18 IPOs na fila para 2017

Gian Kojikovski e Letícia Toledo

O ano de 2016 pode ter sido agitado para as empresas que têm ações listadas nas bolsas do Brasil e dos Estados Unidos, mas poucas companhias se arriscaram a estrear em meio a um cenário de alta volatilidade. Enquanto por aqui o Ibovespa subiu 38,9% e algumas companhias dobraram de valor, os principais índices americanos bateram recordes de pontuação (o Dow Jones fechou o ano com alta de 13,4% e o S&P 500, de 9,5%). Apesar desses ganhos, apenas a empresa de diagnósticos por imagem Alliar entrou no Ibovespa. O mercado americano teve apenas 128 IPOs e 18,8 bilhões e dólares captados – o pior número desde a crise de 2008.

As expectativas para 2017 são mais animadoras: segundo bancos, ao menos 20 companhias estão na fila para fazer um IPO no Brasil. A expectativa é que as ofertas de ações somem 40 bilhões de reais até o fim de 2017. Se o número se confirmar, será o maior desde 2010, quando foram captados 149 bilhões de reais em ofertas públicas. O problema, evidentemente, é que a ida à bolsa depende do interesse de investidores estrangeiros, e a chega deles depende da Lava-Jato, das reformas econômicas, da queda dos juros, e por aí vai. Nos Estados Unidos, o risco é um só: Donald Trump.

Abaixo, as empresas na fila para abrir capital nos dois países:

Brasil

1 – Caixa Seguridade

A Caixa Econômica planeja levar ao mercado a sua subsidiária de seguros Caixa Seguridade ainda no primeiro semestre de 2017. A operação estava prevista para 2016, mas, com a crise, a companhia, que chegou a ser avaliada em 30 bilhões de reais, viu essa cifra cair para 14 bilhões de reais. A Caixa Seguridade é controlada pelo grupo francês CNP Assurances, com participação de 51,75%, desde 2001, quando firmou o contrato com a seguradora por 538 milhões de dólares durante um prazo de 20 anos. Com a venda, a CaixaPar, braço de investimentos da Caixa, ficou com 48,21%. O IPO da companhia é de grande interesse da Caixa, que passa por uma crise que precisa vender ativos e cortar dividendos para evitar um pedido de socorro ao governo em 2018. O problema é que, qualquer alteração no controle ou diluição do capital tem de necessariamente ser autorizada pelos franceses. No passado, a CNP já barrou a ideia de um IPO com a justificativa de que a Caixa Seguros tem conseguido crescer sem necessidade de um novo aporte de capital.

2 – Unidas

O ano deve ser movimentado para as locadoras de veículos já que as companhias Unidas e Movida devem estrear na bolsa. A Unidas está trabalhando no IPO com Bank of America Merrill Lynch, JP Morgan e Itaú BBA.  Em outubro de 2016 a companhia teve 20% de seu capital vendido para a Enterprise Holdings — a maior companhia de locação de veículos do mundo em receita. Na transação, a Enterprise avaliou a Unidas (terceira maior locadora do país) em cerca de 1 bilhão de reais, sem contar a dívida da companhia, que está em 809 milhões de reais. A Unidas já tem capital aberto por ter debêntures em circulação e o início da negociação de suas ações é esperado ainda para o primeiro semestre de 2017.

3 – Movida

A Movida, atualmente a segunda maior empresa do setor em faturamento, é a marca que mais cresce na locação de veículos desde que o grupo JSL comprou a companhia, no fim de 2013. Desde então, a receita da companhia passou de 92,6 milhões de reais para 1,8 bilhão de reais, a empresa abriu 233 lojas e ampliou sua frota de 2.400 para 57.600 carros. O objetivo tanto da Unidas quanto da Movida é ter um negócio mais parecido com a Localiza, que ainda está quilômetros à frente de suas desafiantes. O retorno sobre o capital investido da Localiza foi de 17% em 2015, comparado a 9,3% para a Unidas e 9,3% para a JSL (a Movida prometeu reportar separadamente já no terceiro trimestre). O valor de mercado da Localiza, que tem ações na Bovespa, é de 7,58 bilhões de reais. Em seu IPO em 2005 a companhia tinha um valor de mercado de 718 milhões de reais, segundo dados da consultoria Economatica.

