A crise dos Estados Unidos sem economês

Securitização? Alavancagem? Venda a descoberto? Entenda como funciona o mercado financeiro

Os cinco anos consecutivos de forte alta na Bovespa atraíram milhares de pessoas para o mercado de capitais e, hoje, mais de meio milhão de brasileiros já possuem conta bancária com autorização para operar o <em>home broker</em> (sistema eletrônico de compra e venda de ações). Muitas dessas pessoas, entretanto, estão bem pouco familiarizadas com os termos que não param de ser repetidos por jornais e sites brasileiros e estrangeiros para descrever a atual crise financeira nos Estados Unidos.</p>

Alguns dos termos mais citados quase nunca são traduzidos para o português. Os créditos hipotecários que deram origem à toda a confusão financeira nos Estados Unidos, por exemplo, são constantemente chamados de credit default swaps (CDS) por jornais brasileiros – apesar de quase ninguém entender como funciona esse tipo de derivativo de crédito. Com alguns esclarecimentos, entretanto, é possível tornar o assunto bem menos nebuloso até para os investidores pouco experientes. Esse é o objetivo desse pequeno dicionário dos termos da crise preparado pelo Portal EXAME. Boa consulta!

A

Alavancagem: utilização de recursos emprestados para aplicação no mercado financeiro – em geral, em operações de alto risco. Bancos de investimento como o quebrado Lehman Brothers tinham um nível de alavancagem muito alto porque emprestavam valores muito superiores ao seu patrimônio líquido.

Ativos: bens de uma empresa ou pessoa, incluindo investimentos e créditos.

B

Bailout: termo em inglês utilizado para descrever a ajuda financeira que governos ou investidores oferecem a bancos ou empresas que se encontram em situação de quase falência, afim de que eles possam arcar com suas obrigações de curto prazo. Nos últimos dias, o governo americano socorreu a maior seguradora do país, a AIG, além das duas maiores empresas de concessão de hipotecas, a Fannie Mae e a Freddie Mac.

Banco de investimento: instituição financeira especializada em assessorar operações no mercado financeiro como fusões, aquisições, IPOs (oferta inicial de ações), emissão de títulos de dívida, entre outras. Esse tipo de banco não possui depósitos de correntistas.

Bebê abandonado: figura considerada por analistas gráficos bastante rara por indicar uma abrupta reversão da tendência no mercado. Em meados de maio, por exemplo, a Bovespa apresentava uma seqüência de fortes altas devido à obtenção do grau de investimento pelo Brasil. No entanto, após atingir o pico de 73 mil pontos, a bolsa começou a cair rapidamente devido ao agravamento da crise nos EUA e à queda do preço das commodities. O ponto no gráfico que mostra seu dia de pico acaba ficando isolado uma trajetória de alta e outra de baixa – e recebe o nome de bebê abandonado.

Bolha imobiliária: elevação irreal dos preços dos imóveis gerada, no caso da crise atual, pela concessão irresponsável de crédito, sem a análise de risco adequada. O estouro da bolha geralmente leva ao descontrole da inadimplência, a prejuízos para os bancos e à escassez do crédito.

C

CDB (Certificado de Depósito Bancário): título emitido por bancos que permite ao comprador obter uma certa rentabilidade na data de resgate. Em momentos de crise, esses títulos costumam pagar retornos maiores.

Chapter 11: termo em inglês referente à lei americana que estabelece as condições para reestruturação de empresas em grave crise financeira. É semelhante à concordata no Brasil. O banco Lehman Brothers utilizou o Chapter 11 para se proteger de credores.

Circuit breaker: termo em inglês que denomina o mecanismo que interrompe as operações em bolsas de valores toda vez que o principal índice do mercado apresenta queda significativa. No Brasil, o circuit breaker entra em operação quando a queda do Ibovespa chega aos 10%.

Commodities: matérias-primas para a fabricação de outros produtos. As principais são negociadas de forma padronizada nas maiores bolsas mundiais. Tiveram seu preço depreciado pela crise americana devido à desaceleração do crescimento da economia mundial. Como o Brasil é um grande produtor de commodities, acaba sendo diretamente prejudicado pela queda de seus preços.

Custo de captação: taxa paga por bancos e empresas ao tomar dinheiro emprestado de outras instituições. Em geral, as taxas cobradas são diretamente proporcionais ao risco de não-pagamento do empréstimo.

D

Delinquencies: termo em inglês usado para dívidas em atraso, inadimplentes.

