Redator de discursos cômicos de Obama conta bastidores em livro

David Litt nos traz os bastidores e anedotas da Casa Branca sem nunca perder o humor e a irreverência

O tema da desobediência civil é uma constante na filosofia. O que leva – e o que justifica – uma pessoa ou um povo todo a rejeitar e se rebelar contra as autoridades constituídas? Mas até mais misterioso do que ele é o mistério da “obediência civil”: por que, em todo e qualquer lugar, o grosso da população obedece a uma minoria que não é, objetivamente falando, melhor do que ele?

Um dos caminhos para isso é, sem dúvida, a mística do poder. O funcionamento das engrenagens da máquina estatal – prosaico e terrível – precisa ser envolto numa aura de grandeza e altos valores morais e cívicos. Um chefe de Estado deve, acima de tudo, parecer acima dos reles mortais, e transmitir uma gravidade que, por si, convide à obediência. Para isso, é preciso distanciá-lo da vida comum e privada e preservar sua imagem de tudo que possa rebaixá-la: o cuidado é minucioso e inclui até mesmo onde ele se senta num evento público, a altura de seu púlpito e a ordem de chegada daqueles que interagirão com ele.

Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que nos Estados Unidos, cujo presidente é a pessoa mais poderosa do planeta. Por isso mesmo, é até paradoxal constatar o quanto a figura do presidente americano está sujeita – e se sujeita voluntariamente – ao humor. O humor é um ácido que corrói todas as pretensões de se erguer acima dos outros.

E, mesmo assim, os presidentes americanos não só fazem piadas como também se deixam filmar em situações cômicas e são alvo de humor muito ácido em certas ocasiões especiais. Basta comparar a aparição do ex-presidente Barack Obama (que elevou o humor a uma das características mais memoráveis de seu mandato) em talk-shows humorísticos com as raras e sonolentas entrevistas de Dilma Rousseff ou Michel Temer na televisão brasileira.

Este é o lado da presidência de Obama ao qual temos acesso em primeira mão em Thanks, Obama: My Hopey, Changey White House Years (“Obrigado, Obama: Meus anos esperançosos e transformadores na Casa Branca”, numa tradução livre), de David Litt. Litt teve seu primeiro emprego, recém-saído da faculdade, na campanha presidencial de Obama em 2008.

Em 2011, tornou-se, ainda com 24 anos, redator de discursos da Casa Branca. Sua função centrava-se especialmente no humor, nas tiradas e discursos cômicos do presidente Obama. Com o fim do segundo mandato, em 2016, Litt deixou a Casa Branca e agora nos oferece essas memórias dos anos que passou por lá, tendo em vista a mudança radical de curso que viria na sequência.

Litt nos traz os bastidores e anedotas da Casa Branca, sem nunca perder o humor e a irreverência. O próprio presidente, por sinal, não é presença constante. Conforme Litt explica, Darth Vader pode ser a face pública da Estrela da Morte, mas não é por isso que qualquer stormtrooper – como ele próprio – terá convivência com ele no dia a dia. Ao longo do livro, a imagem que emerge é de um jovem deslumbrado com o mundo da alta política, morrendo de medo de errar (em um episódio, ele quase deixa o cabelo do presidente pegar fogo durante uma gravação por medo de que seria repreendido se saísse de sua função) e, ao mesmo tempo, com um sentido do ridículo que a tensão extrema provoca naquele ambiente.

Conforme ele se torna mais influente na Casa Branca, podemos acompanhar de perto as mudanças na comunicação do presidente. A política, Litt conclui, é basicamente um trabalho de palavras. E graças em parte às palavras dele, Obama conseguiu em seu segundo mandato brilhar como um líder carismático e próximo do povo, menos distante e professoral do que em seu primeiro mandato.

A característica do humor é aproximar e puxar o elevado para baixo. O humorista, contudo, pode passar por um processo diferente. Acima de tudo, Litt foi seduzido e plenamente convertido à mística do poder americano e aos valores da presidência de Obama.

Críticos – mesmo progressistas à esquerda – são os primeiros a indicar como o primeiro presidente negro ficou aquém dos sonhos e da esperança que ele inspirou. Como foi até além do presidente Bush em diversas áreas em que se esperava uma reversão (política externa, uso da segurança para violar direitos civis, etc.). Não para Litt. Ele até tem sua censora pessoal na figura de uma Sarah Palin imaginária, que faz pouco de suas ilusões em diversos momentos. Mas, no final das contas, o que fica mesmo é a profunda devoção dele ao presidente Obama.

Com Donald Trump, tudo mudou, inclusive os redatores de discursos. Mas é inegável que o humor, agora principalmente na ridicularização de adversários e nos trejeitos e tweets de Trump, continua a ter um papel central na presidência. Neste país construído sobre a ideia da igualdade fundamental de todos os homens (e oposto, portanto, à estética hierática das monarquias), o humor com que o presidente é tratado é parte da mística do poder. Ao contrário do Brasil, no qual a presidência luta para se manter digna e elevada em meio ao deboche geral, nos Estados Unidos o governo puxou o humor para si, e o povo o trata com uma reverência e uma solenidade impensáveis aqui abaixo do equador.

Serviço

Thanks, Obama: My Hopey, Changey White House Years (“Obrigado, Obama: Meus anos esperançosos e transformadores na Casa Branca”, numa tradução livre)

Autor: David Litt
David Litt
Selo: Editora Ecco

320 páginas

Preço: 20,99