Uma premiação só para elas — do backstage ao palco

O evento, que acontece em parceria da Women’s Music Event com a VEVO, premiará mulheres de todo o meio musical no próximo dia 28

São Paulo – “O outro lado da moeda do show business, um lado mais invisível, emprega muita gente. Mas nesse espaço que ninguém enxerga, a mulher é muito pouco lembrada nos lugares de relevância”. Claudia Assef, jornalista, produtora e DJ poderia estar falando de qualquer profissão no mercado. Mas ela fala, nesse momento, sobre a indústria musical. Claudia é uma das idealizadoras do Women’s Music Event (WME), site criado em outubro de 2016, que busca destacar e promover mulheres da música, por meio de playlists, matérias e programas em vídeo.

O objetivo do projeto não é falar do que Claudia rotula como “mazelas femininas”. O WME não se trata de falar sobre “os percalços de se conciliar o trabalho no meio musical com a amamentação ou a TPM”. “A gente sempre focou no mercado, em questões muito modernas e atuais, como música, tecnologia e comunicação, que tivessem a mulher como protagonista”, diz a jornalista.

Embora não faltem nomes de grandes mulheres que fizeram e fazem história nessa indústria, ainda assim, tudo aquilo que envolve a estrutura que compõe esse meio é dominado por homens. Não só nos palcos, mas em todo o processo que culmina no espetáculo final: a produção, edição, divulgação, agenciamento ou crítica. Das gravadoras aos backstages, a presença feminina ainda é muito pequena.

Fã de música desde muito pequena – sempre preferiu os discos aos brinquedos – por muitas vezes, Claudia sentiu no seu dia-a-dia o machismo arraigado na indústria musical. “Nosso primeiro intuito sempre foi aumentar o espaço da mulher na indústria da música. Pouquíssimas conseguem ocupar um espaço de relevância. Eu e Monique Dardenne, minha sócia, sempre sentimos isso na pele”.

Uma pesquisa da UK Music divulgada pelo jornal The Guardian mostra que as mulheres constituem 60% dos estagiários na indústria e 59% dos cargos de nível de entrada, mas apenas 30% dos cargos executivos seniores.

Encarando esse cenário, o Women’s Music Event, em parceria com a VEVO, resolveu celebrar o trabalho dessas mulheres, que existem (e resistem) no meio musical. No próximo dia 28, elas serão premiadas em um evento fechado para 400 convidados. Todas serão contempladas: desde as melhores cantoras, DJs e musicistas do ano até a melhor diretora de clipes, empreendedora musical, jornalista, produtora e radialista.

As vencedoras serão eleitas de acordo com voto popular, júri técnico e homenagem pelo conjunto da obra. A premiação será transmitida pelo Facebook da VEVO e pelo canal fechado Music Box, e vai ser apresentada pela veterana Elza Soares, ao lado de Karol Conká, dona de hits como “É o Poder” e “Tombei”. As apresentadoras, inclusive, disputam a categoria de “Melhor Cantora” com Marília Mendonça e Anitta. Nomes como Daniela Mercury, Karina Buhr, Preta Gil, Tássia Reis e Marina Lima também foram confirmados.

O evento busca abraçar mulheres na música de todos os cantos do país e dos mais diversos estilos. Segundo Claudia, o intuito é premiar mulheres de todas as regiões, não apenas “do Sul e Sudeste”. Para isso, o WME conta com 50 embaixadoras espalhadas por todo o Brasil que auxiliam na escolha das indicadas aos prêmios.

A “era de ouro” para mulheres

Claudia teve três grandes influências musicais ao longo da sua vida: Madonna, Rita Lee e Donna Summer. Donna Summer foi uma das mais significativas – ouvia quando era muito pequena ao lado do pai, e só quando cresceu, de fato descobriu quem era a voz de “Love To Love You Baby”.

A essas cantoras e tantas outras, segundo Claudia, nunca foi negado espaço. Ainda assim, ela fala como a indústria sempre ditou a forma como essas “divas” deveriam ser e se comportar – algo já questionado pelas mulheres há um tempo. Rita Lee, “linda, ruiva e meio andrógena”, é uma das ídolas de Claudia por isso.

Hoje, a jornalista vê como as mulheres na música estão, cada vez mais, tentando ocupar o seu espaço – e, sobretudo, dialogando entre si. Ela comenta, por exemplo, o discurso alinhado de cantoras de estilos e idades tão diferentes, como Pitty, Anitta e Elza Soares. “As mulheres estão vivendo um momento muito grande de “turn over”, de quebras de paradigmas. Não estão mais a fim de engolir sapo. Está acontecendo um levante de figuras femininas muito talentosas”.