Alta sustentada da bolsa depende da volta dos “tubarões”

Os investidores institucionais esboçaram um retorno ao mercado em agosto, mas o movimento teve vida curta

São Paulo – Para que a Bovespa consiga engatar um movimento de alta sustentada, além do retorno dos estrangeiros, seria necessário também uma retomada de investidores institucionais, mas isso depende da melhora do cenário externo, segundo especialistas.

Os investidores institucionais, que incluem os fundos de pensão, até esboçaram um retorno ao mercado acionário em agosto, mas o movimento teve vida curta.

Entre o fim de julho e meados de agosto, houve entrada líquida desse grupo na Bovespa, que coincidiu com um rali que levou o principal índice acionário brasileiro a sair do patamar de 52 mil pontos e chegar a encostar nos 60 mil pontos. Na véspera, o índice rondava os 57 mil pontos.

As incertezas e preocupações com o cenário externo limitam o apetite por ativos de renda variável, que tenderiam a se tornar mais atrativos diante da redução da taxa básica de juros do Brasil para o menor patamar da história.

A entrada líquida de institucionais na Bovespa chegou a atingir 1,3 bilhão de reais em agosto, até dia 8. Mas a tendência foi invertida nas últimas semanas e o saldo era negativo em 877 milhões de reais no mês, até dia 27.

Segundo profissionais de mercado consultados pela Reuters, a entrada verificada no início do mês reflete ajustes técnicos e recomposição de portfólio e não refletiu a retomada de confiança dos investidores institucionais no mercado de ações.

“O investidor ainda está inseguro com a bolsa”, disse o gestor Marc Sauerman, da JMalucelli Investimentos em Curitiba.

“Muitos fundos não conseguiram bater suas metas atuariais no ano passado também por causa da bolsa, então não sei se muitos querem correr esse risco de novo”, acrescentou. Em 2011, o Ibovespa acumulou queda de 18 por cento.

Tradicionalmente, os fundos de pensão no Brasil –que têm 597 bilhões de reais sob gestão, segundo a associação do setor (Abrapp)– aplicam a maior parte dos recursos em renda fixa para cumprir suas metas atuariais. Ainda assim, os institucionais responderam por cerca de 32 por cento do volume transacionado em agosto na Bovespa , segundo dados da bolsa paulista.

Mas com a trajetória cadente do juro, a lógica indicava que esses investidores se voltariam com mais força para ações para tentar alcançar a rentabilidade mínima exigida, que é em média de 6 por cento, mais correção monetária, segundo a Abrapp.

Em um ano, a taxa básica de juros, a Selic, caiu de 12,5 por cento para 7,5 por cento ao ano –e o mercado ainda especula sobre novo corte de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central em outubro.


“Num ambiente de redução de taxas de juros, você costuma ter os mercados de renda variável em alta. Isso só não tem acontecido mais consistentemente porque o ambiente externo não ajuda”, disse Romeu Vidale, superintendente de renda variável da Concórdia Corretora em São Paulo.

Investidores continuam cautelosos diante da crise da zona do euro e seguem na expectativa de novas medidas de bancos centrais para estimular a recuperação da economia global.

“Não vejo no curto prazo os fundos de pensão esperando um sinal mais claro para aportar em bolsa, o cenário macro não permite isso”, disse o sócio da Aditus Consultoria Financeira, Alan Infante.

“As principais alternativas exploradas agora para tentar incrementar a rentabilidade têm sido investimentos em crédito privado, debêntures, fundos de crédito, letras financeiras”, acrescentou Infante.

Um ingresso mais significativo de institucionais na Bovespa só deve começar a ocorrer no médio prazo, segundo os especialistas consultados, e seria um fator imprescindível para sustentar um movimento firme de alta para o mercado brasileiro, acompanhado também de expressivo retorno de estrangeiros.

“Quando se tiver um movimento de entrada de recursos externos somado a um retorno mais forte de investidores institucionais para o mercado, isso vai sinalizar que estamos caminhando para uma recuperação mais sustentada da bolsa”, disse Vidale.

Mas para que isso possa ocorrer, além da melhora do cenário externo, o estrategista de renda variável para a América Latina do Deutsche Bank em Nova York, Fredrick Searby, disse que uma série de fatores ainda precisa acontecer para que a queda da taxa de juros tenha impacto maior nas decisões de investimento –dentre eles sinais claros de que a mudança de patamar de juros no Brasil veio mesmo para ficar.

“A mudança de juro para o patamar de um dígito, somada ao dólar nesse nível de dois reais, basicamente significa que ficou muito mais difícil ganhar dinheiro nos juros”, disse o analista João Pedro Brugger, da Leme Investimentos em Florianópolis.

“Nesse primeiro momento os fundos estão atacando o mercado de crédito corporativo para buscar rentabilidade maior, como debêntures, mas no médio prazo eles devem começar a aumentar posição em ações e contribuir para a recuperação da bolsa, talvez já no ano que vem”, acrescentou.