As tech brasileiras enfim vão à bolsa — mas nos EUA

Apenas quatro das 95 maiores empresas da bolsa brasileira são do setor de tecnologia. Agora, uma nova leva está preferindo o mercado americano

O setor de tecnologia é um nanico na bolsa de valores brasileira. Das 95 empresas mais representativas da B3, as quais formam o índice IBrX 100, apenas quatro atuam nesse segmento: a processadora de pagamentos Cielo, as fabricantes de softwares Totvs e Linx, e a certificadora Valid (as produtoras de commodities somam 20 e as instituições financeiras, 12). Apesar da proliferação de startups e fintechs no país nos últimos anos, a participação de negócios digitais no mercado de ações segue estagnada, porque essas companhias têm preferido abrir capital nos Estados Unidos.

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Seguiram por esse caminho, recentemente, a loja online de artigos esportivos Netshoes, que fez uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) de 139 milhões de dólares na bolsa de Nova York em 2017, e a processadora de pagamentos PagSeguro, que conseguiu 2,3 bilhões de dólares em janeiro deste ano. A cearense Arco Educação, dona do sistema de ensino SAS, fechou em 25 de setembro a venda de uma fatia de 22,8% da empresa por 194,5 milhões de dólares na Nasdaq, a bolsa de Nova York voltada a companhias tecnológicas. Última representante do setor a procurar o mercado financeiro para levantar recursos, a processadora Stone Pagamentos não fugiu à tradição. No dia 1º. de outubro, pediu o registro do seu IPO na mesma bolsa para captar cerca de um bilhão de dólares.

Segundo Ari de Sá Neto, presidente da Arco e membro da família que criou a plataforma, o mercado americano foi o escolhido para negociar as ações da companhia porque o investidor dos EUA conhece melhor o segmento digital. O argumento faz sentido, na avaliação de Diego Barreto, conselheiro do IBRI (Instituto Brasileiro de Relações com Investidores) e diretor financeiro do site Ingresso Rápido. “As empresas de tecnologia têm uma característica principal para a qual os investidores brasileiros ainda não estão preparados: o crescimento exponencial, independentemente de dar lucro, no início. Só depois de se estabelecerem e criarem uma estrutura sólida é que os resultados aparecem. Mas os fundos locais focam mais nos ganhos”, diz o executivo.

Tanto a Arco quanto a Stone alardearam, nos prospectos de suas respectivas vendas, o forte aumento de vendas nos últimos anos. A plataforma educacional tem avançado a um ritmo de 40% ao ano, atingindo receita de 195,1 milhões de reais nos primeiros seis meses deste ano, enquanto a processadora de pagamentos registrou uma alta de receita de 92% no primeiro semestre de 2018 contra o mesmo período de 2017, para 636 milhões de reais.

Depois de um prejuízo de 105 milhões de reais no ano passado, a Stone registrou lucro de 88 milhões de reais nos primeiros seis meses deste ano, e a Arco teve ganhos de 43,6 milhões de reais em 2017 e 54,3 milhões de reais no primeiro semestre deste ano. Segundo um executivo de banco que participou das duas transações, a expansão tão rápida das operações das duas companhias foi de fato o grande chamariz para investidores em Nova York.

As empresas brasileiras de tecnologia que optam por abrir capital na Nasdaq também usam o IPO para se apresentar como uma empresa global, e não um negócio regional. Se a companhia em questão atua em apenas um país e opta por fazer o IPO no exterior, pode já estar de olho na expansão das suas fronteiras. Essa pode ser uma faca de dois gumes, entretanto. “Ao contrário de quem compra ações nas bolsas regionais, o investidor em tecnologia baseado nos Estados Unidos não está acostumado com a instabilidade dos países da América Latina, sempre sujeitos a picos de inflação e volatilidade no câmbio. Mesmo listada em Nova York, uma companhia brasileira vende seus produtos no Brasil. Então, ao menor sinal de crise, que é quando a empresa mais precisa de apoio, o acionista vende sua participação e vai embora”, diz Fabiane Goldstein, sócia da InspIR Group, consultoria de relações com investidores multinacional focada nos mercados emergentes.