Depósito compulsório: dinheiro que os bancos são obrigados a manter no Banco Central. Para aumentar a liquidez do sistema financeiro, o BC brasileiro decidiu relaxar as regras para os depósitos compulsórios e aumentar o dinheiro que circula entre os bancos.

Derivativos de crédito imobiliário (credit default swaps ou CDS): títulos lastrados em recebíveis de crédito imobiliário. Chamados de “derivativos de destruição em massa” pela revista “The Economist”, foram os responsáveis pelas perdas de bilhões de dólares dos bancos americanos que levaram à falta de crédito de no sistema financeiro. Hoje são considerado títulos podres, com valor de difícil avaliação. O governo americano vai utilizar bilhões de dólares para a compra desses papéis que estão em poder dos bancos para tentar sanear o sistema financeiro.

Descolamento (decoupling): jargão utilizado no mercado financeiro em momentos em que uma economia passa a não ser mais afetada pela crise de outra. Alguns analistas acreditam, por exemplo, que a economia real do Brasil vai se descolar e não será afetada pela crise nos EUA – apesar da forte volatilidade verificada na Bovespa e na BM&F nos últimos meses.

Dívida subordinada: a última a ser paga em caso de falência do emitente. Seu pagamento só é realizado após a quitação de todas as outras dívidas.

E

Exigibilidade: obrigação dos bancos junto ao Banco Central

H

Hedge funds: fundos reservados a grandes investidores e que obedecem a políticas próprias de investimento. Suas atividades não estão submetidas ao monitoramento de agências reguladoras. Costumam montar um conjunto de operações de forma que uma proteja a outra de perdas.

I

Injetar dinheiro no sistema: colocar à disposição das instituições financeiras empréstimos de curto prazo que garantam a solvência do conjunto de bancos.

Intervenção: interferência na economia por meio de medidas econômicas.

L

Liquidez: facilidade em transformar um ativo em dinheiro

R

RDB (Recibo de Depósito Bancário): título emitido por bancos que permite ao comprador obter uma certa rentabilidade no vencimento

Realizar lucro / prejuízo: venda de um ativo com lucro ou prejuízo

Recebíveis de crédito imobiliário: títulos que representam uma dívida imobiliária, como hipotecas

Reduzir posições: vender ativos

Resistência: cotação difícil de ser superada por uma ação. Analistas gráficos definem um ponto de resistência de acordo com a figura formada em um gráfico de variação de uma ação e suas cotações históricas.

Risco sistêmico: risco de um banco quebrar e, ao deixar de pagar suas dívidas, provocar um efeito dominó no sistema financeiro que terá reflexos em todos os setores da economia. Nos EUA, houve risco sistêmico após o Federal Reserve e as demais instituições financeiras não concordarem com um plano de resgate do Lehman Brothers. O risco só diminuiu após o Fed socorrer a seguradora AIG e anunciar um pacote de 700 bilhões de dólares para desintoxicar os balanços dos bancos.

S

Securitização: operação que permite a emissão de um título garantido por um direito de recebimento de dívida. Esse instrumento financeiro permitiu a grande alavancagem dos bancos americanos. As instituições “empacotavam” um monte de empréstimos e vendiam títulos lastreados a esses créditos ao mercado por meio da operação conhecida como securitização. Ao dividir o risco desses empréstimos com outras instituições, o banco levantava o capital necessário para conceder novos empréstimos.

Solvência: capacidade de pagar dívidas.

Stop loss: ordem de venda disparada automaticamente quando um papel cai e atinge uma determinada cotação. É usada por investidores para limitar as perdas com alguma ação.

Subprime: palavra em inglês utilizada para denominar o segmento que reúne as hipotecas com maior risco de crédito nos Estados Unidos.

Suporte: patamar em que uma ação não costuma cair abaixo com facilidade. Muitos investidores costumam colocar uma ordem de stop loss abaixo desse suporte porque entendem haver uma tendência de baixa do papel se houver seu rompimento.

V

Venda a descoberto (short selling ): operação na qual o investidor vende um ativo que não possui apostando na queda de seu preço para, depois, comprá-lo e lucrar a diferença. No Brasil, esse tipo de operação é montada por meio do aluguel de ações. Um investidor aluga um papel de outro que não planeja vendê-lo no curto prazo em troca de uma comissão. O locatário imediatamente vende o papel no mercado para recomprá-lo mais adiante, quando tiver que devolvê-lo para o locador. Se a cotação cair, a diferença será igual ao lucro do locatário na operação menos a comissão.