Bovespa cai 1,68% com temor de alta dos juros na China

Por Márcio Rodrigues

São Paulo – As preocupações com o cenário externo não têm dado trégua para os negócios na Bolsa de Valores de São Paulo, que experimentou o terceiro dia consecutivo de queda. Um dos motivadores da aversão ao risco, hoje, foi a China. Os mercados foram influenciados pelo pessimismo em relação a um aumento iminente dos juros no gigante asiático, o que pode impactar a demanda por matérias-primas (commodities). Mas o ambiente interno também começa a mitigar o otimismo em relação à economia brasileira. As recentes declarações da nova equipe econômica do governo abrem margem para o entendimento de que, além da elevação do juro já precificada pelo mercado, novas medidas de restrição ao consumo podem ser adotadas.

O índice Bovespa operou praticamente durante todo o pregão no terreno negativo, fechando em queda de 1,68%, aos 68.174,92 pontos. Na máxima, logo na abertura, o índice teve ligeira alta de 0,02%, aos 69.354. Na mínima, o recuo chegou a 1,86%, aos 68.046 pontos. O volume financeiro, que dava sinais de recuperação ao longo do dia, perdeu força no fim da sessão e somou R$ 6,59 bilhões.

Pequim decidiu antecipar, de segunda-feira para sábado, a divulgação de uma série de indicadores econômicos referentes ao mês de novembro, entre eles os dados de inflação. A decisão reforça as apostas de um aumento da taxa básica de juros chinesa já neste fim de semana, em um esforço renovado para controlar a alta dos preços no país. “Isso derrubou as commodities e acaba impactando com mais força na Bovespa”, comenta Pedro Galdi, estrategista-chefe da SLW.

No front doméstico, a força da inflação tem gerado instabilidade não apenas em relação aos juros. O controle de preços via aumento da taxa Selic (juro básico da economia) no próximo ano já é dado como certo pelo mercado, mas o cenário atual pode exigir medidas além do que já está precificado. Durante sua sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o futuro presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, voltou a defender o uso de “instrumentos macroprudenciais”, principalmente para prevenir a formação de bolhas financeiras e de crédito. Hoje o Comitê de Política Monetária (Copom) realiza a última reunião do ano para decidir sobre a taxa Selic e o mercado ainda aposta em estabilidade da taxa em 10,75% ao ano. O encontro marca a despedida de Henrique Meirelles do BC e é a primeira reunião de Tombini como futuro presidente da autoridade monetária.

Com esse emaranhado de análises e a saída de estrangeiros do mercado, os papéis ligados a commodities operaram no vermelho hoje, com Vale e siderúrgicas realizando lucros, em linha com a queda dos metais básicos negociados no exterior. Vale PNA caiu 2,22% e Vale ON recuou 1,89%, ambos na mínima do dia. Entre as siderúrgicas, Usiminas ON perdeu 2,82% e o papel PNA, -2,58%. Gerdau PN teve baixa de 1,56%, Gerdau Metalúrgica perdeu 2,00% e CSN ON caiu 1,42%.

No setor petrolífero, Petrobras PN caiu 1,38% e Petrobras ON cedeu 1,14%, enfraquecida pela realização de lucros do petróleo negociado em Nova York.

Mas o topo do ranking de maiores baixas foi ocupado por Brasil Ecodiesel ON, que recuou 7,21%, reagindo à notícia, divulgada na noite de ontem, de que a companhia vai se associar à holding Maeda S.A, em uma operação de troca de ações. No processo, ainda sujeito à provação da assembleia de acionistas, a Brasil Ecodiesel irá incorporar as ações na relação de 3,6395 ações da Maeda por uma ação da Brasil Ecodiesel. Como resultado, a nova empresa que surgirá da operação estará 67% nas mãos dos antigos acionistas da Brasil Ecodiesel e 33% da Maeda. O investidor Henrique Bañuelos de Castro – que controla a Maeda através do fundo Arion – será o maior acionista desta nova companhia, com 24% das ações. O acionista da Brasil Ecodiesel, Silvio Tini, ficará com cerca de 10% das ações.

A Bolsa brasileira segue descolada do mercado norte-americano. Às 18h34, o índice Dow Jones operava estável, enquanto o S&P 500 ganhava 0,22%. O Nasdaq avançava 0,28%.