Harvey Weinstein: a queda de um assediador

Atrizes, roteiristas, produtoras, assistentes e funcionárias relatam um comportamento de assédio, abuso e violência sexual por parte de Harvey

Los Anegeles — Na manhã de quinta feira, dia 12 de outubro, Harvey Weinstein, produtor, sócio fundador e presidente da The Weinstein Company e um dos realizadores mais poderosos da indústria, partiu, em seu jato particular, para uma clínica na cidade de Wickenburg, no estado do Arizona, para tratamento, segundo seu porta-voz, de “compulsão sexual e distúrbios emocionais.”

Na noite anterior a polícia de Los Angeles havia sido chamada à casa de uma das filhas de Weinstein para interferir numa “acalorada e violenta altercação” envolvendo Weinstein e outros membros de sua família.

Nos dias anteriores, algumas das maiores instituições da indústria — a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), a Academia Britânica de Cinema e TV (BAFTA), a Guilda dos Roteiristas da América (WGA), o festival de Cannes e o instituto Sundance — manifestaram publicamente seu repúdio ao produtor.

A BAFTA cancelou sua filiação à instituição moda Georgina Chapman, anunciou a separação do casal e o início de um processo de divórcio; uma lista cada dia maior de nomes de peso na indústria – atores, diretores, executivos, muitos dos quais trabalharam com Weinstein – declararam publicamente seu repúdio ao produtor; e os departamentos de polícia de Los Angeles e Londres anunciaram a abertura de investigações sobre a conduta de Weinstein.

“Não estou bem, estou fazendo o melhor que posso, mas não estou bem”, Weinstein disse, às pressas, a um grupo de repórteres aquartelados em frente à casa de sua filha, antes de entrar no carro que o levaria ao aeroporto, esta manhã. “Vou em busca de ajuda e tratamento. Todos nós cometemos erros. Espero poder ter uma segunda chance.” Já dentro do carro, completou: “Eu sempre fui ok com vocês da imprensa. Vocês sabem disso. Eu sou leal com vocês. Eu sou um cara do bem.”

Uma crescente multidão de pessoas, a maioria mulheres e quase todas muito famosas, discordam veemente dessa declaração. Em duas reportagens de fôlego publicadas, semana passada, em veículos de prestígio — o New York Times e a revista New Yorker — atrizes, aspirantes a atrizes, roteiristas, produtoras, assistentes e funcionárias das duas empresas de Weinstein relatam um comportamento de assédio, abuso e violência sexual por parte de Harvey, que vem desde os anos 1990, quando ele era o ícone do cinema independente, responsável pelas carreiras de realizadores como Quentin Tarantino e Steve Soderbergh, e segue até os dias de hoje.

Segundo o relato de suas vítimas, os ataques de Harvey seguiam um padrão constante: ele marcava reuniões supostamente de trabalho com jovens atrizes, roteiristas e produtoras, sempre em hotéis de luxo como o Peninsula de Los Angeles e o Du Cap-Eden-Roc de Cap D’Antibes, na França, próximo a Cannes. Ao chegar, a pessoa convidada era levada não a uma sala de reunião mas à suíte de Weinstein, que, invariavelmente, abria a porta em variados estados de nudez, e imediatamente propunha atividades como uma massagem íntima ou um chuveiro a dois, enquanto seus assistentes trancavam as portas e desapareciam de cena. Numa variante destes abusos, contam os relatos, Weinstein cercava suas vítimas em banheiros, corredores e até em salas de sua própria empresa.

Não é uma história nova, nem original, embora seja absolutamente terrível. Em 2004 a jornalista Sharon Waxman estava na trilha de um assistente pessoal de Weinstein, o italiano Fabrizio Lombardo, cuja principal tarefa, segundo a jornalista, era organizar esse tipo de encontros com atrizes e talentos europeus (Asia Argento e Léa Seydoux estão entre as mulheres que denunciaram assédios violentos de Weinstein).  Segundo Waxman, a matéria foi posta na gaveta depois que o editor de entretenimento do Times recebeu telefonemas de atores famosos que haviam trabalhado com Weinstein defendendo o produtor e alegando que tudo não passava de um mal-entendido.

