Algumas apostas em renda fixa que não deram certo nesta década

Uma desaceleração é má notícia para as ações e boa notícia para o mercado de renda fixa. Mas, é nesse momento que algumas decisões equivocadas são tomadas

Algumas apostas estranhas marcaram o mundo de títulos de dívida este ano.

No início de 2019, os investidores não podiam emprestar dinheiro da Tesla com rapidez suficiente, apesar das dificuldades em entregar o Model 3 aos clientes. A montadora pode estar se saindo melhor agora, mas suas perspectivas de rentabilidade sustentada são, na melhor das hipóteses, nebulosas. Enquanto isso, investidores da Neiman Marcus deram mais prazo a uma rede de lojas de departamento que, como outros varejistas, está no alvo do apocalipse do varejo. E houve também o caso da WeWork, mais um drama de um unicórnio que culminou com o SoftBank concordando com um resgate de US$ 5 bilhões.

Mas, quando analisamos os últimos dez anos, o quadro é decididamente pior. MF Global ou Noble Group soam familiares? E a Argentina?

Não são poucos os que alertam que, apesar de algumas notícias animadoras ultimamente, a recessão que todos previram pode finalmente chegar em 2020. Tradicionalmente, uma desaceleração é má notícia para as ações e boa notícia para o mercado de renda fixa. Mas, geralmente, é nesse momento quando algumas decisões equivocadas são tomadas. Desde a Grande Recessão e graças ao aumento dos níveis da dívida global, houve algumas raridades.

Então, em homenagem ao final da década, destacamos algumas apostas equivocadas e muito dinheiro investido em alguns negócios realmente arriscados.

2011: MF Global Holdings

Menos de três anos após o colapso do Lehman Brothers – o maior caso de falência da história dos EUA – e a subsequente crise financeira global, investidores correram para aplicar em outra ambiciosa empresa de trading. Graças ao que também se tornou um colapso financeiro histórico, as coisas não saíram bem.

O ano era 2011, quando a MF Global Holdings era comandada pelo ex-cochefe do Goldman Sachs (também ex-governador de Nova Jersey e ex-senador dos EUA), Jon Corzine. A empresa vendeu US$ 650 milhões em títulos que prometeram pagar rendimento extra se Corzine assumisse um cargo no governo Obama (o que não ocorreu). Em vez disso, apostas fora de hora em títulos públicos europeus levaram ao rápido declínio da MF Global até a recuperação judicial – antes do primeiro pagamento de juros da nova dívida. Por sorte, muitos credores da corretora da empresa se salvaram. Um porta-voz de Corzine não quis comentar.

2016: Petróleos de Venezuela SA

Quando a petrolífera estatal da Venezuela vendeu títulos pela última vez, em setembro de 2016, buscando refinanciar a dívida existente, os investidores com prioridade de pagamento receberam apenas 8,5% pelos títulos, embora os baixos preços do petróleo já levantassem preocupações de inadimplência.

Em novembro de 2017, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, disse que suspenderia os pagamentos e buscaria negociar com os credores. Hoje, os detentores de títulos ainda aguardam o pagamento de mais de US$ 9 bilhões em dívidas inadimplentes do governo e da Petróleos de Venezuela, enquanto o país permanece mergulhado em turbulência e sob sanções.

2017: Títulos de 100 anos da Argentina

A Argentina demorou cerca de 15 anos para chegar a um acordo final, após um default sem precedentes de US$ 95 bilhões. Mas a tinta da caneta estava quase seca quando o país sul-americano retornou ao mercado de capitais. Desta vez, queria vender US$ 2,75 bilhões em títulos de 100 anos.

Os investidores estavam dispostos a emprestar com um rendimento de 7,917%, embora a Argentina tenha deixado de pagar a dívida três vezes em pouco mais de duas décadas.

Hoje, a economia do país está novamente em crise e seus títulos são negociados em níveis baixíssimos. Originalmente vendidos a 90 centavos de dólar, os títulos de 100 anos agora são negociados perto de 46 centavos. Um porta-voz do governo não retornou imediatamente a um pedido de comentário.

2018: Noble Group Ltd.

Antes a maior trading de commodities da Ásia, a Noble enfrenta acusações desde fevereiro de 2015 sobre contabilidade inadequada. Mesmo com a queda dos preços das ações e do lucro, investidores e bancos concordaram em conceder US$ 3 bilhões em crédito.

Os credores de hedge funds da empresa aceitaram uma troca de dívida por ações de US$ 3,5 bilhões, mas as práticas contábeis e administração da empresa permanecem sob investigação pelas autoridades de Cingapura. Em novembro, a empresa ainda lidava com um prejuízo de bilhões de dólares e uma prolongada reestruturação. Com um futuro incerto, os títulos da empresa são negociados com rendimentos de dois dígitos. A Noble não retornou imediatamente um pedido de comentário.