Bancos médios emitem mais títulos com garantias especiais

Instituições como o Banco Cruzeiro do Sul aumentaram essas vendas em 35% à medida que outras formas de financiamento se tornam escassas

São Paulo – Bancos como o Banco Cruzeiro do Sul SA e o Banco Bonsucesso SA aumentaram as vendas de títulos com garantias especiais em 35 por cento à medida que outras formas de financiamento se tornam escassas.

Bancos de médio porte venderam R$ 8,5 billhões de depósitos a prazo com garantia especial (DPGE) do Fundo Garantidor de Créditos este ano até agosto, em comparação com os R$ 6,3 bilhões do mesmo período do ano passado, segundo a Cetip SA – Balcão Organizado de Ativos e Derivativos, que registra esses papéis. Há cerca de R$ 24,1 bilhões de DPGEs em estoque, o maior valor desde que o Banco Central criou os títulos, em 2009, para ajudar os bancos médios em meio à crise financeira global.

Instituições financeiras com menos do que R$ 3 bilhões de capital estão se voltando para os DPGEs para escapar do aumento nos custos de captação no mercado internacional por causa da crise de dívida na Europa e das perspectivas de menor crescimento econômico global.

O rendimento dos títulos em dólar com vencimento em 2020 do Cruzeiro do Sul tiveram aumento de 144 pontos básicos nos últimos dois meses, em comparação com o aumento de 132 pontos básicos na dívida com classificação de crédito abaixo do grau de investimento, segundo o Bank of America Corp.

O BC vai começar a reduzir os limites de emissão do DPGE em janeiro, tornando mais difícil a situação para os bancos que já têm de enfrentar mais exigências de capital para conceder financiamento.

“Os bancos estão emitindo o máximo de DPGEs que eles podem antes que os limites para esse programa se tornem mais restritivos a partir do início de 2012”, disse Carlos Gribel, diretor internacional e de vendas no banco baseado no Banco Máxima SA, baseado no Rio de Janeiro. O Máxima tem um estoque de R$ 200 milhões de DPGEs no mercado.

Custo para os DPGEs

Os bancos podem pagar cerca de 120 por cento dos juros dos Certificados de Depósito Interbancário (CDI) por um DPGE de cinco anos, disse uma pessoa familiarizada com as ofertas que preferiu não se identificar.

O Cruzeiro do Sul, banco com sede em São Paulo especializado em empréstimos com desconto direto na folha de pagamento, tinha R$ 2,57 bilhões de DPGEs nas mãos do mercado no final de junho, 18 porcento a mais do que em igual período do ano passado. O patrimônio total do banco é de R$ 1,7 bilhão. O Cruzeiro do Sul e o Bonsucesso não quiseram comentar.

Os bancos médios aumentaram a emissão de DPGEs também porque o mercado de cessão de carteiras para os bancos maiores ficou mais restritivo após as irregularidades encontradas no balanço do Banco Panamericano SA, em novembro de 2010, que acabaram resultando na sua venda para o BTG Pactual.


Central de Cessão de Crédito

A capacidade dos bancos médios de levantar dinheiro nesse mercado continua bem limitada mesmo após a Central de Cessão de Crédito, que vai registrar todas essas transações, ter entrado em operação no dia 22 de agosto, de acordo com três pessoas familiarizadas que pediram para não ser identificadas pois não tem autorização para falar publicamente.

Desde o final de 2010 o BC também passou a pedir mais reserva de capital para empréstimos com prazo superior a 24 meses o que ajudou a tornar os investidores mais cautelosos com os bancos que fazem empréstimo ao consumidor. A competição dos bancos grandes no crédito consignado também está crescendo.

A escassez de funding para os bancos médios pode piorar no próximo ano, segundo Gribel, do Banco Máxima. É que em janeiro de 2012 acabam as deduções nos depósitos compulsórios para os bancos grandes que compram títulos e carteiras de crédito dos menores. “Se o Banco Central não mudar as regras, nós poderemos ver um aperto de liquidez considerável para alguns pequenos e médios bancos que fazem empréstimo ao consumidor”, ele disse. O BC não quis comentar.

BMG

O Banco BMG, baseado em Belo Horizonte e especializado em empréstimo consignado para trabalhadores da ativa e pensionistas, usou apenas 50 por cento de seu limite para emissão de DPGE, pois esses títulos são caros, de acordo com Ricardo Gelbaum, diretor financeiro. “Só usamos esses instrumentos quando conseguimos prazos mais longos”, afirmou ele. O banco poderia emitir R$ 4 bilhões de DPGE, mas tem apenas R$ 1,9 bilhão nas mãos do mercado.

Os bancos podem emitir até duas vezes seu patrimônio em DPGEs. Em janeiro, o limite de novas emissões vai se reduzir 20 por cento ao ano até chegar a atingir zero em 2016.

O BMG está planejando vender suas carteiras de crédito aos investidores por meio de três novos Fundos de Investimento em Direito Creditório (FIDCs), segundo Gelbaum. “Os FIDCs têm prazos longos e são mais baratos”, afirmou Gelbaum.

Os bancos de médio prazo que fazem empréstimo com desconto em folha de pagamento de trabalhadores da ativa ou aposentados são os que mais usam os DPGEs, pois esses instrumentos lhes permitem casar o prazo de seus ativos com seus passivos, de acordo com Natalia Corfield, uma analista de crédito no ING Group NV em Nova York.