PI investimentos, do Santander, irrita Ancord e Abac com anúncios irônicos

Vídeos abusam de caricaturas com intuito de criticar algumas práticas da onda atual de plataformas de investimento e seus agentes autônomos

A cena começa com um cidadão tomando banho de banheira e falando ao telefone com alguém que se descobre afinal ser seu assessor financeiro. No diálogo, o homem diz que perdoa o assessor por uma série de falhas e prejuízos no mercado por indicações anteriores. “Mas me ligar para oferecer consórcio, aí é demais…”, diz o homem, soltando em seguida uma série de impropérios censurados por um apito, inspirado no nome do anunciante, a PI Investimentos, plataforma de investimentos do Santander.

O que seria uma forma bem-humorada e irônica de abordar a onda atual de plataformas de investimentos e seus agentes autônomos, rebatizados de assessores financeiros, e alertar para os riscos que os investidores podem correr ou os problemas que podem enfrentar, acabou repercutindo mal na Associação Brasileira das Administradoras de Consórcio (Abac). Em nota, divulgada dia 23, a Abac repudiou o vídeo da PI “por conter mensagem ofensiva ao sistema de consórcios, afrontando os legítimos interesses das administradoras, colaboradores, profissionais de vendas e, sobretudo, consorciados. Ainda segundo a Abac, a associação procurou o presidente do Santander, dono da PI, para pedir a retirada imediata do vídeo do ar e o fim de sua veiculação na televisão.

Ancord não gostou das críticas e viu mensagens negativas

E não foi só a Abac que não gostou das ironias. Os vídeos incomodaram a concorrência, mas ninguém vestiu a carapuça das críticas. Coube à Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras (Ancord) divulgar nota afirmando que as campanhas da PI “apresentam mensagens negativas para a imagem das Instituições Intermediárias e do próprio mercado”.

Na nota, a Ancord diz que a campanha apresenta termos inadequados e incompatíveis com a realidade da indústria de intermediação, dando uma “conotação indevida e deletéria, podendo causar prejuízos e denegrir a reputação do setor. “Nesse sentido, solicitamos à Santander/PI que a referida publicidade fosse cessada de maneira a não macular o conceito de todo o segmento”.

Segundo a Ancord, a Santander/PI, por sua vez, alegou que a campanha é irreverente, simples e coloquial, “portanto não prejudica a imagem dos intermediários, vez que todos estão atuando pelo bem comum da educação financeira e da conscientização do mercado”.

A Ancord, porém, não concordou e destacou que a “oferta de produtos financeiros “preconiza a observância das normas da CVM, Bacen e dos autorreguladores que, caso descumpridas, sujeitam os infratores às penalidades nelas previstas”.

A Ancord não apontou, porém, quais normas estariam sendo quebradas pela PI com as propagandas. Mas reiterou que a campanha deveria ser imediatamente “finalizada sob pena de noticiar os fatos ao Conselho de Ética e aos órgãos reguladores”.

Exagero para chamar a atenção

Os vídeos da PI abusam da ironia, até como forma de chamar a atenção nestes tempos modernos de Porta dos Fundos e outros canais de deboche. Mas acabam funcionando como críticas a algumas práticas do mercado e até como orientação e alerta ao investidor que, às vezes sem conhecer bem determinados investimentos, pode estar sujeito a erros ou até mesmo à ação de aproveitadores.

Pisou na bola

Mas, em alguns casos, a campanha passa dos limites, como nos consórcios, que precisam ser respeitados como opção de autofinanciamento devidamente regulamentada e regulada pelo Banco Central. Ou quando fala da perda com a pequena corretora, que traz uma conotação negativa para as instituições menores. Mas acerta ao falar da promessa de ganhos exagerados, típicos de esquemas de pirâmides financeiras.

A campanha com certeza tem o mérito de trazer um pouco de discussão para o setor de distribuição sobre suas novas práticas, às vezes criticadas por seus próprios integrantes de maneira reservada. E de trazer também um pouco de orientação para os investidores, mesmo que por linhas tortas.

Propagandas de investimento na mira

Esta não é a única propaganda relacionada a investimentos a causar polêmica no mercado. Na semana passada, o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar) determinou que a Empiricus suspenda os comerciais da Bettina, que se tornaram famosos e viraram meme ao sugerir que ela conseguira transformar R$ 1,5 mil em R$ 1 milhão em três anos. Junto com a Bettina, o Conar condenou outros cinco anúncios da Empiricus.

Vídeos fazem caricatura do mercado

Os vídeos da PI procuraram retratar de forma caricatural algumas das principais características dos novos mercados de investimentos. Há o “sincericídio” de um analista de investimentos (muito parecido com um famoso consultor de uma empresa independente) que admite que ganha dinheiro é vendendo análise.

Há o episódio do empresário que conta ao sócio durante o almoço que aplicou todo o lucro da empresa em uma pequena corretora que prometia ganhos de 200% do CDI sem risco. “Duzentos por cento do CDI sem risco? Isso só pode ser picaretagem”, reage o sócio. “Tecnicamente, era”, responde o outro. “Então você perdeu tudo? questiona o sócio. “Tecnicamente, nós perdemos tudo”, conclui o empresário.

Em outro episódio, um investidor divide a tela com o consultor com quem conversa por telefone e reclama que ele se esqueceu de avisar de um pequeno detalhe da aplicação que indicou: que o dinheiro dele ia ficar preso por dez anos na aplicação.

O vídeo foi entendido como uma crítica aos Certificados de Operações Estruturadas (COEs), que chegam a ter prazos de cinco anos ou mais e viraram mania entre as plataformas de investimento, segundo alguns mais pelo ganho elevado que proporcionam aos agentes e às instituições do que pelo retorno.

E há o vídeo que mostra o mesmo ator interpretando um agente autônomo e uma cliente, no qual o agente liga e, mecanicamente, oferece por telefone um investimento que paga 200% do CDI. A cliente estranha e pergunta se não tem risco. “Tudo na vida tem risco, minha senhora”, retruca o agente. “Vai querer investir ou não?”, insiste, numa referência aos esforços de vendas e captação via telemarketing de algumas corretoras.