A gasolina não vai subir? Alta do petróleo é teste para Petrobras

Um dos maiores dilemas do investidor da estatal é a real capacidade de aumentar (e de reduzir) os preços internos seguindo a variação internacional

São Paulo — Desencadeada por ataques às instalações da Saudi Aramco no final de semana, a alta do petróleo representa um teste de resistência da atual política de preços de combustíveis adotada pela Petrobras – um dos pilares da nova gestão da estatal.

Na noite de segunda-feira, a companhia informou que vai continuar observando o comportamento do petróleo no mercado internacional até decidir  se revisa os preços dos seus derivados no Brasil.

O barril do petróleo tipo Brent, negociado em Londres, disparou perto de 15% nesta segunda – seu maior ganho diário em mais de 30 anos. A alta foi um efeito direto do corte de produção da commodity na Arábia Saudita, o que levaria a uma redução de 5% da oferta mundial.

Por não estar exposta aos mesmos riscos geopolíticos de empresas do mundo árabe, a Petrobras esteve entre as empresas que testemunharam uma forte valorização de seus papéis na última sessão. A ação ordinária chegou a subir mais de 5% no início do pregão e fechou alta de 4,66%. Os papéis preferenciais, por sua vez, avançaram 4,52%.

Apesar disso, a alta do petróleo impõe um novo desafio para a estatal brasileira. Um dos maiores dilemas do investidor da Petrobras é a real capacidade da companhia de aumentar (e de reduzir) os preços internos da gasolina e do diesel seguindo a variação das cotações internacionais do petróleo e a volatilidade do câmbio, destacou o banco suíço UBS em relatório.

A Petrobras passou a atrelar sua política de preços às cotações globais do petróleo durante o governo de Michel Temer, quando seus dirigentes determinaram que tal política não mais seria baseada no controle interno da inflação, como vinha ocorrendo até o final do governo de Dilma Rousseff.

Mas os limites desta nova política vêm sendo colocados em xeque desde então, especialmente após a greve dos caminhoneiros de 2018, que provocou uma severa crise de desabastecimento no país. “A atual gestão tem conseguido implementar a estratégia com sucesso até agora e este novo evento será um teste importante de quão sólida é a política de preços da Petrobras”, destacou o UBS em relatório.

Outro ponto que gera preocupação é a pressão inflacionária que uma eventual decisão de repassar a alta dos preços poderia gerar na economia brasileira, que aguarda uma nova decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre os juros na quarta-feira (18). “No momento, vemos uma situação desafiadora para a petroleira, na medida em que esperamos um aumento nos preços do petróleo e potencial para uma depreciação do real frente ao dólar”, escreveram analistas do UBS em relatório.

O banco mencionou “uma série de exemplos” ao longo dos últimos anos em que a companhia não foi capaz de seguir as cotações internacionais, levando a perdas significativas no negócio em que atua.

Caso a petroleira não consiga repassar a recente disparada do petróleo para o mercado interno, o banco suíço vê riscos na venda da participação do BNDES na companhia e um cenário mais desafiador para os desinvestimentos em seu parque de refino.

Já o leilão de cessão onerosa da estatal marcado para o dia 6 de novembro não sofreria impactos. Pelo contrário, os eventos que levaram à escalada do petróleo seriam benéficos, na visão do economista-chefe da Necton, André Perfeito. “Nossos campos de petróleo são de uma região politicamente estável se comparado às tensões do Oriente Médio”, destacou em nota a clientes.

Em entrevista à Record na noite de ontem, Jair Bolsonaro afirmou que conversou com Roberto Castello Branco, presidente da estatal, que concordou em segurar os preços por se tratar de evento atípico. É o tipo de intervenção que, em outras épocas, deixaria investidores com uma pulga atrás da orelha. A ver o que acontece nesta terça-feira.