Em janeiro de 2013 o ator, roteirista e produtor Seth McFarlane (Family Guy, Ted), anunciando, na Academia, as atrizes indicadas ao Oscar daquele ano, comentou, ao microfone: “Parabéns, senhoras, agora vocês cinco não vão ter que fingir que gostam de Harvey Weinstein”.

A ilustre plateia do teatro Samuel Goldwyn, da Academia, onde as indicações são anunciadas, riu muito, mas a frase se referia a mais uma agressão do ainda celebrado chefão indie: segundo McFarlane, em 2011 sua amiga e colaboradora, a atriz Jessica Barth, tinha sido vítima de uma das muitas “reuniões de trabalho” de Harvey. “Fiquei absolutamente pasmo e furioso”, McFarlane declarou nas redes sociais. “Mas era um assunto sobre o qual ninguém falava abertamente. Quando tive a chance, no anúncio das indicações, não pude resistir à oportunidade de mandar uma pesada para cima de Harvey.”

O “ninguém falava sobre o assunto” é um elemento chave desta tragédia anunciada. A cultura do “casting couch”, o “teste do sofá” onde, muitas vezes, se decidem os destinos de aspirantes ao estrelato, está presente desde as mais remotas origens do entretenimento de massa.  O homem mais velho, investido de plenos poderes, que, numa versão do senhor feudal, considera todas as mulheres jovens e bonitas como sua propriedade eventual, é uma figura constante na indústria de cinema e TV.

A imensa maioria dos alvos dessas agressões são mulheres, mas nem sempre – neste momento há diretores conhecidos como predadores de meninos menores de idade que continuam em atividade. Um deles, Victor Salva, já foi preso e cumpriu pena por assédio e abuso de menores – e acaba de lançar mais um filme de sua bem-sucedida trilogia de terror, Jeepers Creepers.

O que teria acontecido com Harvey Weinstein, se um punhado de suas vítimas não tivessem, corajosamente, falado abertamente aos jornalistas do New York Times e da New Yorker? O que teria acontecido se o autor da matéria da New Yorker, Ronan Farrow — filho de Mia Farrow que vem, há anos, acusando seu pai, Woody Allen, como abusador de sua irmã Dylan –, tivesse desistido do projeto depois que a rede NBC, da qual é colaborador, se recusou a produzir a matéria, e depois de ter recebido ameaças de processo por parte dos advogados de Weinstein?

Provavelmente, nada. O homem poderoso que trata mulheres como sua propriedade e, se necessário, compra o silêncio de suas vítimas com acordos extrajudiciais (coisa que Harvey fazia frequentemente, com o conhecimento e os recursos de sua empresa), é o mesmo homem que movimenta a bilheteria, os mercados de compra e venda de direitos, a audiência da TV. É ele que dá emprego a milhares de técnicos, funcionários e talentos, que mantém vivas dezenas de empresas de serviços, que contribui com milhões de dólares para campanhas políticas e obras assistenciais, que compra caríssimos espaços publicitários em websites, emissoras de TV, jornais e revistas.

Não é de espantar, portanto, que as aventuras de Harvey tenham sido um dos segredos menos secretos e mais conhecidos da indústria durante tanto tempo.  “Quando criamos Entourage, disseram que nós éramos doidos de fazer uma série sobre Hollywood, em Hollywood”, diz Jeremy Piven, que interpretou o apoplético agente Ari Gold na série da HBO.

“Mas era isso mesmo que nós queríamos – queríamos que esta cidade olhasse para a série e soubesse que nós sabíamos de tudo o que acontecia aqui. E tínhamos um personagem chamado Harvey. Que era Harvey. Estou extremamente feliz e orgulhoso dessas mulheres que estão contando tudo e finalmente levantando o véu desse assunto, não apenas destas ocorrências, mas de todo um problema na nossa indústria.”

