A ciranda do dólar: por que câmbio em R$ 4,21 é o novo normal?

Guedes deu entrevista ontem afirmando que a alta do dólar está dentro do previsto e é reflexo de uma mudança na política econômica brasileira

Esta terça-feira é o primeiro dia em que o Brasil amanhece com o dólar valendo 4,21 reais. E segundo afirmou ontem o ministro da Economia, Paulo Guedes, é bom a população e os investidores se acostumarem com o câmbio valorizado por um bom tempo.

O dólar negociado no mercado interbancário terminou a sessão regular em alta de 0,53%, a 4,2150 reais na venda. Com isso, a cotação superou o recorde anterior para um fechamento, de 4,2061 reais, cravado há exatamente uma semana.

O contexto que faz a moeda americana valorizar é mais do que conhecido, e voltou a influenciar a alta de ontem. É puxado, de um lado, pelas crescentes incertezas globais de que a guerra comercial entre China e Estados Unidos puxe o comércio e a economia para baixo. Semana passada o dólar ultrapassou a marca de 7 iuanes, a moeda chinesa, pela primeira vez desde a crise financeira de 2008.

Por outro lado, a lenta recuperação da economia brasileira e a dificuldade de atrair investimentos internacionais tem jogado contra o real. Ontem, o dólar ganhou força após o Banco Central divulgar dados mostrando um déficit em conta corrente e investimento estrangeiro direto piores que o esperado para outubro. Além disso, o governo também anunciou dados parciais da balança comercial para novembro, que caminha para fechar no vermelho, o que não acontece desde novembro de 2014.

Paulo Guedes deu entrevista ontem afirmando que a alta do dólar está dentro do previsto e é reflexo de uma mudança na política econômica brasileira, com juros baixos e câmbio alto. Foi aplaudido, mais uma vez, por gestores de recursos nas redes sociais — muitos deles, vale lembrar, no início do ano previam o dólar na casa dos dois reais com a adoção de uma agenda liberal pelo governo.

Ainda segundo Guedes, o dólar mais alto não está impactando a inflação. Mas deve ter consequências para as empresas. Quem depende de custo em dólar como as aéreas, na teoria terá mais dificuldades. As exportadoras, com receita em moeda estrangeira, por sua vez, ganham pontos.

Apesar das altas recentes, o dólar ainda está longe de sua máxima história no Brasil se considerada a inflação. Em 2002, com o “risco Lula”, a moeda bateu 3,95 reais, o que em valores atuais chegaria a 7,70 reais, segundo o economista Gesner Oliveira. Após as altas recentes, prever para onde vai a taxa de câmbio é tarefa para os fortes. Não chegaremos, claro, aos 7,70 reais — mas também não bateremos os 2 reais esperados há pouco tempo.