Falcone e Di Pietro: os dois italianos que inspiraram Sérgio Moro

Os dois juristas italianos seguiram o mesmo caminho do futuro ministro de Bolsonaro: entraram para a vida política após combaterem a corrupção

São Paulo — Assim que Sérgio Moro aceitou ser ministro da Justiça do governo Bolsonaro, o magistrado central da Operação Lava Jato revelou que sua decisão de tirar a toga e abraçar a política foi inspirada no juiz italiano Giovanni Falcone — responsável pela condenação de mais de 300 mafiosos nas décadas de 1980 e 1990.

Em um trecho de uma nota divulgada aos magistrados da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil), no dia em que foi anunciado para a Justiça, Moro afirmou que foi uma escolha difícil, mas ponderada e inspirada em Falcone.

Lembrei-me do juiz Falcone, muito melhor do que eu, que depois dos sucessos em romper a impunidade da Cosa Nostra, decidiu trocar Palermo por Roma, deixou a toga e assumiu o cargo de Diretor de Assuntos Penais no Ministério da Justiça, onde fez grande diferença mesmo em pouco tempo. Se tiver sorte, poderei fazer algo também importante”, diz o texto.

Apesar de sua admiração declarada por Falcone, a decisão de Moro tem sido comparada com outro italiano: o ex-promotor Antonio Di Pietro, que desencadeou em 1992 a maior operação, chamada Mãos Limpas, contra a corrupção no país.

Tanto ele, quanto Falcone deixaram o trabalho no judiciário depois de ganharem os holofotes, para se dedicarem à política.

A Mãos Limpas investigou 4,5 mil pessoas, indiciou 3,2 mil e obteve cerca de 1,3 mil condenações, redefinindo o mapa político da Itália, e liquidou os dois maiores partidos políticos do país, o Democracia Cristã e o Partido Socialista Italiano, que governavam o país desde o fim da Segunda Guerra.

A operação na Itália guiou, inclusive, a maior parte das ações de Moro à frente da Lava Jato. Em 2004, dez anos antes de dar início às investigações no Brasil, o então juiz federal escreveu um artigo dissecando as ações da operação italiana.

“Um acontecimento da magnitude da operação ‘Mani Pulite’ tem por evidente seus admiradores, mas também seus críticos. É inegável, porém, que constituiu uma das mais exitosas cruzadas judiciárias contra a corrupção política e administrativa. Esta  havia transformado a Itália em, para servirmo-nos de expressão utilizada por Antonio Di Pietro, uma democrazia venduta (“democracia vendida”)”, diz trecho do artigo.

Admiração a Falcone

A referência de Falcone por Moro na nota enviada aos magistrados não foi inédita em sua carreira. Durante a Lava Jato, o futuro ministro declarou em diversas ocasiões que seguiu a risca as lições deixadas por Falcone em um de seus livros, o “Cosa Nostra: o juiz e os homens de honra”.

Em 2015, durante evento do Lide, o juiz deixou claro que se inspira no magistrado italiano. “Nos momentos de dificuldade, leio livros sobre Giovanni Falcone e vejo que os casos nos quais ele atuava eram muito mais profundos que o meu. Então sigo em frente”, afirmou.

Nascido em Palermo, na Sicília, Falcone entrou para história por combater a atuação da máfia no país ao longo de toda a década de 80. Seu grande trunfo foi a condenação de mais de 300 mafiosos, no âmbito da operação Maxi Trial.

Segundo registros, desde 1980, seu nome já estava na lista da morte da máfia. Por mais de uma década, ele trabalhou protegido dentro de um bunker, com seus aparelhos eletrônicos vigiados e câmeras de segurança instaladas. Em sua casa, a proteção era semelhante.

Em 1991, Falcone escolheu deixar Palermo e aceitou um cargo secundário em Roma, capital do país, para trabalhar no Ministério da Justiça. 

Um ano depois, um atentado tirou sua vida e de sua mulher, a também magistrada Francesca Morvillo.

Em 23 de maio de 1992, uma ação da máfia ativou um detonador na estrada com mais de 400 quilos de trinitrotolueno (TNT) exatamente no momento em que o carro em que ambos estavam passou pelo trecho.

Comparação com Di Pietro

Pela pouca experiência de Falcone com a política, Moro tem sido comparado com o ex-promotor Di Pietro — apesar de especialistas pedirem cautela com a analogia.

Mesmo entrando na vida política, Di Pietro não aceitou o primeiro convite que recebeu. Em 1994, no auge das investigações contra a corrupção, Berlusconi ganhou sua primeira eleição e ele convidou Di Pietro para assumir um ministério. O ex-promotor, contudo, recusou o convite.

Em entrevista à BBC, o cientista político italiano Alberto Vannucci, especialista na operação Mãos Limpas, explica que “a razão que ele deu publicamente foi a de que aceitar um cargo político daria a impressão ao público de que seu trabalho como juiz seguia alguma orientação política.”

Além disso, segundo Vannucci, existe a teoria de que Berlusconi fizera o convite não só porque Di Pietro era a figura mais popular da época, mas também para tentar algum tipo de proteção política contra as investigações. “Meses depois, o primeiro-ministro se envolveu em um grande esquema de corrupção”, afirmou à BBC.

Depois, Di Pietro liderou outra grande investigação e, quando terminou deixou o cargo de juiz, no final de 1994. Foi só no final de 1996 que ele aceitaria entrar para a política.

Na época, o então primeiro-ministro Romano Prodi o convidou para ser ministro de Obras Públicas, cargo do qual se demitiria seis meses depois por causa de uma investigação.

O ex-promotor, no entanto, não largou a vida pública: virou senador, eurodeputado e fundou o partido Itália dos Valores (IdV).

Ele já fez outras tentativas na política, mas perdeu relevância na última década, e agora voltou a advogar. Recentemente, ele admitiu que falhou em algumas de suas decisões como político.

“Fiz uma política sobre o medo e paguei as consequências. O medo das algemas, o medo do, digamos assim, ‘somos todos criminosos’, o medo no qual quem não pensa como eu seja um delinquente. Fiz o inquérito Mãos Limpas, e com ele se destruiu tudo o que era a dita Primeira República; o mal, e havia muito com a corrupção, é que nasceram os chamados partidos personalistas”, disse.