“Isto acontece nesta nossa indústria há 50 anos, pelo menos”, diz Dustin Hoffman. “É um problema e é um problema sério. Mulheres ainda são cidadãos de segunda classe, e, por incrível que pareça, ainda tem que lutar por direitos óbvios. Porque os homens sempre se protegem e passam incólumes por coisas que deveriam trazer consequências sérias.”

Hoffman tocou num outro lado da questão –  a cumplicidade masculina diante de algo que deveria chocar. No primeiro momento da eclosão do affair Harvey, o jornal britânico The Guardian fez contato com representantes de 26 atores e diretores que trabalharam com Weinstein – nomes como Tarantino, Leonardo di Caprio, Ben Affleck e  Michael Moore, muitos dos quais devem a ele o empurrão suas carreiras. De imediato, ninguém respondeu ao jornal.

Apenas dias depois alguns nomes como DiCaprio, Affleck e George Clooney deram declarações de apoio às vítimas. Alguns, relutantemente – enquanto atrizes, produtoras e diretoras se manifestavam contra o ex-poderoso chefão, acrescentando, a cada dia, mais casos dessa cultura do abuso – que, neste momento, acaba de ceifar a carreira do presidente de desenvolvimento de conteúdo da Amazon, Roy Price, que, segundo Isa Hackett, filha do autor SciFi Philip K. Dick e  produtora da série The Man in the High Castle, baseada em sua obra, assediou-a agressivamente antes e durante uma festa promovida pelo estúdio na Comic-Con de 2015, tentando agarrá-la e gritando coisas como “quero sexo anal!” na frente dos convidados.

Uma exceção importante nesse mar de silêncio foi Mark Ruffallo, o primeiro ator a se manifestar em apoio às denúncias contra Weinstein. “Como eu poderia não me manifestar?”, diz Ruffallo. “Como um ator, você já está numa situação fragilizada, vulnerável, à mercê de outras pessoas cujos desígnios você desconhece. Se você é mulher, isso se multiplica por 100. Tenho vergonha em pensar que estive na mesma sala com homens capazes de abusar o poder dessa forma. Porque é isso, essencialmente, que se dá – não é sobre sexo, é sobre poder.”

Exatamente porque homens como Price e Weinstein são poderosos, as implicações de seus atos tem enormes ramificações. O fato de Weinstein ser um dos maiores apoiadores financeiros do partido Democrata, e um dos sustentos da campanha de Hillary Clinton à presidência, está sendo explorado com grande ruído pela administração Trump – que, é claro, tem seus próprios problemas exatamente nessa área.

Weinstein não é mais o “encantador de Oscars” que já foi, nos tempos em que parecia ser capaz de levar qualquer um de seus filmes – Shakespeare Apaixonado, A Vida é Bela, O Artista–  até a maiores prêmios. Mas sua TWC ainda é uma produtora e distribuidora independente de peso, e vem este ano com alguns filmes bem recebidos em festivais, todos com esperanças de indicações –  o drama de época The Current War, que Weinstein estava editando quando  as matérias foram publicadas, e que tem Benedict Cumberbatch e Michael Shannon no elenco; Wind River, um drama de ação dirigido pelo premiado roteirista de Hell or High Water; e o ainda inédito The Upside, releitura do sucesso francês Untouchable, estrelada por Bryan Cranston

Teoricamente, o valor intrínseco desses filmes deveria ser o suficiente para levá-los adiante apesar da notável ausência do seu patrono, mas a realidade é que, sem o agressivo corpo-a-corpo de campanha que tornou Weinstein a força que ele era na temporada de prêmios, eles têm muito menos chances.

E embora votantes não devam agregar simpatias ou antipatias externas às obras que vêm, a presença do nome “Weinstein”, antes um selo de qualidade,  agora se tornou um problema. Entre as considerações da TWC — que incluem declaração de falência ou venda para outras empresas — está a mudança completa do logo e do nome. Mas talvez não seja necessário. A série da Netflix Peaky Blinders, por exemplo, já removeu o nome e logo da TWC dos seus créditos.