Um pote de mel está dividindo dois aliados

Austrália e Nova Zelândia estão em guerra. Por causa de mel.

Paengaroa, Nova Zelândia – Austrália e Nova Zelândia estão em guerra. Por causa de mel.

Mas não qualquer mel, veja bem: esse não é vendido em garrafinhas de plástico em forma de urso. É o mel de manuka, um néctar caríssimo considerado por celebridades como um elixir de saúde e beleza. (Scarlett Johansson o usa no rosto; Laura Dern cuida da saúde de seus filhos com ele.)

O mel de manuka é tão valioso que os produtores da Nova Zelândia foram à justiça para defender sua exclusividade de venda, da mesma forma que só a França pode reivindicar o Champagne com C maiúsculo. Eles dizem que são a única fonte autêntica do mel, feito a partir de uma única espécie de arbusto; os produtores australianos prepararam uma contestação, ponto por ponto, que remonta ao Período Cretáceo.

Isso deixou esses dois vizinhos – tão intimamente ligados que a Constituição da Austrália ainda acolhe a Nova Zelândia como um de seus estados – presos a uma disputa amarga que abrange ciência, cultura, história e, sim, o comércio frio e duro.

“Para nós, é um soco no estômago”, disse Bert Seagrave, agricultor australiano com 4.200 colmeias no estado de Nova Gales do Sul. Perder a capacidade de classificar seu mel como manuka lhe custaria meio milhão de dólares por ano, disse ele.

O mel de manuka é vendido por cerca de US$ 100 cada 500 gramas, e os de maior qualidade podem custar até mais. Ele tem mais gosto de nozes que o mel regular, embora a esse preço pouca gente possa espalhá-lo na torrada. Seus promotores dizem que ele pode acalmar a inflamação gástrica e até ajudar a tratar cortes e queimaduras.

Apiário Summerglow, que produz mel manuka, em Hamilton, Nova Zelândia Apiário Summerglow, que produz mel manuka, em Hamilton, Nova Zelândia

Apiário Summerglow, que produz mel manuka, em Hamilton, Nova Zelândia (Adam Dean/The New York Times)

Os fabricantes na Nova Zelândia solicitaram o registro da marca em seu próprio país, assim como no Reino Unido, na União Europeia, nos Estados Unidos e na China – um mercado especialmente lucrativo –, entre outros lugares. Os produtores australianos apresentaram documentos na Nova Zelândia e na Grã-Bretanha se opondo aos pedidos.

Os neozelandeses dizem que foram obrigados a tomar medidas legais, em parte porque os produtores australianos tentam vender um produto inferior.

A disputa gira em torno do tipo de arbusto do qual o mel é derivado. Na Nova Zelândia, o mel de manuka vem exclusivamente do néctar de uma planta conhecida como Leptospermum scoparium, comumente chamada de arbusto manuka. O mel australiano, argumentam os neozelandeses, não vem só desse arbusto, mas também de dezenas de outras espécies do mesmo gênero.

Os australianos estão “literalmente vendendo 80 espécies diferentes como sendo a mesma”, disse Tony Wright, gerente geral de acesso ao mercado da Comvita, uma das maiores produtoras de mel de manuka da Nova Zelândia. Isso, acrescentou, é um pouco como “generalizar todas as amêndoas e damascos e chamá-los de ameixas”.

Os produtores da Austrália, disse Wright, estão “omitindo detalhes, e o consumidor está sendo roubado, porque você pode testar todos os méis e verificar seu efeito antibacteriano”. Acredita-se que os elementos do mel de manuka sejam tão especiais que os fabricantes da Nova Zelândia chegaram até mesmo a criar sistemas de classificação para avaliar sua potência – um deles se chama Fator Único de Manuka.

Anúncio do mel manuka em Paengaroa, Nova Zelândia Anúncio do mel manuka em Paengaroa, Nova Zelândia

Anúncio do mel manuka em Paengaroa, Nova Zelândia (Adam Dean/The New York Times)

Mas os australianos dizem que os produtores neozelandeses estão fazendo uma distinção sem que haja uma diferença.

