Povo curdo segue dividido entre quatro países

Curdos vivem em um território montanhoso que se estende do sudeste da Turquia ao centro do Irã passando pelo norte do Iraque e pela Síria

Os curdos, que defendem a cidade síria de Kobane dos jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI), são um povo de origem indo-europeia que se instalou principalmente entre quatro países e, hoje, reúne entre 25 milhões e 35 milhões de pessoas, de acordo com estimativas.

Um povo dividido entre quatro países

Os curdos vivem em um território montanhoso que se estende do sudeste da Turquia ao centro do Irã passando pelo norte do Iraque e pela Síria. Eles mantiveram seus dialetos, suas tradições e uma organização baseada em clãs.

Eles estão espalhados hoje por cerca de meio milhão de km2 na Turquia – onde vive a maior parte (12 a 15 milhões, ou 20% da população total do país) -, no Irã (cerca de 5 milhões, menos de 10%), no Iraque (4,6 milhões, 15 a 20%) e na Síria (cerca de 2,6 milhões, 9%).

Ainda existem grandes comunidades curdas vivendo no Azerbaijão, na Armênia e no Líbano, assim como na Europa, principalmente na Alemanha.

Relações difíceis com poderes centrais

Os curdos reivindicam a criação de um Curdistão unificado e são considerados uma ameaça para a integridade territorial dos países onde vivem.

Na Turquia, a rebelião do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, considerado uma organização terrorista pela Turquia, pelos Estados Unidos e pela União Europeia) deixou 45.000 mortos em trinta anos.

O governo iniciou no fim de 2012 difíceis negociações de paz com o PKK que decretou uma trégua em março de 2013. A queda de Kobane causará o fracasso do processo, advertiu no dia 2 de outubro o líder histórico do PKK, Abdullah Öcalan. Violentas manifestações curdas, organizadas para denunciar a passividade turca diante dos jihadistas do EI, sacudiram na terça o sudeste do país.

No Irã, o Exército desmantelou em 1946 uma república curda criada um ano antes. Um levante curdo foi duramente reprimido depois da Revolução Islâmica de 1979. Teerã acusa Washington de apoiar grupos armados com sede no Iraque, como o Partido por uma Via Livre no Curdistão (PJAK, ligado ao PKK turco).

No Iraque, os curdos perseguidos durante o regime de Saddam Hussein iniciaram uma revolta contra o governo em 1991 após a derrota das forças de Bagdá no Kuwait. A repressão provocou o êxodo de cerca de dois milhões deles para o Irã e para a Turquia, com os ocidentais impondo uma zona de exclusão aérea para protegê-los.

Desde então, eles administram um território autônomo rico em petróleo que reúne as províncias de Suleimaniyeh, Dohuk e Erbil. Os peshmergas (forças curdas iraquianas) tomaram Kirkuk no dia 12 de junho depois da derrota iraquiana para o EI. Em 3 de julho, o presidente do Curdistão iraquiano, Massud Barzani, lançou um projeto de referendo de independência, denunciado pelos Estados Unidos, seus aliados.

Na Síria, os curdos – reprimidos pelo governo do presidente Bashar al-Assad – se envolveram com prudência na revolta de março de 2011. Eles passaram a administrar partes do norte depois da retirada das forças do governo em meados de 2012. No dia 12 de novembro de 2013, o poderoso Partido da União Democrática (PYD) estabeleceu nessas áreas uma administração autônoma de transição.

Na linha de frente contra os jihadistas

Essencialmente sunitas, com minorias não-muçulmanas (cristãs, yazidis…) e formações políticas frequentemente laicas, os curdos são um alvo privilegiado dos jihadistas porque o “califado” que o EI quer criar inclui as zonas curdas do Iraque e da Síria.

Na Síria, onde uma coalizão liderada por Washington realiza ataques desde 23 de setembro, o EI iniciou em 16 de setembro uma ofensiva no norte para tomar a cidade majoritariamente curda de Kobane (Aïn al-Arab, em árabe), obrigando cerca de 300.000 pessoas a deixar suas casas, sendo que mais de 180.000 seguiram para a vizinha Turquia.

Os jihadistas penetraram segunda-feira na cidade, onde combates rua a rua são travados contra as forças curdas, em menor número e com menos armas, auxiliadas pelos ataques aéreos da coalizão.

No Iraque, o desmantelamento do Exército os deixou na linha de frente diante da ofensiva do EI, lançada em 9 de junho. Desde agosto, eles recebem a ajuda ocidental (fornecimento de armas e bombardeios aéreos).