Ações da Cosan ficarão ainda mais instáveis com compra da Esso

Para analistas, negócio gera muitas dúvidas e só o tempo poderá mostrar se a estratégia da empresa foi ou não correta

Nenhum analista se arrisca a recomendar ou desaconselhar a compra das ações da Cosan, maior produtora de etanol do Brasil que no último dia 24 de abril arrematou por quase 1 bilhão de dólares a Esso, quinta maior varejista de combustíveis do país. Apesar de fazer todo o sentido a estratégia da Cosan de verticalizar seus negócios, atuando desde a produção até a comercialização do combustível, surgiram muitas dúvidas no mercado quanto ao custo dessa operação – e o reflexo disso nas ações.  “Há dois pontos que preocupam os investidores: como a empresa vai pagar essa aquisição e como lidará com a distribuição e a comercialização de combustíveis, que é um negócio novo, no qual a companhia não detém nenhuma expertise“, explica Marco Aurélio Barbosa, analista-chefe da corretora Coinvalores.

Por isso, é de se esperar ainda mais sobe-e-desce para os papéis, que já são voláteis por natureza. No dia do anúncio da compra da Esso, as ações da companhia chegaram a cair mais de 9% durante o pregão, recuperando o fôlego no decorrer do dia para fechar em queda de 1,85%. “Até que o mercado consiga avaliar se foi ou não uma boa idéia a compra da Esso, os papéis devem continuar instáveis”, diz Marcelo Faro, analista da corretora Intra.

Em comunicado, a Cosan afirma que utilizará no pagamento da Esso os 310 milhões de dólares captados em janeiro com a operação de aumento de capital. O restante deverá ser financiado, mas ainda não há informações sobre como isso será feito. Levantar recursos num momento em que o sistema financeiro mundial passa por um aperto de liquidez, decorrente da crise desencadeada pelo subprime (crédito hipotecário de alto risco) nos Estados Unidos, pode ser mais complicado do que parece.

A Cosan é a segunda empresa mais arriscada do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa), de acordo com a consultoria Cyrnel International, fator que pode afugentar os investidores no caso de uma nova emissão de ações. Logo após a companhia anunciar a compra da Esso, as agências de classificação de risco Moody’;s e Standard & Poor´s (S&P)colocaram sua nota em perspectiva negativa, podendo rebaixá-la de acordo com a estratégia a ser adotada para o pagamento da dívida. Essa nota – chamada de rating no jargão do mercado – é utilizada pelos bancos em suas análises de crédito e serve como parâmetro para definir os juros que serão cobrados nos empréstimos.

A S&P, por exemplo, coloca o rating da Cosan dois degraus abaixo do “investment grade” – ou patamar mínimo necessário para a dívida ser considerada com baixo risco de calote. Com uma nota ainda mais baixa, provavelmente a Cosan teria de arcar com juros mais altos para ter acesso aos recursos necessários para o pagamento da Esso.

Além disso, na avaliação da corretora Ativa, a companhia pode ter pago caro pela distribuidora. Em relatório, a corretora ressalta que o preço da Esso ficou cerca de 20% acima do valor pago pelo Grupo Ipiranga, vendido para a Petrobras e para o Grupo Ultra no ano passado.  Já o analista da Intra relativiza: “É difícil saber se o valor (pago pela Esso) foi alto ou baixo. A Cosan comprou uma das poucas redes de distribuição disponíveis no Brasil. É um negócio que não se faz todo dia”, afirma.

O custo financeiro da aquisição não é o único de difícil análise. Há um outro – o de aprendizado – que é ainda mais complexo de mensurar. “Como a Cosan nunca atuou no ramo de distribuição e comercialização de combustíveis, há sempre o risco de algo dar errado. Mas, como os executivos da Esso serão mantidos no cargo, isso minimiza as chances de problemas”, diz Barbosa.

Durantes os próximos seis a oito meses, a Cosan passará por um período de transição para integrar as operações e otimizar a cadeia de negócios. A empresa não deve suspender os contratos com clientes e fornecedores. “Mantendo a venda de etanol para outras empresas e comprando combustíveis de outras usinas, a Cosan reduz seu risco de operação. A companhia apenas terá de trabalhar suas margens de lucro, de forma a não permitir uma redução em seus resultados”, diz a analista-chefe da Coinvalores.

Como a principal receita da Cosan continua sendo a produção de açúcar e etanol, Barbosa afirma que o investidor deve ficar atento também às expectativas para a safra de cana-de-açúcar. “A última safra já foi menor que a de 2007. Se esse movimento continuar se repetindo, poderemos ter um aumento de preços e isso deverá valorizar as ações da companhia”, explica.

Em 2007, as ações da Cosan despencaram 53,5%, mas neste ano, os papéis já se valorizaram 29,8%. No mesmo período o Ibovespa subiu apenas 2,8%. Outro fator que contribui para uma perspectiva positiva para os papéis da empresa é a crescente demanda por etanol. De acordo com dados do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), a venda de etanol nos postos do país já ultrapassa a de gasolina. Em fevereiro, foram comercializados 1.409 milhões de metros cúbicos de gasolina e 1.434 milhões de metros cúbicos de etanol, já incluindo o etanol anidro adicionado à gasolina. Durante o período de 2003 a 2007, o consumo de etanol hidratado cresceu 29,1% ao ano, ante apenas 2,7% ao ano da gasolina.