Aluguel de OGX bate 320% ao ano e mercado teme manipulação

Ação de OGX está agora tumultuando o mercado de aluguel de ações

São Paulo – Depois de distorcer o Índice Bovespa e o Índice Futuro de Ibovespa, a ação de OGX está agora tumultuando o mercado de aluguel de ações. Os papéis da petroleira já eram disputadíssimos por aqueles que apostavam em sua queda ou precisavam montar carteiras vendidas do índice, pagando normalmente 100% ao ano, máximo permitido pela bolsa. Agora, na iminência de uma recuperação judicial ou coisa pior, interessados em obter ações se dispõem a pagar até 320% pelo aluguel do papel.

Para isso, corretoras encontraram uma forma de driblar o limite imposto pela BM&FBovespa e pela CBLC, de 100% de juros ao ano, explica um gestor, que pediu para não ter seu nome citado: a corretora monta um “pacote” com várias ações e coloca o juro adicional de 150% nos outros papéis. O resultado é um aumento também no aluguel pago em outros papéis e dificulta outras operações de arbitragem.

A situação mostra também que grande parte do mercado vê OGX como uma empresa quebrada. “Quem paga 250% de juros pelo aluguel de um papel é porque aposta que a empresa vai quebrar, e logo”, diz o gestor.

Distorção no futuro e no à vista

O gestor lembra que a alta do aluguel de OGX e de outros papéis interfere na formação do preço do Índice Futuro, pois dificulta a formação de carteiras de Ibovespa para vender. “Para montar uma operação de carregamento, eu compro o índice futuro e vendo os papéis do índice à vista, mas se eu não consigo alugar todos, não tem como fazer”, diz. Sem essa operação, cai o número de compradores de índice futuro e cresce o de vendedores, o que faz o índice futuro andar abaixo do índice à vista.

Ele considera um absurdo o ponto a que chegou a situação de OGX no mercado brasileiro. Por seu peso no Índice Bovespa, de 6,8% do indicador, e seu valor, de menos de um real, o papel provoca fortes oscilações a cada variação de um ou dois centavos. “Foi um absurdo o que aconteceu na terça e quarta-feira, vésperas de vencimento dos mercados de opções de índice e de Ibovespa futuro, com o papel subindo 100% em meio a boatos desmentidos pouco depois”, diz o gestor.


Entre terça e quarta-feira, a ação de OGX passou de R$ 0,23 para R$ 0,47, uma alta de 104,35%, em meio a notícias de aportes de capital, reestruturação de dívida e entradas de sócios, nenhuma confirmada até agora.
Informação sem fonte

Na quarta-feira, reportagem de uma agência de notícias afirmando que a gestora Vinci Partners estava adquirindo o controle da OGX fez o papel subir mais de 50% logo pela manhã. A reportagem, que não citava fontes nem se as empresas haviam sido procuradas para confirmar os dados, foi prontamente desmentida pela Vinci, conforme informou o blog Arena ontem.

Com o papel cotado a R$ 0,40, cada centavo de oscilação significaria 2,5% de alta ou baixa para o papel. Como o peso de OGX está em 6,8% do Ibovespa, cada centavo de alta representaria 0,17 ponto no índice.

OGX virou opção

“É uma situação surreal considerando que hoje a OGX é uma opção, ou seja, você compra com o risco de virar pó”, diz o gestor. A essa condição, se aliam informações desencontradas e boatos que não fazem sentido. “Fala-se em um aporte de US$ 200 milhões que vai diluir o controlador Eike Batista, mas nesse caso também os minoritários serão diluídos mais ainda”, diz.

O velho truque da ação de centavos

O expediente de impulsionar o valor de ações de centavos é velho conhecido do mercado, tanto que a bolsa aumentava a fiscalização em períodos de começo de ano, quando os negócios se acalmam com as férias dos grandes investidores. Boatos de grandes reestruturações ou mesmo compras concentradas fazem disparar ações de companhias como Cobrasma. Depois de atrair compradores inexperientes as ações voltam a despencar. O problema é que hoje isto pode estar sendo feito com um papel que pesa 6,8% do índice, diz o gestor.


O gestor afirma que hoje OGX não vale R$ 0,70 como foi dito que o investidor pagaria para entrar no capital da petroleira. “Considerando que o BTG, um dos maiores bancos de investimento do país, não conseguiu achar uma solução para a OGX, eu considero que esse papel vale zero”, diz o gestor. Para ele, a Angra Partners apenas deverá organizar a recuperação judicial da empresa, que passará por uma grande reestruturação depois com a entrada de outros sócios, provavelmente os atuais credores da empresa, e a consequente diluição dos minoritários.

Alvo fácil para manipuladores

O baixo preço de OGX, que amplia suas oscilações a cada centavo de alta ou baixa, aliado a seu peso no Ibovespa e à grande incerteza com relação ao seu futuro abrem espaço para quem queira manipular o mercado e o índice Bovespa à vista ou futuro, alerta a consultoria independente Empíricus em relatório aos clientes.

Com R$ 10 milhões, seria possível movimentar 4% das ações em circulação de OGX, que tem um valor de mercado de menos de R$ 1 bilhão. “Tente fazer o mesmo com uma AmBev”, diz o relatório da Empiricus, lembrando que a empresa de bebidas tem R$ 265 bilhões de valor de mercado.

Boato para fazer ações voarem

A segunda parte do “plano” de um manipulador, raciocina a Empíricus, seria fazer as ações “voarem”, “com a combinação de ‘notícias’ enfáticas desencadeando uma inevitável catálise de fluxo”, diz o relatório. “Na véspera, leu-se por aí que a ‘OGX acerta capitalização’, ‘Eike será diluído’, ‘Vinci Partners deve assumir o controle da empresa’”, cita a Empíricus, para lembrar depois que de oficial só houve o desmentido da Vinci e da OGX.


A consultoria lembra ainda que mesmo o boato de aporte de US$ 200 milhões não faria sentido, pois o valor não seria suficiente para o investidor tomar o controle da empresa. Considerando o valor de R$ 0,70, a Vinci ou outro investidor ficaria com 18% da OGX.

O relatório da Empiricus lembra ainda que ontem foi vencimento dos mercados de opções de Índice Bovespa e de Ibovespa Futuro, o que torna ainda mais delicada a coincidência de informações e boatos e a movimentação das ações. “Agora tudo faz sentido. Basta você somar as partes”, diz o relatório, para depois perguntar: “tem muita gente ganhando e perdendo com esse circo, mas tem alguém (regulador) vendo tudo isso?” . “Quem são as fontes dessas matérias?”, questiona a consultoria.