Bolsa sofre com ações de efeito limitado do governo, diz Landers

Diretor do BlackRock para a América Latina acredita que medidas de Mantega para controlar a valorização do real são fúteis

São Paulo – A incapacidade do governo de conter a inflação e a valorização do real tem impedido que as ações na bolsa brasileira deslanchem, disse Will Landers, diretor para América Latina da BlackRock Inc..

“O mercado gosta de certezas”, disse o executivo em entrevista ontem, na Bloomberg, em São Paulo. “Na nossa cabeça, a gente podia já estar nesse momento no mercado com um Banco Central que já tinha feito o que tinha que fazer.”

Desde janeiro, o BC elevou a taxa básica de juros duas vezes, em 0,5 ponto percentual em cada ocasião, para 11,75 por cento ao ano. As projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo no fim do ano subiram pela quinta semana seguida, para 6,26 por cento, segundo a última pesquisa Focus, divulgada pelo BC na segunda-feira. Na semana passada, o governo dobrou a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras para o crédito ao consumidor na tentativa de frear a inflação.

“As medidas tomadas pelo Ministério da Fazenda até agora têm tido um impacto limitado, tanto no crescimento quanto na tentativa fútil de controlar a moeda”, disse Landers. “Dado o fato de que o BC, na cabeça de muitos, perdeu um pouco de credibilidade no controle da inflação, eu ainda estou um pouco mais positivo.”

Em 2011, o índice da bolsa brasileira acumula queda de 3,3 por cento, o pior desempenho entre os principais índices das bolsas das Américas. Os índices europeus FTSE 100, de Londres, DAX, de Frankfurt, e CAC 40, de Paris, acumulam ganho entre 1,1 por cento e 4,5 por cento. Nos Estados Unidos, o Dow Jones tem valorização de 5,9 por cento este ano.

Bancos e consumo

O Ibovespa deve chegar ao fim de 2011 aos 85.000 pontos, disse Landers. Isso representaria uma valorização de 27 por cento em relação ao fechamento de ontem, em que o Ibovespa caiu 1,9 por cento, para 66.896 pontos.


Entre as formas de se beneficiar do consumo e do emprego ainda fortes no Brasil, as principais apostas da BlackRock para o mercado brasileiro hoje são as empresas do setor bancário e de consumo, com destaques para Itaú Unibanco Holding SA e Cia. de Bebidas das Américas, respectivamente.

Comparada aos demais mercados da América Latina, a bolsa brasileira é considerada barata pelo executivo.

“Se a gente olha o Brasil contra o resto da América Latina, a gente continua a ser o mercado mais barato”, disse Landers.

O Ibovespa é negociado a uma relação de preço das ações sobre lucro das companhias de 11,3 vezes, considerando as estimativas para 2011, segundo dados da Bloomberg. O mesmo dado para o índice IPC, da bolsa mexicana, aponta relação preço-lucro de 17,8 vezes.

IPOs caros

Outro fator que tem inibido a entrada de investidores na bolsa brasileira é o preço das ações nas ofertas públicas, disse Landers. As empresas que pretendem abrir capital na bolsa brasileira deverão reduzir os preços de suas ações nas ofertas se quiserem atrair o investidor, segundo ele.

“Se eles quiserem que fundos como os nossos participem, sem dúvida, vão precisar de múltiplos mais baixos”, disse o executivo.

Das cinco companhias que estrearam na BM&FBovespa em 2011, somente a Arezzo Indústria e Comércio SA vendeu ações no topo da faixa estimada pelo banco coordenador. A International Meal Company Holdings SA e seus controladores venderam ações no limite inferior. As ações de QGEP Participações SA, Autometal SA e Sonae Sierra Brasil SA saíram abaixo dos pisos estimados pelos bancos de investimento nos prospectos das ofertas.

“A regra do jogo é essa: se o risco é maior, você vai pagar um múltiplo mais baixo para te compensar pelo risco maior desse investimento”, disse o executivo da BlackRock.