Vencedor do Globo de Ouro, “Homem-Aranha no Aranhaverso” estreia hoje

Para o produtor, a animação é uma oportunidade de contar uma história colocando o espectador numa versão tridimensional de história em quadrinhos

Quem pergunta, em tom de crítica, “Mas um outro filme do Homem-Aranha?”, tem certa razão. “Homem-Aranha no Aranhaverso”, dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, é o sétimo longa encabeçado pelo personagem nos últimos 17 anos.

Os produtores Chris Miller e Phil Lord, a dupla por trás de Uma Aventura Lego e Anjos da Lei, sabem bem disso. “Neste momento de saturação de filmes de super-heróis, tentar fazer algo que não pareça novo e original parece loucura”, disse Miller em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em Los Angeles.

“Mas todo filme nosso tem a mesma abordagem: como fazer algo que o público nunca tenha visto, que pareça inovador, que faça valer o preço do ingresso?”

A proposta de fazer uma animação em vez de uma produção live action certamente contribuiu para diferenciar Homem-Aranha no Aranhaverso dos outros. “De cara, vimos que era uma oportunidade de contar uma história que dava a impressão ao espectador de entrar numa versão tridimensional de uma história em quadrinhos”, disse Miller.

Mas os dois queriam mais. Sua ideia era que fosse uma animação também bem distante das que costumam chegar às telas.

Lord acrescentou: “De certa forma, o meio era a mensagem, porque você tinha todos esses personagens diferentes se juntando, e podíamos tratá-los cada um num estilo de animação, elevando assim os temas e os relacionamentos, porque você vê que eles fisicamente não deveriam estar juntos”.

Foi quatro vezes mais difícil do que um filme com CG regular e em certos momentos demandou o trabalho de 170 animadores (um filme da Disney costuma chegar a 90), mas valeu a pena – o longa acaba de levar o Globo de Ouro de animação e certamente vai figurar entre os indicados para o Oscar na categoria.

Diversidade

Homem-Aranha no Aranhaverso conta a história de Miles Morales (voz de Shameik Moore na versão original), um adolescente, filho de pai negro e mãe porto-riquenha, admirador do Homem-Aranha, que enfrenta problemas para se encaixar na sua escola de elite e, depois de picado por uma aranha, desenvolve superpoderes.

No mundo de Miles, uma criação patrocinada por Wilson Fisk (Liev Schreiber), permite acessar universos paralelos. Assim, o garoto entra em contato com Peter Parker (Jake Johnson), agora um quarentão cansado e desiludido.

“Pensamos: e se ele envelheceu como nós? Como ele seria agora? E achamos que seria um bom contraponto a Miles, que está começando a jornada agora. O personagem continua sendo o mesmo Peter Parker, mas sem ter passado pelo lifting facial e se transformado em adolescente novamente como nas outras versões”, disse o produtor Chris Miller.

Uma das sacadas da história é que não há apenas um (ou dois) Aranha, existem vários, de Mulher-Aranha (Hailee Steinfeld) a Homem-Aranha Noir (Nicolas Cage), passando por Porco-Aranha (John Mulaney) e a nipo-americana Peni Parker (Kimiko Glenn).

“A ideia é mostrar que qualquer um podia estar por trás daquela máscara”, explicou o produtor Phil Lord. “Os pressupostos de como essas histórias devem ser não precisam ser seguidos à risca.”

Os produtores negam que a diversidade dos personagens seja uma posição política. “Estamos apenas representando o mundo como ele é”, afirmou Miller. Para Shameik Moore, que se viu em Miles Morales assim que cruzou com o personagem pela primeira vez, ainda adolescente, isso é importante.

“Me sinto honrado. Quem sabe não vai ter um menino que vai achar que é Miles?” Lord lembrou que a ideia de inclusão foi sempre a de Stan Lee, criador do Homem-Aranha junto com Steve Ditko e morto em novembro – Lee tem uma cena especial no novo filme.

Segundo Lord, a mensagem de Homem-Aranha no Aranhaverso é de empoderamento. “Queremos que cada um pense em si mesmo como um super-herói. O mundo tem problemas, e temos de usar quaisquer superpoderes que tenhamos e fazer o que for possível.

É parecido com Uma Aventura Lego, que dizia que todos têm habilidades. Não podemos deixar tudo na mão de uma elite. Não podemos deixar o heroísmo para os outros. Miles adoraria que isso fosse possível, que ele pudesse passar a responsabilidade para outro.

Mas a verdade é que ele não pode, nós não podemos. Sabemos que esse tipo de filme fala diretamente com as pessoas mais jovens. E queremos que elas saibam que acreditamos nelas e precisamos que elas ajam.”