4 – Carrefour Brasil

Um dos IPOs mais aguardados para este ano é o da operação brasileira da rede de supermercados Carrefour. Segundo notícias, a empresa já teria acertado em Paris a abertura de capital, prevista para o segundo trimestre de 2017 e que poderá levantar 10 bilhões de reais. A história do IPO do Carrefour, vale lembrar, é uma velha conhecida no Brasil: as notícias sobre o plano de uma abertura de capital existem desde 2013.

5 – Netshoes

Outra velha notícia que pode finalmente virar realidade é o da varejista eletrônica Netshoes. Os sócios voltaram a tocar o projeto de abertura do capital da empresa em agosto do ano passado. Na versão original, a ideia de Marcio Kumruian, fundador e presidente da Netshoes, era emitir ações na Nasdaq, a bolsa de tecnologia americana — onde os investidores estão acostumados a financiar empresas que dão prejuízo mas crescem muito. Mas, como a Netshoes atualmente opera no zero a zero, o mais provável é que a abertura aconteça na Bovespa mesmo.

6 – Tudo Azul

O programa de fidelidade da companhia aérea Azul, o Tudo Azul, também se prepara para entrar na bolsa. Segundo o diretor da Tudo Azul, Alex Malfitani, em entrevista ao jornal Valor Econômico no ano passado, a companhia já opera de forma separada e tem tudo pronto, inclusive CNPJ, para se separar. Segundo ele, a empresa dará início ao IPO assim que houver demanda no mercado de ações. Se conseguir abrir capital, será a primeira tentativa bem sucedida da Azul de entrar na bolsa. Desde 2013 a companhia vem tentando fazer um IPO no Brasil e em Nova York, com três tentativas abortadas. A Tudo Azul tem hoje 6 milhões de clientes, o que faz dela a terceira maior do país – atrás da Multiplus, da aérea Latam, com 15 milhões, e da Smiles, da aérea Gol, com 12 milhões cadastrados. Smiles e Multiplus são independentes com ações negociadas na bolsa. O faturamento anual da Tudo Azul está na casa de 500 milhões de reais.

7 – Cinesystem

A operadora de salas de cinema Cinesystem entrou, no ano passado, com um pedido de registro de companhia aberta junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – o que pode ser o primeiro passo para um IPO. A companhia, com sede em Maringá (PR), é a quarta maior rede de cinemas do país. A rede é dona de 142 salas de cinemas espalhadas por 17 cidades e fatura 140 milhões de reais. Em 2013, a empresa conseguiu um aporte de 40 milhões de reais de dois fundos de private equity, o brasileiro Stratus e o americano Hamilton Lane. Parte do capital está sendo usada para inaugurar salas: o plano é ter 42 novas unidades até 2017 e chegar 500 até 2020. Outra parcela está reservada para aquisições.

8 – IRB Brasil

A abertura de capital da resseguradora IRB Brasil, inicialmente prevista para o ano passado, foi adiada devido ao péssimo momento do mercado – que avaliou a companhia em menos de 7,5 bilhões de reais. Os bancos de investimento trabalhavam com uma projeção de valor de mercado para o IRB de cerca de 8,5 bilhões de reais. O lucro anual da companhia é de cerca de 1 bilhão de reais. A União é o maior acionista do IRB, com 27,4% de participação, seguida de Banco do Brasil e Bradesco, com 20,4% cada um, Itaú (15%), fundos de pensão (com 9,85%) e funcionários da companhia.

9 – Hermes Pardini

A rede de laboratórios Hermes Pardini entrou com pedido junto à CVM em dezembro. Sem esclarecer os valores que pretende captar, a companhia afirma que os recursos serão utilizados para fazer aquisições e para abrir novas unidades. O Hermes Pardini opera com um rede de 111 unidades em Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro. De janeiro a setembro do ano passado, a companhia teve uma receita de 675,1 milhões de reais. O fundo de private equity Gávea possui 30% da empresa e quer aproveitar o IPO para reduzir sua participação. O lançamento de ações do Hermes será coordenado pelos bancos Itaú BBA, Morgan Stanley, Bradesco BBI, Bank of America Merrill Lynch e J.P. Morgan.

10 – Stara

A fabricante de máquinas e equipamentos Stara Indústria de Implementos Agrícolas é outra que entrou com pedido para abertura de capital no fim de 2016. Fundada pela família Stapelbroek, de origem holandesa, a Stara teve prejuízo de 15 milhões de reais em 2015, nos primeiros seis meses de 2016 o prejuízo foi de 3,94 milhões de reais. A BNDESPar, braço de investimentos do banco BNDES, tem participação de 10,26% na companhia desde 2015.

