão que mantém o fluxo fora do mercado local,” disse Urbina. “Faz sentido. De modo geral, não é um mau momento para ir a mercado.”