Cadê o dinheiro estrangeiro?

Thais Folego 

O governo mudou, o humor do mercado melhorou, a bolsa está em alta, o cenário externo joga a favor dos emergentes. Mas onde está o dinheiro estrangeiro, que ainda não deu as caras no Brasil? O investidor não-residente tirou, no primeiro semestre do ano, 14,8 bilhões de reais da renda fixa do país, segundo os últimos dados do Banco Central. Em ações, o saldo positivo é de apenas 4,3 bilhões de reais e para os fundos de investimentos ingressaram 1,6 bilhão de reais no acumulado do ano. Os números parciais de julho do fluxo para a bolsa de valores brasileira são mais animadores, com entrada de 4,5 bilhões, mas ainda é cedo para avaliar se ele será consistente.

A expectativa dos gestores de recursos internacionais e locais consultados por EXAME Hoje é de que o fluxo de recursos para o país vai voltar aos poucos, após três anos reduzindo drasticamente as aplicações, à medida que as promessas de retomada do crescimento econômico e a melhora da saúde do país se concretizarem. “O investidor estrangeiro não dedicado a Brasil, que não acompanha o dia a dia de perto, quer esperar para ver o processo de impeachment finalizado e se os planos do Ministério da Fazenda para a economia vão ter apoio do Congresso, ter certeza de que o planejado será executado”, diz Will Landers, principal gestor para a América Latina da BlackRock, a maior administradora de recursos do mundo.

Ou seja: bombardeados apenas com notícias ruins vindas do Brasil nos últimos anos, os estrangeiros estão ressabiados. Aos poucos, no entanto, eles começam a olhar para os ativos locais. “Já há uma abertura maior, mas ainda estamos bem longe da situação de 2010, quando todo mundo queria falar com a gente e sentávamos na cabeceira da mesa”, diz Ernesto Leme, diretor comercial da Claritas, gestora do grupo americano Principal Group.

O mundo conspira a favor

A melhora do ambiente doméstico já levou a uma primeira rodada de valorização dos ativos brasileiros, mas ela foi liderada pelos investidores locais. O Ibovespa acumula uma alta de 30% no ano e os títulos públicos do governo mostram valorizações superiores a 20%. Para movimentos adicionais de alta, com fluxo estrangeiro, o governo terá que começar a entregar os ajustes necessários nas contas públicas e na economia. Para isso, a votação no Senado do afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff, prevista para o final de agosto, é decisiva.

“O final do processo de impeachment e o destravamento da pauta econômica são importantes para trazer o dinheiro de longo prazo. O estrangeiro vem percebendo a melhora qualitativa, mas é preciso mais do que isso”, diz Rodrigo Borges, diretor de renda fixa da gestora Franklin Templeton Brasil. Segundo ele, os recursos que têm entrado são mais para operações de curto prazo.

Para que o dinheiro realmente venha, o cenário externo tem que continuar jogando a favor do Brasil. A alta liquidez no mercado financeiro global tem beneficiado os mercados emergentes. Juros negativos ou estagnados em economias maduras como no Japão, na Europa e nos Estados Unidos  automaticamente fazem investidores procurarem mercados como o brasileiro. Até agora, o risco falava mais alto que a oportunidade. Agora, a tendência é que a balança se inverta.

Além disso, há um aumento do risco de terrorismo na Europa e do político nos Estados Unidos, com a aproximação das eleições presidenciais. Entre os emergentes, o Brasil pode ganhar espaço sobre a Turquia, que sofreu uma ameaça de golpe militar recentemente, e do México, cuja relação comercial e diplomática com os Estados Unidos pode ser comprometida com uma eventual vitória do candidato republicado Donald Trump.

“O Brasil vai ser um dos focos dos estrangeiros se Temer encontrar o caminho”, diz Landers, da BlackRock. A gestora já começou a aumentar a sua exposição a ações brasileiras em março, quando ficou mais claro que a probabilidade do impeachment tinha ultrapassado os 50%. O peso das ações brasileiras nos fundos da gestora dedicados a América Latina atualmente está 4 pontos percentuais acima do índice de referência do mercado para a região, o MSCI Latin América – em comparação a um peso abaixo do índice no começo do ano.

140 bilhões

O problema, claro, é o próprio Brasil não se ajudar. O que se tem hoje são expectativas calcadas em perspectivas positivas para o país. O problema será se elas forem frustradas. “O mercado criou uma expectativa de que o governo tem capacidade de entregar muita coisa em um intervalo pequeno de tempo e isso não é consistente. Se o mercado ficar frustrado pela expectativa que ele próprio criou, os preços vão voltar”, diz Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp, maior fundo de pensão de empresas privadas do país, com patrimônio de 25 bilhões de reais. No segundo semestre, não custa lembrar, a agenda estará apertada, com Olimpíadas e eleições municipais.

Um exemplo concreto de como, pelo menos na bolsa, as expectativas positivas têm dado o tom: o Ibovespa hoje é negociado a um múltiplo de preço sobre o lucro próximo de 18 vezes, acima da sua média histórica e quase o mesmo múltiplo do índice acionário de referência dos EUA, o S&P 500.

O BTG Pactual calculou em abril, pouco antes da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, que se os fundos de ações estrangeiros voltassem as ter as alocações que tinham no Brasil em outubro de 2014, antes das eleições que reelegeram Dilma, 140 bilhões de reais entrariam na bolsa. Outros 90 bilhões de reais ainda poderiam vir de fundos nacionais pelos cálculos do banco.

Mais recentemente, uma análise do banco JP Morgan mostrou que se os fundos brasileiros de ações, multimercados e de previdência (incluindo os fundos de pensão) voltarem a ter o percentual do seu patrimônio na bolsa em linha com as suas médias históricas, o fluxo de recursos para a bolsa poderá atingir 200 bilhões de reais, conforme publicou a edição anterior de EXAME. Falta só o país ajudar.