A democracia falhou para as mulheres?

Livro de Drude Dahlerup, professora da Universidade de Estocolmo e estudiosa dos direitos femininos, fala sobre o avanço das mulheres no poder

Até pouco tempo atrás, dizer que uma mulher se dedicava à vida pública era um xingamento. A vida pública feminina era o bordel. O mundo parece estar mudando, desde a tímida permissão para as mulheres guiarem seus carros na Arábia Saudita até a confirmação de Angela Merkel como a governante mais longeva da Alemanha, nessas últimas eleições. Mas muda muito lentamente.

É isso o que mostra o livro Has Democracy Failed Women? (“A democracia falhou para as mulheres?”, numa tradução livre), de Drude Dahlerup, professora de ciência política da Universidade de Estocolmo e estudiosa dos direitos femininos.

Para os pessimistas, a leitura é um certo alento. O mundo já foi bem pior. Quer exemplos? No Brasil, há meio século uma mulher tinha que pedir permissão ao pai ou ao marido para abrir uma empresa. Até o século 20, as mulheres de nenhum país tinham o direito de votar.

Quando a pílula anticoncepcional foi inventada, logo se tornou uma arma de independência feminina. Pois a pílula levou 39 anos para ser liberada no Japão (em comparação, quando o Viagra foi lançado, poucos meses depois já era vendido no mercado japonês).

Para os otimistas, porém, o livro de Drude é uma ducha de água fria. Mesmo em movimentos de luta pela liberdade, como a Primavera Árabe, mulheres eram atacadas nas praças onde ocorriam os protestos. As mulheres avançaram em representação política em todos os países – mas são raríssimos aqueles em que elas chegam à paridade. E há, é claro, questões muito mais básicas: os índices de violência contra a mulher não cedem; os limites impostos ao desenvolvimento intelectual das meninas; a supressão de oportunidades.

Não se trata de saber se o copo está meio cheio ou meio vazio. A questão é entender por que o copo das mulheres é menor.

Avanço. Lento.

Pode-se considerar um país democrático se as mulheres são excluídas dos órgãos que tomam decisões? A resposta é óbvia nos extremos: a Arábia Saudita não é uma democracia. Mas mesmo as agências e instituições que promovem os direitos humanos não dão a devida ênfase à representação dos gêneros.

O índice de democracia da Economist Intelligence Unit, da revista Economist, tem 60 questões para avaliar o grau de democracia – apenas um tem algo a ver com a situação das mulheres (o número de mulheres no Parlamento). O índice da organização Freedom House não tem indicadores da representação política feminina na parte de direitos políticos, apenas inclui “oportunidades iguais para todos, incluindo mulheres e minorias” em sua seção de direitos civis.

A despeito disso, o avanço ocorre. Hoje, somente 35 países têm menos de 10% de mulheres nas assembleias legislativas. Há 20 anos, eram 109.

No final dos anos 90, só cinco países tinham mais de 30% de mulheres nos parlamentos. Hoje, são mais de 50. Mas em nenhum deles isso aconteceu sem pressão, especialmente na forma de cotas estabelecidas por lei.

A discussão das cotas não é simples. Há feministas que as rejeitam, por considerar que as mulheres que entram nos postos por meio delas são menosprezadas. E há o argumento liberal de que as cotas representam uma distribuição injusta de oportunidades.

Para Drude, a ação afirmativa deveria ser justificada como uma tentativa de corrigir privilégios incrustados. Mais do que adotá-la, é preciso adotá-la corretamente – por dentro dos partidos, que costumam ser controladores da entrada de pessoas na vida política.

A questão das cotas é controversa não apenas na política, e não apenas para mulheres. Não porque quem é contra se recuse a enxergar uma situação injusta, mas porque há dois valores em disputa.

De um lado, você quer que o ocupante de um posto – o médico local, por exemplo – seja o mais competente, não importa se é branco, negro, homossexual, mulher. Sob esse aspecto, pode até ser justo ter um sistema de cotas do ponto de vista do cargo a ser ocupado, mas seria injusto para com os beneficiários desse serviço.

De outro lado, dado o preconceito recorrente, a escolha de um candidato pela cota poderia abrir caminho para que, no futuro, uma gama de pessoas maior viesse a concorrer pelo posto – o que elevaria a competência média.

O problema é que esse futuro está demorando a chegar. Na política, como nos negócios, parece haver mais barreiras dos que as que comumente vemos: o preconceito velado, os clubes masculinos que dificultam o networking para mulheres, a preferência inconsciente que faz com que um líder tome um homem, e não uma mulher, como protegido.

Há ainda questões que Drude esboça, mas não chega a aprofundar. Será que as mulheres querem ocupar os espaços políticos com tanta gana quanto os homens?

Uma expressão corrente entre as feministas é que os postos que as mulheres ocupam são drenados de poder. O poder sai, a mulher entra, dizem. Ou, numa segunda versão: a mulher entra, o poder sai.

A mesma pergunta vale para os negócios. Ela pode ser perversa: atribuir ao objeto do preconceito a responsabilidade pela sua exclusão.

Mas talvez a resposta seja outra pergunta: o que faria as mulheres terem menos vontade de comandar que os homens? Já se sabe que há uma correlação positiva entre o número de mulheres no poder e o decréscimo em corrupção e a melhora na gestão.

É do interesse de todos que haja ambientes mais convidativos à participação das mulheres. Mas esse talvez nem seja o principal argumento em prol da igualdade. É apenas uma questão básica de justiça.

Serviço

Has Democracy Failed Women? (“A democracia falhou para as mulheres?”, numa tradução livre)

Autora: Drude Dahlerup

Selo: Polity Press

144 páginas

Preço: US$ 12,95