Túmulo do Rock in Rio: relembre as atrações que sumiram do mapa

Nina Hagen, The Go-go's, B-52's, Deee-Lite, Oasis, Blitz, Eduardo Dussek... Todos eles brilharam no palco do festival, mas desapareceram com o tempo

São Paulo – Mais difícil do que alcançar o estrelato é manter-se em evidência. Um olhar mais atento sobre os 26 anos de história do Rock in Rio reforça essa tese. De Nina Hagen a N’Sync, é extensa a lista de desaparecidos em meio a mais de uma centena de atrações que passaram pelo palco principal do festival em suas três edições brasileiras.

A cantora Nina Hagen, com seu punk alemão e estilo escandaloso, foi uma das sensações em 1985. O ponto alto daquele show foi uma versão endiabrada de My Way, sucesso de Frank Sinatra. Nina é comumente associada ao brasileiro Supla, com quem viria a ter um rápido romance. Ela também gravou uma participação na música Garota de Berlim, da banda Tokyo. Depois disso, a carreira da alemã perdeu força. O fim do contrato com a gravadora CBS e a opção por trilhar um caminho independente contribuíram para o ostracismo da artista.

Hoje, aos 55 anos, Nina ainda é uma personalidade conhecida em seu país natal. Frequenta programas de auditório na TV, mas pouca gente se lembra de uma de suas músicas. Como herança para o mundo pop, a musa do punk alemão deixou apenas o visual e os figurinos excêntricos, que sobrevivem com Lady Gaga.



“É muito difícil dizer por que um artista ficou no caminho. A condução da carreira é algo bem complicado. A cada disco, é preciso provar o que já provou no disco anterior. As grandes estrelas são as mais prejudicadas”, afirma o cantor Zé Ricardo, diretor artístico do Palco Sunset do Rock in Rio.

Muitas vezes, a longevidade de um artista tem o mesmo prazo de validade que o gênero musical no qual está inserido. Um exemplo é o New Wave, que saiu de moda e arrastou uma série de bandas para o esquecimento. Um delas foi The Go-Go’s, formada exclusivamente por garotas. A performance das meninas no Rock in Rio I deixou a desejar. Na época, elas já estavam às voltas com conflitos internos, movidos a egos inflados, o que culminaria com a separação da banda logo depois. Na década seguinte, reuniram-se para alguns concertos de caridade. Desde 1999, voltaram à ativa – embora pouca gente tenha notado. Atualmente, o grupo faz uma turnê nos Estados Unidos, em comemoração aos 30 anos do lançamento do seu álbum de estreia, Beauty and The Beat.

Com o fim do movimento New Wave, também sumiram o B-52’s (Rock in Rio I) – que sobrevive com os hits do passado nas rádios e com herdeiros na música eletrônica de hoje – e o bem-humorado Deee-Lite (Rock in Rio II), que só habita os iPods da geração que ficou presa na primeira metade do anos 90.

“Todos os movimentos são assim. Quando a onda passa, muitos somem e alguns poucos permanecem. Aqui no Brasil, foi assim com a Bossa Nova, com o pagode, com o sertanejo… Costumo dizer que o artista ‘é’, mas comercialmente ‘está’. Muitas vezes, comercialmente fica aquém do seu valor artístico”, analisa Zé Ricardo.


Seja por fracasso comercial, morte ou ruptura, o fato é que muita gente saiu dos holofotes do showbiz para a mais sombria escuridão do esquecimento. A lista parece interminável: A-ha, Information Society, INXS (devido à morte do líder do grupo), Happy Mondays (que ninguém de bem sabe o que era), New Kids on the Block, Billy Idol, Colin Hay, Yes, Oasis, Silverchair…

Axl Rose – Já o Guns N’ Roses é um caso totalmente à parte. É intrigante como a banda de Axl Rose – mesmo sem Slash e após o fracasso do álbum Chinese Democracy – ainda consegue mobilizar multidões no Brasil. A formação original tocou apenas no Rock in Rio II, no Maracanã. Dez anos depois, eles voltariam ao país para fazer um dos melhores shows da terceira edição do festival. Mais uma década se passou, e, apesar dos sinais de envelhecimento no rosto e no corpo de Axl, a popularidade do Guns permanece intocada.

“Não consigo entender. A popularidade do Guns foi uma surpresa muito grande para mim. Eles estão fora da mídia há muito tempo, mas é inacreditável a força dos fã clubes deles aqui”, conta Zé Ricardo.

Em menor escala, o mesmo acontece com o Faith No More (Rock in Rio II), que se separou em 1998. A banda até se reuniu novamente, mas a figura do vocalista Mike Patton ainda carrega sua própria legião de fãs. Ele é uma das atrações do Palco Sunset Rock in Rio 2011, ao lado da Orquestra de Heliópolis.

Brasileiros – Os artistas brasileiros também são vítimas do desgaste do tempo. O Barão Vermelho – que tocou nos Rock in Rio I, II e III – chega desmembrado à próxima edição. Em período sabático, a banda vai se apresentar separadamente no festival. O vocalista Frejat tocará no Palco Mundo, enquanto o baterista Guto Goffi e o baixista Rodrigo Santos mostram seus trabalhos solo na Rock Street.

Os Abóboras Selvagens do Kid Abelha, que mudou de nome e de estilo, estão cada vez mais domados e menos selvagens. O grupo fez uma pausa de três anos, voltou a fazer shows no fim de 2010 e, desde então, aposta na retomada da sonoridade que lhe rendeu hits nos anos 1980.

Já a Blitz, fenômeno do início da década de 1980, teve uma trajetória meteórica. O grupo desfez-se em 1984, dias após o lançamento de seu terceiro álbum. Mesmo assim, reuniu-se para o Rock in Rio I, no ano seguinte. Na segunda metade da década de 1990, lançou dois discos com a participação de alguns ex-integrantes. A repercussão foi nenhuma. Hoje, o líder da banda, Evandro Mesquita, é um bem sucedido ator de televisão, e Fernanda Abreu construiu uma respeitável carreira como cantora solo.

Outro exemplo parecido é o do cantor Eduardo Dussek, que estava no auge da fama no Rock in Rio I. Ele acabou deixando a carreira musical de lado durante a década de 1990, tendo trabalhado como ator e diretor.