Se for para beber um vinho “glu-glu”, prefira groselha

Nossa colunista explica que "glu-glu" pode ser desde um vinho simples até um complexo, mas com menos álcool e, por isso, consumido em maior quantidade

Implico com essa expressão, vinho glu-glu. Que diabos é um vinho glu-glu? Pode ser qualquer coisa, desde um vinho muito simples, para não dizer porcaria, até um vinho bastante complexo nos aromas mas com menos álcool, mais acidez e/ou menos corpo, portanto, que não pesa e pode ser consumido em maiores quantidades.

A expressão virou moda, é usada por sommeliers e jornalistas especializados à exaustão. “Amo vinho glu-glu”, “Com comida, o que vai melhor é um vinho glu-glu”, “Sabe? É um vinho glu-glu…” . 

Falam e, por vezes, até escrevem isso, como se todo mundo gostasse de vinho glu-glu.

Gosto de quem leva vinho a sério. Isso não significa que temos de escolher sempre vinhos caros ou pesados, daqueles que uma taça já enche barriga. Muito menos quer dizer que temos de fazer comentários enoidiotas sobre o que está no copo.

Não quero complicar o ato de beber vinho. Quero apenas que as pessoas prestem atenção no que estão bebendo, desfrutem, explorem (caladas) os aromas e, principalmente, tenham respeito pelo trabalho dos produtores.

Ou seja, que tenham uma postura semelhante à apregoada pelo movimento Slow Food em relação à comida.

Esta semana estive numa degustação na loja e wine bar Vinum Est, na qual provamos três vinhos da vinícola toscana San Felice.

Na hora de apresentar o Chianti Classico Riserva Grigio 2013, Anna Rita Zainer, proprietária da Vinum Est, começou a dizer que aquele era um vinho fácil de beber, mas logo se corrigiu

“Fácil, não, porque ele é um vinho complexo, cheio de nuances. Melhor é dizer que é um vinho que dá vontade de de beber mais e mais.” Definiu bem.

Então, gostaria de lançar aqui todo o meu apoio aos tintos que “pedem para que a gente vá até o fim da garrafa” e o meu repúdio aos que parecem groselha, só frutinha.

Porque, nessa onda do vinho glu-glu, já vi até especialista dizendo que adora Sangue de Boi. Juro!

Como para tudo há um limite, sugiro que você passe longe dos glu-glu e, quando for o caso de beber vinhos leves, invista em rótulos com frescor, mas cheios de personalidade e história, como os a seguir.

Chianti Clássico Riserva Il Grigio 2013

Chianti Clássico Riserva Il Grigio 2013

 (Reprodução/Divulgação)

Tem corpo. Não é exatamente um vinho levinho. Mas esse corpo é tão equilibrado pela acidez que o vinho fica leve.

Um casal mata uma garrafa brincando. É o que se chama um vinho gastronômico. Vai super bem com comida.

Os Chianti Classicos são o filé mignon da região de Chianti, vinhos super elegantes que competem hoje em pé de igualdade com Brunellos,  Borgonhas, Barolos.

Este é 100% sangiovese, seus aromas são diversos. A fruta vermelha se sobressai, mas há ervas, alcaçuz, algo animal, algo medicinal. Custa R$ 266, na Império du Vin.

Leyda Pinot Noir Reserva 2016

VINHO TINTO LEYDA PINOT NOIR RESERVA 2016 750 ML

 (Reprodução/Divulgação)

O pinot noir do Chile é bem diferente do da Borgonha, na França, sua terra de origem. São vinhos mais simples, mas já há exemplares com uma boa complexidade de aromas, equilibrados, bastante bons.

Esse é o caso deste rótulo da Viña Leyda, que fica no Vale de Leyda, que faz parte do Vale de Santo Antonio, muito próximos ao litoral.

Essa proximidade com o gelado Pacífico traz um ótimo frescor para o vinho. Os aromas são de frutas vermelhas,goiaba, algo de terroso e animal. Custa R$ 74, na Grand Cru.

Concerto Reggiano

MEDICI ERMETE LAMBRUSCO REGGIANO CONCERTO

 (Reprodução/Divulgação)

Não desista de ler esta nota! É um lambrusco. Apesar da justificável má fama da denominação de origem, no entanto, este rótulo da vinícola Medici Ermete é ótimo.

Tanto que em 2010 recebeu 3 bicchieri, a nota máxima no prestigioso guia de vinhos italianos Gambero Rosso.

Para começar, ele é totalmente seco. No nariz, além da groselha vermelha, tem rosas, especiarias. Na boca, tem ótima acidez e um certo corpo, além das borbulhas.

Mas também não é barato. Custa R$ 117, na Decanter.