Último ‘O Hobbit’ encerra adaptações de Tolkien nos cinemas com muita pancadaria

Das adaptações das obras de Tolkien ao cinema, o terceiro “O Hobbit” é o que melhor consegue transmitir o clima de guerra na Terra Média

Anunciada em 2012, quase dez anos após o fim da trilogia “O Senhor dos Anéis”, a adaptação do livro “O Hobbit” aos cinemas foi recebida com certa desconfiança. Afinal, transformar uma obra de pouco mais de 300 páginas em uma série de três filmes parecia um absurdo, ainda mais tendo em vista que o outro trio de longas-metragens foi baseado em um livro cada.

A falta de confiança foi relativamente justificada na primeira parte da história de Bilbo Bolseiro (Martin Freeman). Não que o filme fosse ruim – visualmente deslumbrante (ainda mais a 48 frames por segundo) e fiel ao livro, ele só não era dos mais animados, e por vezes lembrava mais um documentário do Discovery do que um longa-metragem com anões, hobbits, elfos e orcs.

A segunda parte seguiu quase a mesma linha, mas ganhou um tanto de emoção. E com estreia programada para 11 de dezembro, a terceira, por fim, atinge o ápice no quesito ação – mas ainda sofre com algumas cenas de monotonia, ainda que, desta vez, sejam poucas.

O filme continua a história obviamente do ponto em que o filme anterior parou: após uma batalha árdua, os anões retomam Erebor e deixam o dragão Smaug (Benedict Cumberbatch) revoltado, fazendo-o partir rumo à Cidade do Lago para destruí-la. E é basicamente isso que o vilão tenta fazer no começo de “A Batalha dos Cinco Exércitos”, o que provoca o caos e faz com que apenas a elfa Tauriel (Evangeline Lilly), parte do grupo de Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) e alguns humanos (incluindo a família do herói humano Bard, papel de Luke Evans) escapem do local.

Espadadas, machadadas, flechadas e pancadaria – Em entrevista à revista Entertainment Weekly, o diretor Peter Jackson contou que o filme terminaria com uma batalha de 45 minutos. O que ele não mencionou, no entanto, é que o roteiro tem bem mais do que 45 minutos de lutas: “A Batalha dos Cinco Exércitos” é basicamente composto por elas e por algumas poucas cenas com diálogos e discussões sobre honra, ética, amor e tesouros.

As brigas são protagonizadas às vezes por dois personagens, outras vezes por mais de uma dezena de combatentes e, em maioria, por alguns milhares de soldados. Mas apesar de soar como algo que saturaria o público, as lutas intermináveis provocam mesmo é uma exaustão quase física e, por fim, depois do último ataque do protagonista, alívio.

E isso está longe de ser algo ruim. Das adaptações das obras de Tolkien ao cinema, o terceiro “O Hobbit” é o que melhor consegue transmitir o clima de guerra na Terra Média. O filme mostra as tropas élficas organizadas perfeitamente, os anões comemorando a oportunidade de lutar de novo e os orcs organizados em batalhões – mas apenas mais ou menos alinhados em filas. A música épica composta por Howard Shore, presente nos outros cinco longas-metragens, e o som das trombetas de cada exército, por fim, dão o tom às espetaculares lutas – cujos destaques são realmente as que acontecem mais para o final do filme.

Monotonia – Mas há um problema sério com os combates intermináveis, por mais espetaculares que sejam: eles “viciam”. A ação constante faz com que as cenas com diálogos, discussões e monólogos, por mais que sejam necessárias, pareçam incrivelmente monótonas. O “amor proibido” entre Tauriel e o anão galã Kili (Aidan Turner) – ausente no livro, mas ainda assim interessante – acaba ofuscado, assim como a crise na Cidade do Lago e a história de Bard.

São detalhes da trama principal, no entanto, e isso até justifica não estarem tão presentes no filme. Mas as muitas batalhas acabam por atrapalhar até mesmo o conflito interno que Thorin, o agora rei anão apaixonado por ouro, enfrenta. A briga na consciência do personagem não é deixada de lado, mas fica longe de empolgar ou emocionar – a vontade é de que ela apenas acabe logo para dar lugar a cenas de lutas de verdade. O desfecho dela, aliás, é óbvio – mas nem por isso precisaria ser tão sem graça.

No fim das contas, os únicos momentos sem guerra que realmente fazem diferença são mesmo os finais. E não só pelo alívio provocado pelo cessar definitivo das batalhas – é aqui que aparecem as principais referências à trilogia “O Senhor dos Anéis” e é tocada a canção interpretada por Billy Boyd, que interpreta o hobbit Pippin nos três primeiros filmes. São dois pontos que dão um bom apelo emocional ao filme, que, apesar de ser essencial aos fãs da série (afinal, é provavelmente o último de Peter Jackson), deve divertir só os mais fanáticos por longas de guerra medieval.

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