Nas bolsas americanas, as empresas de outros países perdem, ainda, a chance de serem incluídas em índices de ações. Não existem, nas bolsas de Nova York, índices para companhias latinas negociadas lá. E cada vez mais, com a popularização dos chamados fundos de investimentos passivos, essas seleções de papeis servem como referência fundamental para a constituição de carteiras de ações.

Tensão eleitoral 

O constante sobe-e-desce da bolsa brasileira neste ano, ao sabor das expectativas para a eleição presidencial de outubro, é outra explicação para as companhias preferirem buscar recursos nos Estados Unidos. No pico do ano, o Ibovespa, principal índice acionário da B3, chegou a acumular alta de 12%; no pior momento, queda de 10%, e agora tem elevação de 3%. Diante da dificuldade dos investidores em traçar um prognóstico para a economia do país em 2019 e mensurar as perspectivas para os negócios, as companhias acabam achando que têm condições de conseguir mais dinheiro fora, com julgamentos menos afetados pelas paixões políticas.

“A avaliação do preço da empresa é um fator determinante para a empresa ou o acionista definir a oferta de suas ações. Os cenários para essa avaliação são sujeitos a uma série de fatores, que compõem a dinâmica do mercado de capitais. A B3, assim como todas as bolsas mundiais, acompanha ativamente essa dinâmica, e não mede esforços para posicionar o Brasil de forma competitiva no mercado global”, diz Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes da B3.

O cenário era bem diferente em 2013, quando a Linx fez o seu IPO, levantando 528 milhões de reais. A empresa, especializada em programas de computador para o setor varejista, foi a última das grandes do segmento de tecnologia a abrir capital na B3. “Havia um grande apetite por ações de companhias brasileiras, o mercado local estava muito pujante”, diz Pedro Moreira, diretor financeiro da Linx. Hoje, a fabricante de softwares não vê diferença entre listar ações no Brasil ou nos Estados Unidos do ponto de vista da qualidade e do conhecimento do investidor. “Cerca de 90% dos nossos acionistas já são institucionais estrangeiros. Mesmo os brasileiros entendem bem o nosso negócio, os nossos planos, e têm objetivos de longo prazo para a sua participação na companhia.”

Ver mais empresas de tecnologia listadas no Brasil poderia ser muito positivo para os investidores locais. Segundo um estudo da consultoria americana The Boston Consulting Group divulgado na última edição de EXAME, nove das 10 empresas negociadas em Nova York que deram maior retorno aos acionistas entre 2013 e 2017, com percentuais médios anuais de 46% a 76%, pertencem a esse setor. No Brasil, os ganhos das campeãs variaram de 23% a 48% no mesmo período, porém nenhuma das companhias no top 10 do Ibovespa – principal índice de ações da B3 – tem a tecnologia como atividade principal.

Foi a primeira vez que o setor se destacou tanto no ranking, um sinal de que a inovação vem ganhando importância em alavancar as receitas corporativas e os ganhos para os acionistas. Na opinião de Goldstein, da InspIR, a composição setorial da bolsa brasileira acaba refletindo a estrutura da economia do país, baseada na produção de matérias-primas e com pouco peso da inovação. “O mercado americano de tecnologia é tão desenvolvido porque desde a universidade os estudantes são estimulados e recebem suporte e financiamento para empreender na área. Existe um grande sistema que permite que os negócios floresçam e prosperem. A presença dos negócios digitais na bolsa brasileira tende a aumentar naturalmente conforme o segmento avançar no Brasil.”

Aos interessados em abrir capital lá fora, porém, o exemplo da varejista Netshoes serve de alerta. A dificuldade de mostrar que consegue crescer com melhora nos resultados, como prometido aos investidores, fez a empresa despencar 83% desde sua estreia, em abril do ano passado. Os investidores podem até estar mais acostumados à dinâmica do setor de tecnologia por lá. Mas cumprir o prometido aos investidores é essencial em qualquer mercado.