Tania Maria lança a sua Canção do Exílio

A saudade permeia o álbum “Tempo”, mais recente trabalho da jazzista maranhense Tania Maria, que construiu sólida carreira no exterior

São Paulo – Tania Maria deixou o Brasil em meados da década de 1970 e, desde então, vive em estado permanente de banzo. Requisitada no circuito jazzístico internacional, a pianista e cantora nunca regressou. Chegou a passar 30 anos sem se apresentar por aqui – só recentemente é que ela reencontrou nossos palcos, com shows em 2005, 2007, 2008 e 2011. Na sua obra, porém, o país nunca perdeu espaço. A cada disco, a maranhense criada em Volta Redonda (RJ), hoje com 63 anos, aprofunda a busca por suas raízes.

Tempo, lançado recentemente na França e com previsão de chegar aos mercados britânico e norte-americano no próximo mês, é mais um capítulo nessa procura pela pátria a que, de certa forma, a cantora renunciou. Registrado só com piano, voz e contrabaixo, o álbum repete a fórmula do espetacular Tania Maria in Copenhagen (1979), dividido com o baixista dinamarquês Niels-Henning Orsted Pedersen (1946-2005). Dessa vez, o baixo acústico fica a cargo de Eddie Gomez, porto-riquenho que durante anos integrou o conjunto do norte-americano Bill Evans. O resultado é exuberante. Tempo chega perto do que a artista produziu em sua fase mais cultuada, que vai do final dos anos 60 até a metade dos 80.

Suingue

Dois temas da década de 1950 chamam a atenção entre as oito faixas. Um é Bronzes e Cristais, gravado por Maysa em seu terceiro álbum. Fica clara a intenção de homenagear uma cantora e pianista de personalidade tão forte quanto a de Tania. A outra canção do período é A Chuva Caiu, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, registrada por Angela Maria em 1956. Quase na mesma pegada, Estate, standard que João Gilberto popularizou em 1977, aparece logo na abertura do disco.

Mas a releitura que se destaca é a de Sentado à Beira do Caminho, composição de Roberto e Erasmo Carlos, que Tania exibiu aqui nos shows de 2007 e não tem mais constado nos seus setlists. Ela assistiu à coroação do Rei com desdém enquanto ainda morava no Brasil. Já no auto-exílio – conforme contou numa apresentação no Teatro Fecap (SP) –, reconheceu que Roberto tinha “uns bolerões bonitos”. A balada, que trata de saudade (como todo o repertório de Tempo), nunca tinha sido interpretada com tamanho suingue.

Ainda no quesito balanço, nada supera Dear Dee Vee, um samba autoral, já gravado em 1993. O tema arremata um bloco com três instrumentais em que o diálogo entre o piano de Tania e o baixo de Gomez fica mais nítido. No encerramento, surge a faixa-título, que é basicamente um refrão cantado três vezes ao longo dos 8 minutos e 24 segundos de uma belíssima melodia. “Não ponha a culpa no tempo, não/ O tempo que passou foi bom, bobão”. Com Tania Maria na vitrola, não há tempo ruim.