Amar a volatilidade, como um trader, é a saída para crises

Autor do best-seller “A lógica do Cisne Negro”, ensina em seu novo livro como se beneficiar da desordem e do inesperado

São Paulo – Enquanto todo mundo aposta em prevenção de riscos e antecipação de crises, Nassim Nicholas Taleb, professor de riscos no Instituto Politécnico da Universidade de Nova York e autor do best-seller “A lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável”, ensina como se beneficiar da desordem. 

Taleb chama de “cisnes negros” grandes acontecimentos que são inesperados e que trazem junto grandes consequências. “Nós nunca vemos os cisnes negros chegando, mas quando eles chegam eles transformam o mundo profundamente”, diz Taleb, que usa como exemplos os ataques terroristas de 11 de setembro, a primeira guerra mundial e a internet.

Em artigo publicado no jornal americano “The Wall Street Journal”, Taleb apresenta os argumentos de seu novo livro – ainda sem edição em português – “Antifragile: things that gain from disorder” (“Antifrágil: coisas que ganham com a desordem”, em tradução livre) no qual afirma que ao invés de desenvolver melhores métodos para prever os “cisnes negros”, nós deveríamos criar instituições que não desmoronassem ao se depararem com eles ou que, melhor ainda, possam tirar proveito deles. 

Ele explica que para lidar com cisnes negros, é preciso coisas que ganhem com volatilidade, variabilidade, stress e desordem. À essas qualidades, Taleb dá o nome de “anti-frágil” que, segundo ele, assemelha-se aos pacotes financeiros que se beneficiam da volatilidade do mercado chamados de “long gamma” pelos traders. 

O autor defende que aprendendo os mecanismos de “anti-fragilidade”, pode-se tomar melhores decisões sem a ilusão de ser capaz de prever o próximo grande acontecimento. E ele dá a receita de como estabelecer a ‘anti-fragilidade’ como o princípio da nossa vida socioeconômica:

1. Pense na economia como um gato e não como uma máquina de lavar

Na visão atual, o mundo funciona como uma máquina de lavar sofisticada, que precisa de alguém para guiá-lo e protege-lo porque não pode sobreviver sozinho. Já um sistema natural ou orgânico é “anti-frágil”: precisa de certa dose de desordem para poder se desenvolver. “Os problemas se escondem na ausência de estresse e, quando acumulados, podem tomar trágicas proporções”, diz Taleb. 

2. Prefira negócios que se beneficiem de seus próprios erros e não aqueles cujos erros se infiltram no sistema

Alguns tipos de negócio e de sistema político respondem ao estresse melhor que outros. A indústria de aviação, por exemplo, é organizada de tal forma que fica mais segura a cada acidente de trânsito. Esse tipo de indústria é “anti-frágil”: a empresa se beneficia da fragilidade dos componentes individuais. 


Já no sistema bancário, acontece o oposto: cada banco que vai a falência enfraquece o sistema financeiro, que, em sua forma atual, é irremediavelmente frágil e em que os erros se tornam cada vez maiores e ameaçadores. Ele defende que um sistema financeiro reformado eliminaria esse efeito dominó, sem permitir que falhas individuais atinjam o sistema todo. “Um bom ponto de partida seria reduzir o débito e a alavancagem”, diz Taleb. 

3. O pequeno é bonito, mas também é eficiente

O tamanho produz benefícios visíveis mas também esconde riscos e aumenta a exposição à probabilidade de grandes perdas. Segundo Taleb, é preciso distribuir decisões e projetos entre tantas unidades quanto possível, o que reforça o sistema espalhando os erros por uma ampla gama de fontes. 

4. Tentativa e erro é melhor do que o conhecimento acadêmico

Coisas que são “anti-frágeis” adoram aleatoriedade e incerteza, o que também significa que elas podem aprender com seus erros, diz Taleb. Segundo ele, há um requisito crucial para alcançar a anti-fragilidade: o potencial custo dos erros tem que ser pequeno, enquanto o potencial ganho tem que ser grande. É a assimetria que permite que os “anti-frágeis” se beneficiem da desordem e da incerteza. Além disso, ele defende que inovação não depende de instruções teóricas o que ele compara com “ensinar pássaros a voar”. 

(Sean Gallup/Getty Images)

5. Tomadores de decisão tem que estar envolvidos no jogo

Taleb diz que nunca antes na história da humanidade tiveram tanta posições de poder designadas para pessoas que não assumem riscos pessoais. 

Para Taleb, a solução é simples: no mundo dos negócios, os bônus pagos a gestores de empresas que depois forem à falência devem ser devolvidos. Além disso, deve haver outras sanções financeiras para aqueles que escondam os riscos.