Como as marcas estão se aproximando da cultura pop

Maurício Mota, um dos pioneiros da narrativa transmídia no Brasil, explica o que a arte de contar boas histórias tem a ver com as marcas

São Paulo – Fã do Comic-On, de Tim Burton e atual viciado na série Game of Thrones, o co-fundador da The Alchemists, Maurício Mota, foi um dos “culpados” pela chegada da narrativa transmídia – ou transmedia storytelling – no Brasil. 

A estratégia, pela qual se pode contar uma história integrando diferentes meios – internet, revistas e TV, por exemplo – enche cada vez mais os olhos de marcas como Coca-Cola, Unilever, Nokia, Vivo e Volkswagen, que já a incorporaram.

Na terceira entrevista da série Insight, o empresário e contador de histórias fala sobre o futuro do entretenimento no país, a supervalorização do digital e a aproximação das marcas com o mundo pop.

EXAME.com – O que é narrativa transmídia?

Maurício Mota – É uma nova maneira de contar histórias, que permite usar o melhor de cada meio ou plataforma. Precisa-se de, no mínimo, três meios. Com isso, é possível fazer tudo que no passado não era. 

EXAME.com – No Brasil, você é um dos pioneiros. Como essa história chegou aqui?

Mota – Eu venho de uma família de escritores. Sou neto de Nelson Rodrigues, então temos isso muito vivo. Criei meu primeiro projeto aos 14 anos. Por causa dele, fui convidado pelo Henry Jenkins – um dos papas da narrativa transmídia – para participar de um evento sobre o futuro do entretenimento no MIT (Massachusetts Institute of Technology). A The Alchemists nasceu lá. O Mark (Warshaw) estava apresentando o projeto de Heroes, e resolvemos criar um blog chamado “Os Alquimistas estão chegando”, que deu origem à empresa. 

EXAME.com – O que aproximou a narrativa transmídia da publicidade?

Mota – As marcas querem fazer cada vez mais parte da cultura pop, porque isso envolve mais as pessoas. Fazer isso com uma narrativa integrada é a melhor maneira de estar presente na vida das pessoas de uma forma envolvente e consistente.

EXAME.com – Existem marcas mais suscetíveis à lógica da narrativa transmídia ou é possível criar projetos para qualquer marca ou produto?

Mota – Nem toda marca tem maturidade suficiente pra criar conteúdo próprio. Também não é qualquer marca que precisa de transmedia storytelling. Mas é claro que para se ter um bom projeto, precisa-se ter uma boa marca. Se você fizer uma boa história e o produto for ruim, não rola. É propaganda enganosa.


EXAME.com – Lá fora, temos visto bons trabalhos de agências como Crispin, Porter + Bogusky e Wieden+Kennedy em narrativas transmídia. Como é no Brasil?

Mota – Ainda é tímido, mas temos empresas grandes investindo bravamente. Hoje temos projetos com narrativas transmídia fazendo parte da estratégia de conteúdo até 2020, por exemplo.

EXAME.com – O que falta para o Brasil chegar lá?

Mota – Acelerar. Temos uma nova classe média que vai ter grana pra ir pra internet, pra TV paga, e vai querer mais conteúdo. Há uma grande oportunidade de gerar novas dietas de conteúdo. Precisamos também de bons contadores de histórias, pessoas que respeitem a importância do mundo analógico. As pessoas acham que o digital vai curar o câncer, mas na verdade temos que ter muito repertório.

EXAME.com – Estamos falando de uma estratégia cara, por usar vários meios?

Mota – Depende da longevidade que o cliente quer. A história tem que ser muito boa, e para isso, precisa-se de investimento. Se você quiser ir longe, talvez seja necessário se envolver cada vez mais. O transmedia storytelling permite medir resultados e entender o sucesso do que está sendo desenvolvido.

EXAME.com – Que trabalho você mais gostou de fazer?

Mota – O Almanaque da Rede e um projeto da Coca-Cola para os sucos Del Valle. Criamos a plataforma narrativa “Os Vales Mágicos”. Agora estamos desenvolvendo uma também para a Petrobras, e  vamos liderar toda a plataforma transmedia do centenário do meu avô, desde relançar os audiolivros das crônicas esportivas até desenvolver livros para o iTunes.

EXAME.com – Um grande case envolvendo narrativas transmedia?

Mota – “Smallville”, que ganhou o Guinness como a série de ficção científica que mais durou na história da TV americana. Citaria também “A Bruxa de Blair”. Star Wars, sem querer, era narrativa transmídia, porque na verdade se tinha um grande universo com uma capacidade de estar em vários lugares.

EXAME.com – O uso de várias ferramentas para contar uma história surgiu de uma necessidade das pessoas ou da evolução dos suportes para histórias?

Mota – Na verdade é uma evolução das pessoas. Não tem nada a ver com a evolução das plataformas. As pessoas querem conhecer novos mundos.

EXAME.com – O que você faz para exercitar a criatividade?

Mota – Eu gosto muito de ler para a minha filha. Ela me provoca a contar a história da melhor forma possível. Viajo muito também. Temos escritório em Los Angeles. Amanhã vou à exposição do Tim Burton. O Comic-Con é uma coisa que enche muito minha cabeça também.