Eles dizem que os arbustos australianos no gênero Leptospermum estão tão intimamente relacionados com os da Nova Zelândia que chegam a ser quase indistinguíveis, observando que, há cerca de 65 milhões de anos, a Austrália e a Nova Zelândia faziam parte da mesma massa de terra e compartilhavam a mesma espécie.

Ben McKee, o executivo-chefe da Capilano Honey, maior produtora de mel da Austrália, tem pilhas de pesquisas para apoiar o valor de seu produto para a saúde, além de recortes de notícias australianas do século XIX com referências ao arbusto manuka, que até algumas décadas atrás era considerado por todos como pouco mais que uma erva daninha.

Além do argumento da ciência, os produtores da Nova Zelândia fazem uma reivindicação cultural, com base na própria palavra “manuka”, que se originou com os maoris, o povo indígena do país.

Isso adiciona certa sensibilidade à questão que não pode ser ignorada em nenhuma discussão com os produtores australianos, de acordo com John Rawcliffe, porta-voz da Associação do Mel Fator Único de Manuka, em Auckland, na Nova Zelândia.

“Se você pensar em dizer que manuka não é uma palavra maori, não vai chegar a lugar nenhum”, disse ele sobre os australianos que fizeram tais afirmações.

E depois, claro, há o dinheiro. A indústria de mel de manuka da Nova Zelândia rende cerca de US$ 220 milhões por ano, e os produtores estabeleceram uma meta de aumentar esse valor para cerca de US$ 700 milhões nos próximos anos.

Peter Brooks, químico da Austrália cujos laboratórios estudam e testam o mel de manuka de ambos os países há anos, disse que acredita que a Nova Zelândia quer alcançar esse crescimento por meio da exclusividade no mercado.

“Eles não conseguem produzir mais mel. Se excluírem a Austrália do mercado, podem quadruplicar o preço do produto”, afirmou.

Mas a questão não é só a Austrália, disse Rawcliffe, da associação do mel da Nova Zelândia.

Barris de mel em Paengaroa, Nova Zelândia Barris de mel em Paengaroa, Nova Zelândia

Barris de mel em Paengaroa, Nova Zelândia (Adam Dean/The New York Times)

Ele disse que as ações de marca registrada foram abertas porque os arbustos manuka estavam sendo plantados e colhidos em lugares como Espanha, Sérvia, Itália e China, e que produtos inferiores poderiam inundar o mercado.

Ainda assim, a rivalidade com a Austrália “não é agradável”, disse Rawcliffe. “A Austrália é nossa irmã mais velha e temos um relacionamento muito forte, mas esse é um produto da irmãzinha.”

As duas irmãs têm de fato fortes laços comerciais e de segurança. Travaram guerras juntas, e seus líderes se reúnem todos os anos. Mas elas também brigam, às vezes amargamente, mais recentemente por causa da deportação de centenas de neozelandeses da Austrália, muitos por motivos de “caráter”.

Uma fonte de revolta entre os australianos na disputa do mel é o fato de que o governo da Nova Zelândia recentemente resolveu ajudar financeiramente o processo legal. Os apicultores australianos lutam para obter assistência de seu governo.

Mas os produtores australianos ainda podem obter ajuda de uma fonte improvável. Tom Walters, chefe do Instituto de Pesquisa Maori, cujas terras tribais na Nova Zelândia são arrendadas a produtores de mel, disse estar tão horrorizado com as ações de Rawcliffe e seus colegas ativistas que estava reconsiderando os termos desses negócios.

“Acho absolutamente ridículo que dois países abençoados com um produto tão maravilhoso precisem ir à justiça e diminuir o nome manuka. Em vez disso, devemos juntar esses fundos, colaborar e colocar todo esse dinheiro na ciência e na pesquisa para fornecer mais mel ao mundo.”