12 – Biotoscana

O grupo farmacêutico Biotoscana, criado em 2011 pelo fundo de investimentos Advent para consolidar operações no setor, comercializa marcas líderes nos campos de alta complexidade em desordens genéticas, doenças raras, Oncologia, Hematologia, doenças infecciosas, HIV e tratamentos especiais. É o segmento de mais rápido crescimento do setor farmacêutico global e deve ser responsável por 40% a 50% do mercado em 2018. Com três fábricas, a empresa tem faturamento anual de cerca de 1 bilhão de reais – o Brasil corresponde a 40% dessas receitas. O IPO da Biotoscana para 2017 ainda está em estágio embrionário e é incerto, segundo um executivo que acompanha o processo.

13- Allied

Outra empresa do Allied com planos de ir à bolsa é a fornecedora de produtos tecnológicos Allied. A companhia é líder no país na intermediação das vendas de produtos como telefones celulares, de fabricantes para redes varejistas. Em 2015, as vendas da companhia somaram 832,1 milhões de dólares (2,66 bilhões de reais na cotação atual) – alta de 2% na comparação anual -, o lucro no ano foi de 25,5 milhões de dólares (51,5 milhões de reais) – uma queda de 37%.

Estados Unidos

1 – Airbnb

Para o mercado e consultorias especializadas em investimentos em ações, a empresa de aluguéis Airbnb deve ser o maior IPO de 2017. A startup está avaliada em 30 bilhões de dólares de acordo com a CB Insights. Líder mundial no segmento de aluguel de quartos, casas e apartamentos diretamente entre os usuários, a empresa continua lançando novos serviços, como o Trips, que chegou ao público em novembro. Foi o primeiro passo do Airbnb para se transformar de um marketplace para uma agência de viagens completa em escala mundial.

2 – Snapchat

A rede social que se tornou queridinha dos jovens estaria trabalhando para realizar a sua oferta pública de ações ainda no primeiro trimestre do ano, de acordo com informações do Wall Street Journal. Em novembro, a Snap Inc, que controla a empresa, protocolou o pedido para um IPO que colocaria o valor da empresa em 25 bilhões de dólares – como companhia privada, está avaliada em 22 bilhões. Considerado o novo Facebook pelo mercado, a empresa presidida por Evan Spiegel vem sofrendo com a constante competição do Instagram (propriedade do Facebook), que lançou diversas ferramentas parecidas depois de uma oferta de compra frustrada. A empresa faturou entre 250 e 350 milhões de dólares em 2016, mas deve romper a barreira do bilhão neste ano. 

3 – Palantir

A Palantir entra no hall de “maiores empresas que ninguém sabe o que faz”. Fundada por Peter Thiel e outros ex-alunos de Stanford especializados em análise de dados, a empresa é financiada pela CIA e não abre muito para o público seu negócio. Isso não impediu, no entanto, que ela seja avaliada em 20 bilhões de dólares, a quinta startup mais valiosa do mundo. A Palantir faz softwares de análise de dados para diversas áreas críticas do governo, como defesa, inteligência, cybersegurança e até ameaça interna. Além disso, a startup oferece serviços para os setores farmacêuticos e financeiro.

4 – Spotify

Preparando-se para sua oferta inicial de ações no segundo semestre de 2017, o serviço de streaming de música foi avaliado em 8,5 bilhões de dólares no último round de investimentos, em 2015. Pioneiro na área, passou a enfrentar a resistência de artistas, que reclamavam do valor pago pelo streaming de cada música, e a concorrência de outros serviços, como o Deezer, o Pandora e principalmente o Apple Music. Sediada em Estocolmo, a empresa está na lista de rumores sobre IPOs há alguns anos, mas diversos relatórios de consultorias e informações vazadas para a imprensa apontam que agora vai.

5 – Dropbox

Outra companhia que aparece com frequência em listas de possíveis IPOs, a hora do Dropbox pode estar finalmente chegando. Depois de ser considerada uma das startups mais empolgantes do Vale do Silício, a empresa passou por uma forte crise com a popularização de serviços de armazenamento na nuvem rivais, como Amazon e Google e teve seu valor de mercado – 10 bilhões de dólares – muito questionado. Desde então, o Dropbox se reorganizou e diz que passou a ser lucrativo desde meados do ano passado. Justamente por isso, o presidente Drew Houston insiste que não há pressa para ir à bolsa. Isso não impede que a companhia esteja conversando com bancos sobre essa possibilidade. A dúvida nesse caso é qual será o valor proposto pelas ações da empresa.