Uma conversa com Antonio Fagundes, o ator que faz parte do 1%

Aos 68 anos, o rotulado maior galã da TV brasileira se inclui na pequena parcela da população que mantém a tradição da leitura

São Paulo – O ator Antonio Fagundes ao vivo é realmente tão galã quanto na TV. Elegantemente vestido, com os cabelos engomados e um olhar penetrante, um dos atores mais consagrados da televisão brasileira conversou com o site EXAME, no Tuca, teatro da PUC-SP, sobre seu mais recente trabalho: a peça “Baixa Terapia”. No bate-papo, ele aproveitou para contar detalhes de sua vida profissional e dar palpites sobre o futuro da dramaturgia brasileira.

“Baixa Terapia”, em cartaz até abril do ano que vem e já vista por mais de 70 mil pessoas, é simples e surpreendente. Escrita pelo argentino Matías Del Federico, a obra aborda de forma cômica temas delicados das relações humanas, como traição, depressão, suicídio e as angústias das mulheres dos dias de hoje.

Com um time de peso (que incluí a ex-mulher, a atual e o filho de Fagundes), a produção conta a história de três casais que vão à terapia, mas não encontram a psicóloga no consultório. Há apenas a recomendação de que os personagens devem se autoanalisar e, juntos, encontrarem as melhores saídas para os problemas conjugais de cada um.

O desenvolvimento dos personagens é inteligente e interessante, mas se torna apenas um preparo para o grande conflito, que no momento certo é revelado (e, sem spoiler, é chocante). A genialidade de envolver o espectador nos mistérios do jogo de cena dos atores transformou “Baixa Terapia” em uma das melhores peças brasileiras de comédia.

Veja abaixo a entrevista completa com Antônio Fagundes:

Como está sendo essa experiência de humor com a peça?

Ela é muito interessante porque fala das relações interpessoais: uma vez, rapidamente, elencamos 25 temas que a peça aborda ao longo de sua duração. E, para mim, o mais genial é que o dramaturgo fez isso de um jeito muito sábio, porque o público se escracha de rir. É uma peça muito bem escrita. Como comédia, é de alta qualidade e traz uma reflexão no final.

Como está sendo esse contexto pessoal (de ex-mulher, atual e filho) envolvido na peça?

A gente sempre se deu muito bem fora de cena, mas apesar disso não quer dizer nada. No nosso caso dá certo pessoalmente e profissionalmente. É muito orgulhoso ver o elenco familiar e, claro, meu filho em cena.

Agora sobre você. O que mais gosta de fazer como ator? Teatro, cinema, novelas?

Eu já faço teatro há 51 anos. Comecei nele. É o que eu mais produzo e, consequentemente, o que eu mais gosto de fazer. A televisão realmente dá uma visibilidade nacional muito grande e confortável, mas faço há mais tempo teatro do que televisão.

Como você avalia a dramaturgia brasileira atual?

Está ótima, com essa nova turma muito boa que tem surgido. Autores jovens e interessados. Mas a gente tem um caminho muito grande para percorrer ainda, porque perdemos muito tempo em termos de estudo da dramaturgia. Isso também se reflete no teatro, no cinema e na literatura, mas estamos recomeçando, o que é muito bom, mas ainda precisamos preencher essa lacuna.

E qual foi o motivo dessa falta?
Uma delas são as consequências da Ditadura Militar. A educação do país é outra. As pessoas não sabem ler, não se interessam, são superficiais. Naturalmente que isso se reflete em qualquer profissão, mas o teatro que vive de literatura e escrita se reflete na veia. Então, enquanto a gente não estudar e essa percepção não existir, vamos sofrer.

Você consegue eleger um trabalho que fez que seja seu favorito?

Essa para mim é uma pergunta injusta: você tem quase 52 anos de profissão e se conseguir pinçar um só trabalho que você melhor fez, quer dizer que nada do que você fez antes ou nada do que você fez depois foi bom. É uma injustiça com toda uma vida profissional. Gosto de pensar que ainda estou em processo de evolução e que, só no dia que eu morrer, vai acabar. Talvez depois disso, alguém faça essa análise. Mas seguramente um vai pinçar um, outro vai pinçar outro e eu prefiro assim.

Você já tem 68 anos. Você pensa em parar a profissão?

Para mim, o ator não se aposenta, ele morre em cena. Sempre tem um bruxinho velho para a gente fazer. E teatro, enquanto eu tiver saúde, eu vou continuar.

Como você lida com o rótulo de galã da televisão brasileira?

Bom, só tenho a agradecer. Eu particularmente brinco que não sou meu tipo de homem. Então, não me elegeria para nenhuma dessas escolhas. Mas, quando as pessoas continuam pensando em você como galã, mesmo aos 68 anos, é um privilégio.

Você consegue eleger algum ator da atualidade que segue o mesmo prestígio que o seu?

Existem várias pessoas muito mobilizadas ultimamente, não consigo eleger um só. Há uma turma muito boa, inclusive da geração intermediária. Só olhar o teatro e o cinema brasileiro. Acredito que venha muita coisa boa por aí.

Você tem mais algum sonho para realizar como ator?

Nossa, muitos. Só o Shakespeare tem 37 peças e eu só fiz uma. A gente sempre tem vontade de produzir pela frente.

Quais são seus planos para o próximo ano?

Vou começar a gravar uma nova série da Globo, que vai ao ar só em 2019, chamada “Se eu fechar os olhos agora”. É baseado em um livro do Edney Silvestre e promete ser bem interessante.

E quais seus hobbies fora do ambiente profissional?

Gosto muito de ler. Agora eu estou lendo o livro da Fernanda Torres, chamado “Glória e seu cortejo de horrores”, que vai ser lançado em breve. Eu gosto muito de ler. Faço parte daquele 1% da população, que mantém a tradição da leitura. Eu também sempre viajo, mas só quando tiro férias do teatro.

(“Baixa Terapia” fica em cartaz até 10 de dezembro e volta ao Tuca em 19 de janeiro de 2018. Os ingressos custam a partir de R$ 80 reais).